quinta-feira, 9 de março de 2017

Os salvadores da política - José Roberto de Toledo - O Estado de S. Paulo

Os salvadores da política - José Roberto de Toledo

- O Estado de S. Paulo

Tese salvadora sofreu derrota na terça, quando STF decidiu que caixa 1 pode ser ilegal

O PSDB – Aécio Neves e Fernando Henrique à frente – está em campanha para “salvar a política”. O senador usou a expressão em jantar com colegas de outros partidos (do PSB ao PSOL) no clube da categoria, o restaurante Piantella de Brasília, segundo relato da repórter Marina Dias. Já o ex-presidente foi menos genérico: saiu em defesa não só da política, mas de políticos, um em especial. Segundo FHC, Aécio é vítima de “notícias alternativas” e de “mau serviço” prestado pela imprensa.

Não é mimimi, como gostam de dizer. É parte de estratégia mais ou menos organizada para tentar separar políticos já liquidados pela Lava Jato dos que buscam salvação. Seu instrumento é diferenciar a caixa de campanha do mesmo dinheiro odebrechtiano que outros usam para comprar diamantes. Seria “apressado e equivocado” concluir que, por conta dessas ideias, os criadores do real dão valores diferentes a notas iguais de sua moeda.

Salvação similar foi tentada, não faz muito tempo, por petistas que estão vivendo em Curitiba ou se mudaram para o setor de prisões sul, em Brasília, e já não frequentam o Piantella.

A tese salvadora da política versão tucana sofreu derrota na terça-feira. Turma do Supremo Tribunal Federal decidiu que dinheiro de caixa 1 pode ser tão ilegal quanto do caixa 2. A maioria dos ministros transformou o senador Valdir Raupp (PMDB-RO) em réu no processo em que é acusado de receber propina de R$ 500 mil da construtora Queiroz Galvão disfarçada em doação oficial de campanha em 2010. A maioria também considerou que, além de corrupção passiva, pode ter havido lavagem de dinheiro.

Não se trata de derrota definitiva porque Raupp não foi julgado nem a decisão envolveu todos os ministros do Supremo. Mas o entendimento preliminar de parte dos magistrados contraria a narrativa de que há dinheiro limpo e dinheiro sujo: há dinheiro. Muito.

E sempre. Dia antes em outra corte, delator da Odebrecht disse ao Tribunal Superior Eleitoral que a empreiteira pagou US$ 3,4 bilhões de propina em apenas nove anos. Hilberto Mascarenhas apresentou um revelador fluxograma dos dólares que passaram pelo propinoduto nesse tempo. Curiosamente, o valor desembolsado com corrupção em 2007, 2009, 2011 e 2013 foi 13% maior do que o gasto em 2006, 2008, 2010, 2012 e 2014 – na média anual. Como diz outro líder tucano, eleição no Brasil é em ano par.

O fato de a empreiteira gastar mais com políticos e autoridades em anos não eleitorais conta história um pouco diferente da versão salvadora. Sinaliza que o financiamento das eleições não é a causa de toda a corrupção que aflige a política no Brasil. Sabe-se disso desde a ditadura – quando não havia eleições e sim censura, que vetava notícias sobre corruptos. Foi também uma época de triunfo para muitas das empreiteiras da era petista.

Apesar de divergirem sobre a distribuição de poder, cargos e verbas dentro do governo Temer, PMDB e PSDB convergem sobre a necessidade de salvar a política. Em reunião na terça à noite, senadores peemedebistas reagiram com indignação à decisão do Supremo que tachou de propina as doações oficiais de empreiteiros ao colega de bancada Valdir Raupp. “Isso é uma loucura, estão criminalizando a política como um todo”, disse Jader Barbalho, segundo relato do repórter Fernando Rodrigues.

Em sua campanha, os salvadores da política se juntam para combater os salvadores da pátria. Acenam com o risco de a desgraça dos políticos e de a criminalização da política consagrar um outsider. Por tratar da própria sobrevivência da espécie, é um argumento que une partidos governistas e de oposição. Até uns e outros encontrarem seus próprios salvadores.

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