segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Luiz Felipe Pondé: "Idosos com Facebook deixam marketing do bem com lágrimas nos olhos"



Ricardo Cammarota/Editoria de arte
Ilustração Pondé


Folha de São Paulo


O que vem a ser o marketing do bem? O marketing do bem é, antes de tudo, uma derivação da esquerda empacotada para o mundo corporativo. Vai bem em palestras caras e dá aos colaboradores a impressão de que podem fabricar armas e ainda assim salvarem o mundo investindo em árvores. Nesse mundo de Deus e do Diabo, tudo pode, contanto que paguemos a fatura do Visa.

Mas essa disciplina também se aplica aos comportamentos individuais. E são esses que mais me interessam como tendência contemporânea. Já disse outras vezes que estou seguro de que, num mundo vindouro, verão nossa época como uma das mais irrelevantes da história, justamente porque somos estragados pelo conforto.

O conforto como categoria (quase) universal produziu uma alienação profunda da realidade. A riqueza em larga escala (apesar do mimimi com a desigualdade social, que é em si um "mercado" à parte) garantiu a existência do maior número de seres humanos mimados que já habitou a face da Terra. O marketing do bem é a "ciência" de cabeceira desses mimados. Quando pensam, são inteligentinhos. 

Quando pensam em si mesmos, são bonzinhos. Quando se enfurecem, postam #repúdio!

A primeira marca do marketing do bem é a mentira como procedimento argumentativo. Jamais enuncie algo que comprometa o conforto moral ou psicológico de quem ouve você. Fazendo isso, você tem uma grande chance de sempre ter aquele que "te segue" como seu consumidor de ideias.

Um praticante desse tipo de marketing sempre investe na ideia de que as novas gerações são mais "evoluídas" e resolvem melhor os problemas clássicos da vida, descritos em ideias como os sete pecados capitais (que considero, ainda, uma das melhores formas de narrar os seres humanos em seus momentos mais difíceis).

Dizer que os mais jovens são mais evoluídos implica um autoelogio, porque os pais e professores desses mais jovens são, evidentemente, os responsáveis por eles serem mais evoluídos. Ao mesmo tempo, dizer isso garante que esses mais jovens permanecerão como consumidores do mercado daqueles que "creem nessa evolução" política e moral.

A substância primeira da moral pública sempre foi a hipocrisia, porque a mentira sustenta o cotidiano quase o tempo todo. É quase uma forma de boa educação em almoço de domingo em família. O marketing do bem nega esse fato (sabido por qualquer pessoa não mentirosa) afirmando que o bem pode ser um produto que acompanha o cheque especial ou uma linha especial de crédito num banco cor-de-rosa. Idosos com Face deixam o marketing do bem com lágrimas nos olhos.

Sendo ele, o marketing do bem, uma derivação do pecado capital da vaidade (ou orgulho, ou soberba), sua primeira intenção é obscurecer as dimensões contraditórias da realidade, por exemplo, que 7 bilhões de pessoas querendo ser felizes implicam, necessariamente, a insustentabilidade desse desejo em nível de massa.

Sabe-se há muito tempo que a esquerda é um fetiche do capitalismo. A verdade desse fato se encontra, antes de tudo, na publicidade dos bancos e na própria adesão dos publicitários ao discurso do bem social e político. Não se encontra qualquer contradição entre as formas mais "avançadas" de branding e a plataforma de qualquer populismo do bem. Negar o lucro como valor absoluto no mundo corporativo é uma das marcas mais "avançadas" do marketing do bem.

O selo dessa forma de marketing é reconhecível a léguas de distância. Mais recentemente, odiar Trump. Trazer flores nas mãos para manifestações.

"Acreditar" num mundo sem guerras. Apoiar tudo que tenha a marca ONU. 

Afirmar-se sem preconceitos. Negar as diferenças que fazem diferença. Propor diálogo com terroristas. Negar o conflito entre modos de vida em lugares como a Europa Ocidental. Praticar qualquer forma de espiritualidade redutível a "energias" e a alimentação sem glúten ou lactose. Sonhar com um mundo matriarcal no qual não existem mães monstruosas. Defender valores "femininos" para pessoas que não querem ter filhos. Nas escolas, sonhar com um mundo de banheiros "livres e iguais" –#haja saco!

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