terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Só falta agora os vigaristas do 'politicamente correto' problematizarem Noel Rosa



Reprodução
Música: o músico Noel Rosa. (Foto: Reprodução)
O músico Noel Rosa

Álvaro Costa e Silva - Folha de São Paulo



Por enquanto, Noel Rosa escapou da razia politicamente correta. Suas marchinhas e seus sambas mais carnavalescos – "Pastorinhas" (com Braguinha), "Pierrot Apaixonado" (com Heitor dos Prazeres), "O Orvalho Vem Caindo" (com o pugilista Kid Pepe, que nada fez na parceria), "Até Amanhã" – seguem empolgando foliões.

Escrevi "por enquanto" porque esse tipo de cobrança está na moda e vai continuar, mesmo depois da Quarta-Feira de Cinzas. E porque Noel foi, na música brasileira, uma das primeiras vítimas da "problematização" "" aliás, dupla vítima, tanto do conceito acadêmico que esta palavra encerra como da própria palavra, que é um palavrão de feiura.

Em artigo de 1972, publicado no "Pasquim", Millôr Fernandes desanca um tal de "Wagner" (na verdade, o compositor Jorge Mautner), que acusou Noel de antissemitismo, citando as músicas "Cordiais Saudações" ("Ando empenhado nas mãos de um judeu") e "Quem Dá Mais?" ("Quem arremata o lote é um judeu/ Quem garante sou eu/ Pra vendê-lo pelo dobro no museu"). 

Em sua defesa, Millôr escreve: "Na época, 'judeu da prestação' era uma expressão popular com uma coloração racista tão grande quando se dizer o 'crioulo da padaria' ou o 'careca do armazém'".

Um alvo predileto das atuais restrições é a palavra "mulato". Pois Noel Rosa fez "Mulato Bamba", gravado por Mário Reis em 1932. Ouçam o samba. Mostra como o artista esteve à frente do seu tempo, ao tratar a homossexualidade sem deboche e com simpatia, no retrato do malandro – inspirado em Madame Satã e outros – que desdenha das mulheres: 

"As morenas do lugar/ Vivem a se lamentar/ Por saber que ele não quer/ Se apaixonar por mulher". Para concluir: "O mulato é de fato".

Se não me engano, hoje é Terça-Feira Gorda. Dia de cantar o que bem quiser.

Blocos de rua são a certeza de que os hipócritas do bloco do 'politicamente correto' continuarão assombrando apenas a periferia


Blocos de rua são a certeza de que os hipócritas do bloco do 'politicamente correto' continuarão assombrando apenas a periferia

João Roberto Kelly, Ataufo Alves, David Nasser, Noel Rosa e outros inspiradores de velhos carnavais estariam no ostracismo, se dependessem do apoio dos pilantras que hoje pregam no Brasil (e outras partes do planeta) o politicamente correto. E demonizam quem pretende apenas se divertir.

Ainda bem que o carioca irreverente canta as marchinhas imortais e sustentam o carnaval. Nada contra quem prefere as baboseiras baianas... Afinal, vivemos numa democracia.

Nem o carniceiro Getúlio Vargas, muito menos os generais foram capazes de barrar a alegria do povo cantando 'Nêga do cabelo duro', 'Ô mulata assanhada', 'Olha a cabeleira do Zezé'...

Blocos de rua, sobretudo no Rio de Janeiro, são a certeza de que os hipócritas do bloco do 'politicamente correto' continuarão assombrando apenas a periferia.

Viva o Carnaval!

Viva o politicamente incorreto!

Pelo prazo médio da Lava Jato, Lula pode ficar inelegível durante eleição Estelita Hass Carazzai | Folha de S. Paulo

Pelo prazo médio da Lava Jato, Lula pode ficar inelegível durante eleição

Estelita Hass Carazzai | Folha de S. Paulo

CURITIBA - Se seguirem o ritmo de outros processos, as ações contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que correm pelas mãos de Sergio Moro podem torná-lo inelegível ainda antes do pleito de outubro de 2018.

Levantamento da Folha nas seis ações da Lava Jato já julgadas em segunda instância mostra que levam, em média, 1 ano e 10 meses até chegarem a um veredicto no TRF (Tribunal Regional Federal) –a partir da denúncia.

Mantido esse ritmo, o petista ficaria inelegível em meio à campanha de 2018 –entre julho e outubro.

A inelegibilidade está na Lei da Ficha Limpa, que estabelece que todo condenado por um colegiado está impedido de se candidatar.

Porém, mesmo condenado, o ex-presidente poderia concorrer se pedir uma liminar contra a decisão do TRF até o julgamento de recursos no STJ (Superior Tribunal de Justiça) ou STF (Supremo Tribunal Federal).

