domingo, 19 de fevereiro de 2017

O furacão Odebrecht - Mario Vargas Llosa*

O furacão Odebrecht - Mario Vargas Llosa*

- O Estado de S. Paulo

Casos de corrupção em países da América Latina são chance para regenerar a democracia

Algum dia teremos de erigir um monumento em homenagem à empresa brasileira Odebrecht, porque nenhum governo, empresa ou partido político fez tanto quanto ela desvelando a corrupção que corrói os países da América Latina, nem trabalhou com tanto ânimo para fomentá-la.

A história possui todos os ingredientes de um grande thriller. O empresário brasileiro Marcelo Odebrecht, dirigente da companhia, condenado a 19 anos e 4 meses de prisão, com seus principais executivos, depois de passar algum tempo entre as grades manifestou, para ter sua pena rebaixada, sua disposição em relatar todas as safadezas que cometeu – no Brasil, chamam isso de delações premiadas.

Ele começou a falar e da sua boca – e das bocas de seus executivos, saíram cobras e venenos que fizeram tremer todo o continente, a começar pelos seus presidentes, atuais e anteriores. Marcelo Odebrecht me lembra o tenebroso Gilles de Rais, o valente companheiro de Joana D’Arc, que, chamado pela Inquisição da Bretanha para responder se era verdade que havia participado de um ato de satanismo com um cômico italiano, disse que sim, e, além disso, havia violado e assassinado mais de 300 crianças porque apenas cometendo tais horrores ele sentia prazer.

A empresa Odebrecht gastou cerca de US$ 800 milhões em propinas pagas a chefes de Estado, ministros e funcionários de governos para ganhar licitações e obter contratos que quase sempre eram escandalosamente supervalorizados, permitindo à companhia contabilizar lucros enormes. Isso vinha ocorrendo há muitos anos e, por acaso, nunca haveria uma punição se entre seus cúmplices não houvesse um grande número de diretores da Petrobrás, petrolífera brasileira que, investigada por um juiz fora do comum, Sérgio Moro, que abriu a caixa de Pandora – aliás, é um milagre que ainda continue vivo.

Ramificações. Até o momento, há três mandatários latino-americanos implicados nos negócios sujos da Odebrecht fora do Brasil: os do Peru, da Colômbia e do Panamá. E a lista só começou. Quem está na situação mais difícil é o ex-presidente peruano Alejandro Toledo, a quem a Odebrecht teria pago US$ 20 milhões para conseguir os contratos de dois trechos da Rodovia Interoceânica que une, através da selva amazônica, Peru e Brasil.

Toledo, que está fora do Peru na condição de foragido, foi condenado por um juiz à prisão preventiva de 18 meses, enquanto o caso é investigado. As autoridades peruanas comunicaram o fato à Interpol e o presidente Kuczynski telefonou ao presidente americano, Donald Trump, pedindo sua deportação para o Peru – Toledo tem um emprego na Universidade Stanford. O governo israelense informou que não o receberá em seu território enquanto não ficar esclarecida sua situação legal. Até agora, Toledo tem se negado a retornar ao Peru, alegando ser vítima de perseguição política, algo em que nem seus mais inflamados partidários – e são poucos – acreditam.

Fico muito entristecido com esse envolvimento de Toledo porque, como lembrou Gustavo Gorriti em um dos seus excelentes artigos, ele liderou com grande carisma e coragem há 17 anos a formidável mobilização popular no Peru contra a ditadura assassina e cleptomaníaca de Alberto Fujimori, tendo sido um elemento fundamental para sua derrubada.

Não apenas eu, mas toda minha família, o apoiamos com entusiasmo. Meu filho Gonzalo gastou todas as economias que possuía na grande Marcha de los Cuatro Suyos, em que milhares, talvez milhões, de peruanos manifestaram em todo o país em favor da liberdade.

Meu filho Álvaro deixou todos os seus afazeres para apoiar em tempo integral a mobilização em favor da democracia e, depois da derrubada de Fujimori, participou da campanha presidencial de Toledo até o primeiro turno, e foi um dos seus colaboradores mais próximos. Mas depois algo estranho sucedeu: ele rompeu com Toledo, de maneira precipitada e ruidosa. Alegou ter ouvido em uma reunião algo que o alarmou muito: Josef Maiman, o magnata israelense, afirmou que queria comprar uma refinaria que pertencia ao Estado e um canal de TV.

Maiman, segundo denúncias da Odebrecht, atuou como testa de ferro do ex-presidente e serviu de intermediário, fazendo chegar às mãos de Toledo pelo menos 11 dos US$ 20 milhões recebidos para favorecer a empresa na obtenção de contratos públicos. Quando isso ocorreu, achei que a suscetibilidade do meu filho Álvaro era exagerada e injusta e até nos distanciamos um pouco. Hoje, peço desculpas a ele e o aplaudo por suas suspeitas e o olfato justiceiro.

Espero que Toledo retorne ao Peru por vontade própria, ou que o tragam para o país, e seja julgado com imparcialidade. Diferente do que se verificou na ditadura fujimorista, hoje isso é perfeitamente possível. E se for declarado culpado que pague pelos roubos e a traição cometida contra milhões de peruanos que votaram nele e o seguiram em sua campanha pela democratização do Peru contra os usurpadores e golpistas.

Tive bastante contato com Toledo naqueles dias e me parecia um homem sincero e honesto, um peruano de origem muito humilde que pelo esforço tenaz havia – como gostava de dizer – “derrotado as estatísticas”. Eu tinha certeza de que ele faria um bom governo.

O certo é que – safadezas à parte, se ocorreram – tudo foi feito muito bem, pois nos seus cinco anos de governo foram respeitadas as liberdades públicas, a começar pela liberdade de uma imprensa que entrou em choque com ele, e pela boa política econômica, de abertura e incentivos ao investimentos, que propiciou o crescimento do país.

Tudo isso foi esquecido desde que foi descoberto que ele havia adquirido imóveis caros, embora tenha alegado que tudo fora comprado por sua sogra com dinheiro do célebre Josef Maiman. Desculpas que, em vez de eximi-lo de culpa o comprometeram ainda mais.

Onda. As delações premiadas da Odebrecht constituem uma oportunidade magnífica para os países latino-americanos punirem severamente os governantes e ministros corruptos das frágeis democracias que substituíram, na maior parte dos nossos países – exceção de Cuba e Venezuela – as antigas ditaduras.

Nada é mais desmoralizador para uma sociedade do que ver que governantes que chegaram ao poder com o voto do eleitor comum aproveitaram seu mandato para enriquecer, infringindo leis e vilipendiando a democracia. Hoje, a corrupção é a maior ameaça ao sistema de liberdades que vem prosperando na América Latina depois dos grandes fracassos das ditaduras militares e dos sonhos messiânicos dos revolucionários.

É uma tragédia que, no momento em que a maioria dos latino-americanos começa a se convencer de que a democracia liberal é o único sistema de governo que garante um desenvolvimento civilizado, na convivência e na legalidade, o roubo frenético cometido por governantes corruptos conspire contra essa tendência positiva. Aproveitemos as delações premiadas da Odebrecht para puni-los e demonstrar que a democracia é o único sistema capaz de regenerar-se a si mesmo. / Tradução de Terezinha Martino

*É Prêmio Nobel de Literatura

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