domingo, 12 de fevereiro de 2017

De chalanas a jatinhos - Eliane Cantanhêde


- O Estado de S. Paulo

• Políticos brincam com fogo, apesar da Lava Jato e do desemprego galopante

Em meio à significativa batalha campal no Espírito Santo e aos recorrentes confrontos de rua no Rio de Janeiro, o que mais chamou a atenção na semana política foram a guerra jurídica detonada pelo presidente Michel Temer por premiar Moreira Franco com foro privilegiado e os sucessivos erros dos políticos, que se armam até os dentes contra a Lava Jato, mas ao mesmo tempo insistem em não entender a gravidade da situação, mantendo a velha ostentação como se nada estivesse acontecendo.

Aos fatos: como é possível Alexandre de Moraes fazer um ensaio com membros da CCJ na Chalana Champanhe, uma belíssima casa flutuante no Lago Paranoá de Brasília, como divulgado pela Coluna do Estadão? Ensaios são próprios de shows, de teatros... E por que o senador tucano Aécio Neves tinha de voar para São Paulo num jatinho pago com recursos do Fundo Partidário? O fundo é financiado com o meu, o seu e o nosso suado dinheirinho...

Moraes foi indicado por Temer para o STF sob críticas, por ser então ministro da Justiça e filiado a um partido político, o PSDB. Logo, como já dito neste espaço, ele não apenas tem de ser, mas também tem de parecer honesto, independente, impecável. Dos senadores presentes não se espera muito, mas ele não deve falar um “A” além do necessário, não se expor um tico além do obrigatório, não deixar a mínima brecha para questionamentos da oposição e da opinião pública. Chalana? Pré-sabatina? Com integrantes da CCJ? Faltou prudência ao candidato à toga.

Quanto ao presidente do PSDB: faz sentido recorrer ao Fundo Partidário para um evento relevante num município distante, fora da rota de voos comerciais. Dá para entender. Mas nesse caso, que ganhou notoriedade pelo acidente em Guarulhos? Jatinho? Pago com recursos do Fundo Partidário, que são públicos? Apesar de uns 30 voos diários de Brasília para São Paulo? Faltou prudência ao senador, ex-governador e ex-candidato à Presidência da República.

Essas coisas vão minando mais e mais profundamente a imagem dos políticos, numa semana em que Temer caiu na rede da Justiça por nomear um amigo ministro na hora errada, a Câmara votou pedido de urgência para um projeto que tira da Justiça eleitoral o poder de sanção sobre partidos com contas rejeitadas e o Senado não apenas elege o senador investigado Edison Lobão para presidir a CCJ como joga dez outros enrolados no Supremo na comissão que vai sabatinar o novo ministro do mesmo Supremo.

Pior: essa sucessão frenética de erros ocorre quando a Lava Jato segue firme, a sociedade não consegue - e, infelizmente, não quer - separar o joio do trigo e as delações da Odebrecht já fazem estrago no exterior, ameaçam implodir boa parte do governo, do Congresso e dos partidos do País. E quando um ex-presidente muito popular é réu em cinco (cinco!) processos.

Pensando bem, a prudência anda em falta nas prateleiras da política, com consumidores e contribuintes perplexos com tanta ostentação e demonstração de descaso fora de hora. Entre os lagos das chalanas e os céus dos jatinhos, há mais de 12 milhões de desempregados, motim de policiais militares e saques promovidos por cidadãos e cidadãs comuns no Espírito Santo, confrontos de policiais e manifestantes à luz do dia no Rio, massacres horripilantes nas penitenciárias de Manaus, Natal e Boa Vista. Sei não, mas tem gente que anda brincando com fogo, com excessos em terra, água e mar. Quem paga são as instituições.

Presidentes. Se depois das revelações da Odebrecht o ex-presidente do Peru Alejandro Toledo está com o pé na cadeia e o atual da Colômbia, Juan Manuel Santos, está sendo investigado, imaginem como anda a ansiedade no Brasil...

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