O petista, hoje, lidera as pesquisas de intenção de voto para 2018. No Datafolha, está à frente de todas as simulações de primeiro turno. No segundo turno, fica atrás de Marina Silva (Rede).

O advogado de Lula, Cristiano Zanin Martins, afirma que não considera a possibilidade de ele ser condenado.

"Só uma arbitrariedade imensa poderia levar a isso. Não há provas que possam dar sustentação a uma condenação", diz.

VELOCIDADE
Lula responde a dois processos na Justiça Federal do Paraná: num deles, é acusado de ter se beneficiado de dinheiro de corrupção na compra e reforma de um tríplex no Guarujá. No outro, de ter recebido vantagem indevida por meio da Odebrecht, que pagou parte de um terreno onde seria a sede do Instituto Lula. Além disso, é réu em outras três ações que não estão em Curitiba.

Para Martins, as ações têm tramitado de forma "extremamente célere". Ele cita, por exemplo, o indeferimento de provas periciais solicitadas pela defesa e a falta de adiamento de audiências em função do luto pela morte da ex-primeira-dama Marisa Letícia –pedido que foi acatado por um juiz em Brasília, em outra ação contra Lula.

O processo contra o petista tem sido um dos mais beligerantes da Lava Jato. A defesa, que tem se envolvido em debates constantes com Moro, afirma que a tática da acusação é a do "lawfare", ou seja, eleger Lula "como inimigo" e construir uma denúncia "frívola", sem provas objetivas do envolvimento em irregularidades.

O juiz, por sua vez, já se queixou mais de uma vez de que os advogados tumultuam o processo, fazendo perguntas que não têm relação com a ação.

Ao aceitar a denúncia, Moro avaliou que há um "modus operandi consistente" do ex-presidente de usar o nome de terceiros para ocultar patrimônio. Além disso, considerou os pedidos de perícia "manifestamente desnecessários ou impertinentes, ou com intuito protelatório".

"A ampla defesa, direito fundamental, não significa um direito amplo e irrestrito à produção de qualquer prova", escreveu o juiz.

O ritmo da ação é similar a outros processos da Lava Jato sob Moro.

LEI ELEITORAL
Ainda que seja condenado pelo TRF e se torne inelegível, Lula teria recursos para disputar a eleição, segundo advogados eleitorais ouvidos pela Folha.

O ex-presidente pode pedir uma liminar para suspender os efeitos da decisão.

"Isso tem sido corriqueiro, precisamente para corrigir erros que o tribunal possa cometer na sentença", diz o advogado Luiz Fernando Pereira, especialista em direito eleitoral.

Alguns advogados acham difícil que ele consiga reverter uma eventual condenação em segunda instância.

Outros, porém, ponderam o custo político da decisão de cassá-lo depois de emitido o registro e realizada a votação –isso no caso de haver uma condenação pelo TRF em plena eleição.

"O Tribunal Superior Eleitoral tem uma ótica muito própria. Será que iria querer desestabilizar um país que já vem de um processo complicado?", questiona a advogada Carla Karpstein.

O cenário, destacam os especialistas, ainda pode mudar: o TSE tem revisto as regras eleitorais praticamente em todos os anos.

