domingo, 12 de março de 2017

Elogio de Marco Túlio Cícero - Carlos Nougué

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Carlos Nougué

A ALTURA DE CÍCERO[1]

Apesar de a figura de Marco Túlio Cícero (Arpino, 106-Caieta, 43 a.C.) sempre se ter afigurado paradoxal ou contraditória nos livros que dele falavam, desde jovem nunca hesitei na admiração, algo confusa, que sentia por ele.
Admirava-o como filósofo? como retórico? como político? Mas obviamente Cícero, o Túlio a que com respeito tantas vezes se refere Santo Tomás de Aquino, não foi tão grande filósofo como Platão ou Aristóteles; faltava-lhe um sistema, uma visão orgânica, a solução intelectiva do mundo. Tampouco se mostrava original, sendo aparentemente, como seus pares romanos, um simples eclético na tentativa de conciliar grande parte das escolas filosóficas precedentes.
Como retórico, era sem dúvida grande, o que porém não era bastante para alicerçar-me a admiração por ele. Se se tratava do político grande que também sem dúvida foi, já aumentava um pouco a possibilidade de minha admiração ter fundamento. Mas não tanto para justificar a própria grandeza dela. Donde pois me provinha aquela inclinação que me fazia ler com avidez e verdadeira simpatia as obras do romano?
Hoje, beirando já a casa dos sessenta, creio ter a resposta. Com efeito, era Cícero um mosaico de qualidades. Historicamente, foi um verdadeiro vaso comunicante tanto entre o pensamento helênico e o pensamento romano como, mais tarde, entre a cultura antiga e os Padres latinos (com especial influência sobre Santo Agostinho, Santo Ambrósio e São Jerônimo). O Pai da Pátria dos romanos conseguiu de fato transplantar a cultura grega para o então solo rústico da sua pólis, dando-lhe uma orientação ética geral e solidificando, desse modo, aquela cidade que progressivamente se confundia com quase todo o orbe conhecido. Mais que isso, porém: deu à língua latina porte científico ao dotá-la, num esforço de adaptação do léxico filosófico grego, de vocábulos para as coisas e ideias que povoavam o universo da sabedoria. Pode-se assim dizer, em sentido lato, que Roma teve três fundadores: Rômulo, Virgílio e Cícero.
Terá, todavia, o filósofo Cícero a mesma altura que o vaso comunicante entre três mundos e o fundador Cícero? Ainda considerando suas grandes contribuições naquele terreno, como o ter firmado grandemente a noção de lei natural (que porém só se consolidaria definitivamente com Santo Tomás), não se pode negar, por um lado, sua inferioridade com relação a um Aristóteles — a cuja filosofia, todavia, como mostrei em outro lugar,[2] tendeu grandemente. Por outro lado, há homens cuja obra, se assim se pode dizer, são grandes por razões extrínsecas a ela. De fato, Cícero, que como filósofo era antes de tudo um seguidor de Sócrates, igualou-se ao mestre não no plano da invenção especulativa, mas no do exemplo vital diante da morte.
Precisamente, o que sem dúvida remata a figura de Cícero em toda a sua grandeza é a absoluta concordância entre o seu pensamento e a maneira como ele se portou na hora de perder a vida. Antes de ser degolado por sicários a soldo de Marco Antônio, primeiro pronunciou aristotélica e, digamos, pré-cristãmente: “Causa das causas, tem misericórdia de mim”, e depois, ao estender ele próprio o pescoço para o golpe fatal, proferiu socraticamente: “Morra eu na pátria que tantas vezes salvei”.
Mais portanto do que elucidar-me uma admiração juvenil, o conhecimento preciso de Cícero confirmou-me o que com grande propriedade alguém já dissera: “Na história, só importam os heróis e os santos [e os sábios, acrescento eu]”.




[1] Apresentação de O Sonho de Cipião, de Marco Túlio Cícero, apresentação, tradução e notas Prof. Dr. Ricardo da Costa 
(http://www.ricardocosta.com/sites/default/files/pdfs/sonhocipiao.pdf).
[2] Na Apresentação de Do Sumo Bem e do Sumo Mal (De finibus bonorum et malorum), trad. Carlos Nougué. São Paulo, Martins Fontes, 2004.

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