segunda-feira, 15 de maio de 2017

A história o condenará | Dora Kramer


- Revista Veja

Diante de Moro, Lula foi mais Lula do que nunca, um fingidor

O réu clama por provas, se diz vitima de uma “caçada jurídica”, mas não dá mostras de que seja capaz fornecer ao juiz elementos suficientes para que firme sobre sua inocência. Cobra dos investigadores assertividade, mas na condição de investigado oferece apenas evasivas. Acusa os meios de comunicação de produzir contra ele noticias negativas baseadas em “ilações”, embora tenha tido sempre todo o espaço disponível e nunca se disposto a ocupá-lo com entrevistas de perguntas livres e participação de profissionais não alinhados, independestes.

Luiz Inácio da Silva, o réu em tela, acha que a história o absolverá e por isso busca escrever uma versão que lhe seja favorável nesse presumido julgamento futuro. O problema, contudo, são os fatos, e neles se baseiam os historiadores. Noticia disso dá a trajetória do inspirador dessa pretendida absolvição histórica, Fidel Castro. As próximas gerações conhecerão o herói de Sierra Maestra, mas saberão também de seu legado ditatorial e opressor de um povo sem liberdade nem condições minimamente confortáveis de sobrevivência.

A história de Lula é diferente. Fruto da redemocratização do Brasil, cresceu na política justamente porque a nova ordem institucional garantia direitos coletivos e individuais fundamentais, entre os quais a liberdade de expressão, reunião, manifestação votação, etc. Conceitos absorvidos de maneira completa pela sociedade, que passou a defende-los com uma convicção tal que as investidas autoritárias do PT em geral, de Lula em particular, não prosperaram.

Aos esquecidos, dois exemplos: a tentativa de criar um conselho para regular e fiscalizar a atividade da imprensa e o arroubo ditatorial de Lula de ordenar a suspensão do visto do correspondente do The New York Times, Larry Rother, porque o jornalista discorrera sobre a amizade do presidente com as bebidas alcoólicas. A sociedade já devidamente consciente rejeitou as duas ideias, obrigando o petismo resultados autocráticos a recuar. A tendência ao nepotismo, no entanto, estaria presente sempre na ojeriza a existência de oposição, no regozijo com a popularidade quase unânime e agora na tentativa de transformar seus investigadores em inimigos da pátria.

Diante do juiz Sergio Moro, interlocutor frio, lógico e imune às iniciativas canhestras de estabelecer identificação artificial, Lula foi mais Lula do que nunca. Mentiu, tergiversou, fez o que sabe fazer melhor: exercitar suas características de fingidor. Fingindo tão completamente que finge sentir que é dor, a dor que deveras sente. Fernando Pessoa criou seu fingidor no espelho.

E a dor, aquela do medo de atravessar o espelho, vai ser estancada pelo receio de recair, outra vez sentir o que jamais gostaria de sentir. Por outra, me mantenho sóbria e chamo outros a fazer o mesmo. A fim de que possamos vigiar, fiscalizar, analisar e, enfim, concluir que a vida é a vida. Absoluta e maravilhosa. A despeito da roubalheira que nos assola.

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