IMPRENSA E PARCIALIDADE: UM DEBATE COM O JORNALISTA GUSTAVO POLI - Flavio Gordon

Acusados de parcialidade, os profissionais da imprensa brasileira tendem a se defender por meio de um silogismo capenga. Mas será mesmo que a mídia é imparcial?
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“Si entre no haber sido y ser 
hubiera el hombre elegido, 
claro es que hubiera escogido 
el no poder escoger”
(Ramón de Campoamor, o poeta dos isentões)
Dia desses, ao percorrer as tortuosas estradas das redes sociais, acabei indo parar por acaso no meio de uma interação virtual com o jornalista Gustavo Poli, da Rede Globo. Nos velhos tempos, mais ou menos lá pela época da festa de quinze anos da saudosa Inezita Barroso, a interação provavelmente teria sido chamada de entrevero, quiproquó, banzé, celeuma ou, muito simplesmente, de debate sobre o papel da imprensa brasileira. Hoje, chamam-na de “treta”.
Ela – a treta – dizia respeito ao viés de esquerda da imprensa brasileira, que eu afirmava e Poli negava. O argumento por ele apresentado é moeda-corrente dos jornalistas da grande imprensa quando postos na defensiva, e consiste no seguinte silogismo: se tanto a direita quanto a esquerda nos acusam de tender para o lado oposto, logo isso prova que temos agido de forma isenta e equilibrada.
O silogismo em questão é uma espécie, tipicamente jornalística, daquele gênero retórico descrito pelo filósofo Olavo de Carvalho como o argumento do “gostosão intelectual”:
“A fórmula é a seguinte: invente duas crenças opostas totalmente imaginárias e igualmente bocós, atribua-as a dois indivíduos quaisquer (que provavelmente jamais ouviram falar delas) e declare-se superior a ambas. Não é preciso explicá-las, nem discuti-las, nem provar que seus indigitados porta-vozes têm mesmo algo a ver com elas. Apenas dê um nome a cada uma e afirme, peremptoriamente, que são duas bobagens antagônicas, que você não cai num engodo nem no outro, que está acima de correntes de opinião, ideologias, estereótipos, o escambau.
A proclamação simples e direta de superioridade, desacompanhada dessa moldura de antagonismos, pode soar presunçosa e dar efeito negativo. Espremida entre duas alternativas abomináveis (pouco importa que perfeitamente inexistentes), adquire uma nobreza, uma elevação, um ar de insight dialético que é uma coisa de louco, maninho. Experimente e observe a reação da platéia, todos se olhando uns aos outros e confessando: ‘Como foi que não pensamos nisso antes? Que coisa mais genial! Nós, aqui, atormentados num dilema insolúvel, e então vem esse iluminado e nos liberta das falsas alternativas!’”
Vejam se o raciocínio do jornalista Gustavo Poli não se encaixa na fórmula:
“O que está claro é que toda teoria conspiratória é autoimune. Hoje temos um fantástico cenário no brasil onde direita e esquerda acusam a imprensa de ter a agenda adversária – e ambas não se tocam. Meu comentário é sempre ecoar a navalha de Hanzon: não se deve atribuir à malícia o que pode ser mais facilmente explicado pela incompetência. O Brasil seria muito pior se não tivesse vilões de desenho Disney”.
Imprensa e parcialidade, jornalistas de esquerda contra a direita
Transcrevo a seguir a minha resposta, e rogo aos leitores do Senso Incomum para que fiquem sempre alertas diante dessas tentativas de disfarçar a parcialidade pró-esquerda sob a capa de um isentismo postiço erguido sobre um non sequitur. Eis o que eu disse ao Poli (ou, antes, do Poli):
Acho que essa interpretação decorre do vício de raciocínio de achar que sempre, e necessariamente, a virtude (e a verdade) está no meio-termo entre duas posições extremas. Ora, do fato de que um sujeito afirme enfaticamente que 2+2=5, e outro, que 2=2=4, não segue que a verdade esteja no meio-termo, ou seja, no 4,5. Não. O primeiro sujeito está errado. Bem como está errada a esquerda ao apontar um viés de direita na imprensa brasileira.
Em primeiro lugar, isso seria sociologicamente impossível. Os profissionais do jornalismo são formados nas universidades, onde o predomínio de uma visão-de-mundo de esquerda (que, não obstante, quase nunca se traduz em uma doutrina clara e racionalmente formulável) é inegável. Seria um fenômeno verdadeiramente miraculoso que em nossa imprensa houvesse um certo equilíbrio entre esquerda e direita quando não há nem sinal desse equilíbrio nas faculdades de jornalismo (e basta uma consulta nas bibliografias dos cursos para constatá-lo).
O máximo de direitismo observado na imprensa nacional é a presença de jornalistas que se identificam com a defesa do liberalismo econômico puro, e mesmo assim eles são uma minoria. A imprensa brasileira é predominantemente de esquerda, seja a esquerda mais tradicional e de cultura política socialista, identificada partidariamente com o PT, seja a centro-esquerda social democrata (PSDB), ou ainda a esquerda mais contemporânea, interessada nos costumes, como a turma do PSOL, da REDE etc.
Não custa lembrar que, em pesquisa feita com jornalistas brasileiros, o PSOL foi eleito como o melhor partido do Parlamento brasileiro. Ora, trata-se de partido de extrema-esquerda (termo que, aliás, e ao contrário da onipresente “extrema-direita”, parece não existir no nosso vocabulário jornalístico, o que por si só já serviria para desmontar a hipótese do equilíbrio).
Se houvesse realmente equilíbrio de visões políticas no seio do jornalismo brasileiro, seria de se esperar que pelo menos algum jornal adotasse posição editorial mais favorável a Donald Trump nos EUA, por exemplo, ou ao Brexit. Afinal, a preferência por Donald Trump em detrimento de Hillary Clinton e a defesa da saída da Inglaterra da UE foram bandeiras apoiadas por muitos conservadores ao redor do mundo, inclusive por intelectuais brasileiros. Que os argumentos destes não tenham sido minimamente representados na grande imprensa, e sequer mesmo considerados de maneira justa, é mais uma prova de ausência de equilíbrio.
Como, aliás, reconheceu a jornalista da Globo Gioconda Brasil com rara honestidade: “No Brasil não existe cobertura das eleições americanas. Existe torcida pela Hillary Clinton”. Seria impossível a ocorrência dessa torcida praticamente unânime se houvesse algum equilíbrio entre esquerda e direita na imprensa nacional.
Imprensa e parcialidade, jornalistas de esquerda contra a direita
De resto, o fenômeno não é uma peculiaridade brasileira. Em certa ocasião, Arthur S. Brisbane, então ombudsman do New York Times, publicou no jornal uma excelente auto-crítica, reconhecendo o predomínio do pensamento de esquerda na redação. Escreveu ele:
“Eu também notava, há dois anos [em sua coluna de estréia], que assumi as funções de ombudsman acreditando ‘não haver conspirações’, e que a produção do Times era por demais vasta e complexa para ser ditada por algum indivíduo ou cabala ao estilo Mágico de Oz. Eu ainda acredito nisso, mas também percebo que o formigueiro na Oitava Avenida [onde está localizada a sede do jornal nova-iorquino] é fortemente moldado por uma cultura de mentalidades afins [“a culture of like minds”, no original] – um fenômeno que acredito ser mais facilmente percebido de fora do que de dentro.
“Quando o Times cobre uma campanha presidencial [era época da disputa que culminou na reeleição de Barack Obama], eu noto que os principais editores e repórteres mostram-se disciplinados em promover equilíbrio e isenção, sendo usualmente bem-sucedidos. Através dos muitos departamentos do jornal, entretanto, tantos são os que compartilham uma espécie de progressismo político e cultural – por falta de melhor termo -, que essa visão-de-mundo virtualmente transborda para dentro do noticiário.
“Como resultado, processos tais como o movimento Occupy e o casamento gay parecem quase irromper dentro do Times, superestimados e mal-dimensionados, mais como causas do que como objetos de notícia” (grifos meus).
Creio que, pelo visto, nós brasileiros devemos esperar sentados por um exame de consciência equivalente por parte de nossos jornalistas. O que vemos por aqui é negação atrás de negação, no instante mesmo em que o ativismo jornalístico de esquerda se intensifica.
Poli mudou de assunto…

