segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

"Estripulia do Francis", por Ruy Castro



Luiz Carlos Murauskas/Folhapress
Paulo Francis na sede da Folha, em 1982


Em 1968, Paulo Francis saía de seu apartamento em Ipanema e, todos os dias, ia almoçar na cidade com os editores Enio Silveira, da Civilização Brasileira, e Jorge Zahar. Por volta de duas, Francis ia a pé para um de seus empregos, a revista "Diners", na rua do Ouvidor, onde passava a tarde recebendo os amigos —Fernando Gasparian, Millôr Fernandes, Glauber Rocha, muitos mais— e despachando com seus colaboradores fixos: Telmo Martino, Flavio Macedo Soares, Alfredo Grieco e este colunista.

No fim do dia, Francis tomava um táxi e ia para seu segundo emprego, o "Correio da Manhã", na Lapa, onde editava o 2º caderno, diário, e um admirado caderno semanal de cultura. Como eu próprio colaborava no "Correio" e ia lá todo dia, nem que fosse para namorar, fiz várias vezes com Francis esse trajeto. Nunca o ouvi se queixar —era normal para um jornalista ter dois empregos.

Com toda a sua diversidade de interesses —política, história, imprensa, literatura, ópera, absorvidos de forma caótica, sem método—, Francis gostava da rotina. Quem quisesse falar com ele, era só ir à revista à tarde ou ao jornal à noite. De repente, em certa semana, Francis deu para chegar à revista quase na hora de sair para o jornal. Era inédito.

Ninguém lhe perguntou por onde andara, nem ele se propunha a dizer. Mas, por trás dos óculos com 200 graus de miopia, um certo ar moleque o traía. 

Até que ele próprio nos contou sua estripulia. Do almoço com Enio e Jorge, estava indo direto a um poeira da Cinelândia, o Rivoli, para pegar a sessão das duas de um festival de seu herói de infância: Errol Flynn. Em quatro dias, assistira a "Capitão Blood" (1935), "A Carga da Brigada Ligeira" (1936), "As Aventuras de Robin Hood" (1938) e "O Gavião do Mar" (1940).

"Muito melhores do que '2001'!", exclamava.

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