A herança maldita do PT- Bolívar Lamounier


O grande exemplo de País governado por uma elite conspiratória foi ele mesmo, o PT, que nos ofereceu. Ao se associaram ao cartel das empreiteiras, Lula & Cia conspiraram o quanto puderam

- IstoÉ

A era lulopetista feriu a democracia brasileira muito mais profundamente do que se tem em geral admitido. Certos aspectos de seu triste legado estão aí bem à mostra: a corrupção sistêmica, cuja radioatividade está longe de terminar, e as insanidades econômicas do governo Dilma, que elevou para mais de doze milhões o número de desempregados.

Um dos piores estragos, do qual não nos livraremos tão cedo, foi, porém, a conspurcação da linguagem da vida pública.

Aqui me refiro não apenas ao culto sistemático da mentira e à falsificação ideológica da história, mas também ao uso político de aberrações conceituais, essas não raro endossadas por “companheiros” que se autointitulam intelectuais. Desse tipo de falcatrua, o melhor exemplo é a visão de uma sociedade dividida entre “nós” (o povo, os bons, o bem) e “eles” (as “elites”, o mal,
a ganância).

Desde a sua fundação há trinta e seis anos, o PT não se cansa de apresentar a história brasileira como obra de uma elite pequena, coesa, gananciosa, em permanente conspiração contra os trabalhadores e os pobres. Um País de verdade, onde todos tenham oportunidades, só a partir de Lula.

Como se vê, a pedra de toque desse discurso é a noção de elite. Ora, uma elite aristocrática, fruto de uma nobreza hereditária, é evidente que o Brasil não possui. Elite, no Brasil, é o agregado constituído pelos ocupantes das posições mais altas em diferentes hierarquias: os políticos eletivos, alta burocracia civil e militar, os empresários mais importantes, o alto clero das diferentes determinações, os intelectuais e cientistas, e assim por diante. Um agrupamento abstrato, meramente estatístico.

Assim compreendida, compondo-se de milhares de indivíduos, a elite é obviamente incapaz de conspirar, e aqui chegamos à ironia das ironias. O grande exemplo de País governado por uma elite conspiratória foi ele mesmo, o PT, que nos ofereceu.
Ao se associaram umbilicalmente ao cartel das empreiteiras, Lula & Cia conspiraram o quanto puderam, com requintes de profissionalismo. Se foram finalmente pilhados, isso se explica por duas razões.

Um, o tamanho do animal que pretenderam digerir: a Petrobrás. Outro, a enorme extensão de sua prepotência e de seu sentimento de impunidade.

O desespero do PT – Editorial | O Estado de S. Paulo


O Partido dos Trabalhadores (PT), que, mais do que nunca, não passa de um apêndice de Luiz Inácio Lula da Silva, deflagrará uma “guerra” caso seu timoneiro seja condenado pela Justiça em algum dos diversos processos nos quais é réu. Foi o que anunciou seu porta-voz mais fiel, o ex-ministro Gilberto Carvalho, em entrevista ao jornal Valor.

Carvalho não se preocupou, em nenhum momento, em contestar as acusações que pesam contra o Padrinho, pois obviamente não é disso que se trata – e se nem os ativos advogados de Lula da Silva conseguem alinhavar argumentos em sua defesa, por que Carvalhinho o faria? Para Carvalho, como para os petistas em geral, o único crime pelo qual Lula será condenado é o de ter ajudado os pobres. Por essa razão, ele entende que haverá uma mobilização tão grande em defesa de Lula que “eles pensarão duas vezes antes de fazer bobagem”, isto é: os tribunais não terão coragem de confirmar sua eventual condenação. Não há outra maneira de entender as inspiradas palavras de Carvalho – leia-se Lula. Ele aposta que a mística em torno do grande líder será capaz de levar a militância às ruas para intimidar os magistrados.

O PT sabe que, se os processos contra Lula forem tratados somente no âmbito jurídico, a derrota do petista é certa, e não porque a Lava Jato “persegue” Lula, mas sim porque, ao que tudo indica, sobram provas contra ele. Não é à toa que a equipe de advogados destacados para defender Lula, em vez de dedicar-se a refutar as acusações, foi até a ONU para denunciar a suposta perseguição política que estaria sendo empreendida pelo juiz Sérgio Moro contra seu cliente. Além disso, usa as audiências com Moro para irritar o magistrado, tentando fazê-lo sair do sério, o que daria argumentos para sustentar a tese de que ele age contra Lula por motivações pessoais.

Para essa gente, a democracia e suas instituições – especialmente a Justiça e a imprensa livre – são inimigas, pois trabalham com fatos, e os fatos a respeito do PT e de Lula são incontestáveis: o partido e seu demiurgo não apenas são os responsáveis pela pior crise econômica da história brasileira, mas também são as estrelas do maior escândalo de corrupção que já se viu no País. Logo, os petistas empenham-se em criar os chamados “fatos alternativos” – nome que se dá a mentiras e distorções criadas para embaralhar a realidade.

Assim, Gilberto Carvalho agride a realidade sem nenhum pudor. Primeiro, quer fazer crer que o PT foi na verdade vítima de grande injustiça por parte da “elite”, que “enxergava no PT a raiz e o máximo da corrupção e agora está vendo quem de fato assaltou o País”. Ao dizer que não foi o PT que “de fato” assaltou o País, Gilberto Carvalho aposta suas fichas na tese de que os brasileiros são todos idiotas. Comporta-se como se o PT não fosse o responsável pelo estado da arte que atingiu a corrupção no Brasil.

Segundo Gilberto Carvalho, a economia afundou depois que a presidente Dilma Rousseff “começou a mexer no andar de cima”, isto é, quando “fez a redução de juros, não privatizou as elétricas e começou a ir para cima da taxa de lucro das concessões”. Foi então que “o capital começou a perder e acabou a brincadeira”. Isso “acendeu esse ódio” e “radicalizou-se tanto que acabaram destruindo a economia do País”. Ou seja, Carvalho realmente pretende convencer os cidadãos, notadamente os desempregados, de que a responsabilidade pela crise não é dela, e sim de seus inimigos. Segundo Carvalho, o governo de Michel Temer está “destruindo a rede social de proteção que fizemos” e, por isso, “pode começar a ter sublevação social”.

É aí que entraria Lula, o Pacificador. O problema é que os “fatos alternativos” dos petistas podem não ser suficientes para esconder a dura realidade de que, além de Lula – que pode não concorrer em razão de seus enroscos com a Justiça –, o PT não tem outro candidato. “Depois do Lula, quem?”, perguntou Gilberto Carvalho. Ao admitir que, sem Lula, o PT pode apoiar Ciro Gomes ou Roberto Requião à Presidência, o ex-ministro deu a exata dimensão do desespero petista.

"Os fatos a respeito do PT e de Lula são incontestáveis" - com O Antagonista

"Os fatos a respeito do PT e de Lula são incontestáveis"


O Estadão, em editorial, trata do desespero do PT, manifestado pela entrevista de Gilberto Carvalho ao Valor. O Seminarista prometeu uma "guerra", caso Lula seja condenado e não possa ser candidato em 2018.
Leia um trecho:
"O PT sabe que, se os processos contra Lula forem tratados somente no âmbito jurídico, a derrota do petista é certa, e não porque a Lava Jato 'persegue' Lula, mas sim porque, ao que tudo indica, sobram provas contra ele. Não é à toa que a equipe de advogados destacados para defender Lula, em vez de dedicar-se a refutar as acusações, foi até a ONU para denunciar a suposta perseguição política que estaria sendo empreendida pelo juiz Sérgio Moro contra seu cliente. Além disso, usa as audiências com Moro para irritar o magistrado, tentando fazê-lo sair do sério, o que daria argumentos para sustentar a tese de que ele age contra Lula por motivações pessoais.
Para essa gente, a democracia e suas instituições – especialmente a Justiça e a imprensa livre – são inimigas, pois trabalham com fatos, e os fatos a respeito do PT e de Lula são incontestáveis: o partido e seu demiurgo não apenas são os responsáveis pela pior crise econômica da história brasileira, mas também são as estrelas do maior escândalo de corrupção que já se viu no País. Logo, os petistas empenham-se em criar os chamados 'fatos alternativos' – nome que se dá a mentiras e distorções criadas para embaralhar a realidade."

Filhotes de Lava Jato pelo país inteiro

Cristiana Lôbo noticia no G1 que Rodrigo Janot deverá encaminhar nos próximos dias cerca de 200 pedidos relacionados à Lava Jato para o ministro Edson Fachin, relator da operação no STF.
Os pedidos vão desde a abertura de inquéritos para investigar políticos até a solicitação do fim do sigilo de delações feitas por dirigentes e ex-dirigentes da Odebrecht.
"A Lava Jato deverá gerar 'filhotes' no Judiciário em todo o país porque, segundo investigadores, as delações da Odebrecht envolvem obras em praticamente todos os Estados e citam ex-governadores, deputados estaduais ou prefeitos que devem ser investigados pelos tribunais estaduais", diz a jornalista.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Os (dez)mandos do populismo - Gustavo Krause

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Há quem diga que populismo não é uma doutrina, mas uma síndrome. Carece de elaboração orgânica e sistemática; as definições se ressentem de ambiguidade conceitual; a divisão arbitrária ocorre entre povo e “não-povo” (Ludovico Incisa, Dicionário de Política, Bobbio, Matteucci, Pasquino. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1986, pags. 980/2).

Trata-se de um fenômeno recorrente na história e objeto de estudo permanente das ciências sociais. Atualmente, desperta especial atenção por conta da mudança de endereço e de figurino. Com habitual maestria, o economista Sergio Buarque constata: “O nacionalismo e o populismo se deslocaram dos antigos países do terceiro mundo para as nações ricas e os antigos impérios coloniais”. E ao se alojar nos EUA, xenófobo e anacrônico, “faz tremer a ordem mundial” (Revista Será?, 11//11/16, revistasera.info).

Por sua vez, o cientista político mexicano Enrique Krauze (coincidência), no ensaio os “Os Dez Mandamentos do Populismo” (aqui renomeado “Os Dez(mandos) do Populismo”), fornece os seguintes traços do fenômeno:

I. O populismo exalta o líder carismático, o homem providencial na perspectiva Weberiana.

II. O populista usa, abusa e se apropria da palavra (todos são verborrágicos e demagogos, amparados pelo marketing do embuste).

III. O populista fabrica a verdade e odeia a liberdade de opinião.

IV. O populista usa o erário como recurso privado, promete soluções simples, rápidas e, invariavelmente, desastrosas para economia.

V. O populista prega e pratica a mágica distributivista, dando benefícios e cobrando obediência.

VI. O populista é maniqueísta e dissemina o ódio conveniente entre “eles” e “nós”.

VII. O populista apela, mobiliza e inflama o poder das massas no teatro da “praça pública”.

VIII. O populista fustiga o “inimigo externo ou interno” como bode expiatório para os fracassos (todo populista é onisciente e infalível).

IX. O populista despreza a ordem legal, incutindo nas pessoas profunda desconfiança nas regras feitas pelos homens.

X. O populista mina, domina, ameaça e elimina as instituições, os mecanismos de pesos e contrapesos da democracia liberal por considerá-los oligárquicos e contrários à “vontade popular”.

Finalmente, cabe atentar para o fato de que o populismo nasce, renasce e viceja à margem dos canais institucionais vigentes. O “povo” é transformado em mito cuja força regeneradora, fascinante e obscura, imotivada e funcional está “latente mesmo na sociedade mais articulada, complexa, pluralista, pronta a materializar-se, de um instante para outro, nos momentos de crise”.

*Gustavo Krause é ex-ministro da Fazenda do governo Itamar Franco

Herança maldita para toda indústria de petróleo - COM O ANTAGONISTA

Bilhete premiado


A respeito do bilhete premiado do pré-sal,vale lembrar que, além da Petrobras, todo o setor de óleo e gás saiu desmantelado depois de dois mandatos e meio de governos petistas.
Apesar de ter feito uma das maiores descobertas da história (as reservas do pré-sal), o Brasil conseguiu reduzir drasticamente nível de exploração de petróleo e também patinou na produção nos últimos anos. E isso não ter a ver com a queda do preço do preço, ocorrida a partir de 2014.
Leia algumas notas sobre o tema:

Herança maldita para toda indústria de petróleo

Economia  15:54
Não foi apenas a Petrobras que saiu ferida de morte pelos petistas e seus aliados, mas toda a indústria de petróleo. O número de descobertas de campos de óleo e gás no Brasil despencou no ano passado, segundo a Agência Nacional de Petróleo. A informação foi dada hoje pelo Valor.
Em 2016, as petroleiras encontraram apenas 22 indícios de óleo e gás em todo o território nacional, número que só perde para 1998, quando houve nove descobertas.
Ainda em 2016, não houve declaração de comercialidade de nenhum campo offshore (localizado no subsolo marítimo, de onde o Brasil extrai quase a totalidade de seu petróleo). Um campo é considerado comercial quando tem petróleo suficiente para compensar o investimento em sua produção.

Herança maldita para toda indústria de petróleo (2)

Economia  15:57
A redução do número de descobertas de petróleo no Brasil não tem a ver com o preço do barril. É, sim, mais uma das consequências nefastas provocadas pela política obtusa e corrupta dos quatro governos petistas.
“A queda do preço do barril, que ocorreu a partir de 2014, não justifica a redução de descobertas”, afirma Adriano Pires, diretor da consultoria CBIE. “Como a descoberta de um campo leva entre quatro e oito anos, as novas áreas que poderiam ter sido identificadas no ano passado deveriam ter sido leiloadas entre 2009 e 2013.”
Foi justamente nesse período de quase cinco anos que a dupla Lula e Dilma suspendeu os leilões de blocos exploratórios. Não custa lembrar que a partir de 1999 a ANP promoveu leilões anuais de blocos exploratórios. A descoberta do pré-sal, inclusive, foi feita em blocos leiloados em 2000 e 2001.
Em 2008, porém, após a descoberta do pré-sal, o governo Lula suspendeu os leilões. A justificativa era defender a soberania nacional. Não se podia entregar o pré-sal para estrangeiros, diziam os petistas. O real objetivo, sabe-se hoje, era manter tudo nas mãos da Petrobras, a galinha dos contratos de ouro, que os petistas pretendiam controlar por vários e vários mandatos.

71,3% dos brasileiros ouviram falar em Doria, aponta pesquisa Com O Globo

71,3% dos brasileiros ouviram falar em Doria, aponta pesquisa

Com O Globo

Em menos de dois meses de mandato, João Doria já plantou o seu nome na cabeça da maioria da população brasileira.
De acordo com uma pesquisa inédita feita pela Paraná Pesquisas em 26 estados, entre os dias 12 e 15 de fevereiro, 71,3% dos entrevistados disseram que conheciam ou ouviram falar no seu nome. No Nordeste, esse percentual é de 70%.
De acordo com a mesma pesquisa, entre aqueles que admitiram ter conhecimento de alguma medida tomada por Doria neste mês e meio, 81,4% "concordam" ou "concordam em parte" com elas.
Não é à toa, que João Doria teve que ir ao encontro de Geraldo Alckmin na semana passada e garantir, de público, que não pretende se candidatar a presidente em 2018.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

HOLANDA APROVA ESTUDO PARA DEIXAR ZONA DO EURO - COM O ANTAGONISTA

Holanda aprova estudo para deixar Zona do Euro

O parlamento da Holanda aprovou, por unanimidade, o início de estudos sobre a viabilidade de deixar a Zona do Euro.
A decisão reflete a preocupação dos holandeses com o futuro da União Europeia e, sobretudo, com a política monetária do Banco Central Europeu.
As conclusões devem ser apresentadas em alguns meses e servirão para que os parlamentares tracem os próximos passos de um eventual “Holanxit”.

Ruy Castro: "Venha o tsunami"

Ruy Castro: "Venha o tsunami"

Folha de São Paulo


David Guttenfelder/Eugene Hoshiko/Associated Press
Destruição após tsunami de 2011 em Minamisanriku, no Japão


Todos ainda nos lembramos dos tsunamis que atingiram a Malásia, a Indonésia e a Tailândia, em 2004, e o Japão, em 2011. Alguns nasceram de um terremoto. Outros começaram por um vazamento da maré, que deixava a seco em minutos uma vasta extensão da orla —como se o mar, por motivos só dele, estivesse convocando as águas para seu seio. De repente, descobria-se que ele fizera aquilo para se atirar com força monstruosa sobre o continente e, então, já era tarde para correr.

As imagens, tomadas de longe e sem áudio, mostram um espesso lençol de água que chega à praia e, em vez de, em certo momento, estacar e refluir, parece disposto a não parar nunca —continua avançando com o mesmo volume, levando com ele barcos, árvores, casas, pessoas e carros. Visto de perto (e alguns heróis conseguiram registrá-lo a curta distância), pode-se ouvir o ronco do mar, os sons da destruição e o desespero das vítimas.

Cidades tiveram seu território em grande parte arrasado, ilhas submergiram inteiras, centenas de milhares morreram e o prejuízo foi gigante. Mas, exceto pelas vidas que se perderam, aqueles países já reconstruíram tudo —eles são assim. Futuros tsunamis, se vierem, não os pegarão desprevenidos.

No Brasil, esta semana, o procurador regional da República Carlos Fernando dos Santos Lima, um dos principais nomes da Operação Lava Jato, comparou as delações da Odebrecht, já tomadas e em processamento, a um tsunami. Quando elas vierem a público, a água atingirá o sistema político brasileiro em todos os seus níveis. Arrastará uma população de corruptos -figurões, intermediários, peixinhos- e desnudará por igual as práticas dos partidos, de esquerda, direita ou o que for.

Ótimo. Se houver sobreviventes, que eles enterrem os seus mortos. O Brasil viverá.

Medo fará Congresso aprovar reforma da Previdência - com O Antagonista

Medo fará Congresso aprovar reforma da Previdência


Para Ian Bremmer, presidente da Eurasia Group, há 70% de chance de o Congresso aprovar a reforma da Previdência.
Os parlamentares, contudo, não o farão porque isso é o melhor para o país.
Seu motivo será o medo de que, sem isso, a crise econômica os varra da política.
Eis um trecho de sua entrevista ao Estadão:
A Eurasia acredita que a reforma da Previdência em 70% de chance de aprovação. Por quê?
O governo e os congressistas entendem que a não aprovação terá impacto negativo sobre a economia brasileira. É a combinação da impopularidade com o fato de que eles querem evitar o desastre. A população reagirá se a economia entrar em queda livre pela não aprovação da reforma, e o Brasil for rebaixado pelas agências de classificação de risco e sofrer um aumento de seus custos de financiamento. Por isso, nós acreditamos que esse será um período produtivo para reformas.

Sonhos de carnaval - Fernando Gabeira - O Globo

Sonhos de carnaval - Fernando Gabeira

- O Globo

Nos recentes distúrbios no Espírito Santo, algo me impressionou especialmente: um carro de som rodando pelas ruas desertas tocando a música “Imagine”, de John Lennon, e sendo aplaudido das janelas pelos moradores amedrontados. Era uma conjuntura de violência e terror, e pelas ruas ecoava uma canção imaginando a paz entre todos os povos. Interessante a trajetória dessa música pelos tempos, como sobrevive como uma utopia nas ruas de Vitória. E como a realidade se distancia do sonho de John Lennon e de milhões de pessoas no mundo. Difícil imaginar que não exista um inferno sob nós se da própria superfície da Síria chegam imagens tão trágicas. Difícil imaginar que não existam países com a explosão dos nacionalismos, a começar pelos Estados Unidos.

A performance de Trump aumenta a instabilidade no mundo. Na semana passada, inventou um atentado terrorista na Suécia. A resposta dos suecos foi bem-humorada: um ex-primeiro-ministro perguntou a Trump pelo Twitter o que ele andava fumando. De qualquer maneira, uma informação dessas na boca de um presidente dos Estados Unidos trouxe desgaste à imagem da Suécia, um país que absorve os imigrantes com generosidade. Posso dizer com experiência própria, pois vivi lá, precisamente entre imigrantes. Ao mesmo tempo em que Trump mostra seu desequilíbrio, outros sinistros personagens se movem no cenário mundial.

Assistimos ao vivo na tevê ao envenenamento de Kim Jong-nam, o irmão do ditador norte-coreano, Kim Jong-un. Vimos a mulher se aproximar, envolvê-lo com um lenço e, em seguida, o homem batendo com as mãos no rosto, aflito, tentando explicar o que houve. Morreu logo depois. O veneno presente no tempo dos Bórgias ainda é usado como arma pelo estado. O ex-espião russo Alexander Litvinenko foi assassinado com uma xícara de chá em Londres. No chá havia polônio 200, uma substância radioativa, usada em reatores nucleares. Alexander levou tempo para morrer. Os norte-coreanos usaram algo quase instantâneo.

Neste mundo mergulhado em violência é cada vez mais difícil ignorar o inferno. O articulista Ishaan Tharoor, do “Washington Post”, mostra que, ao mesmo tempo em que Trump mencionava um atentando inexistente na Suécia, um atentado real acontecia no Paquistão, matando 73 pessoas. Foi uma explosão realizada por um membro do Exército Islâmico contra um templo sufi. Os sufis são de um ramo do próprio islamismo. Intelectualizados, poéticos, com profetas peregrinos, sábios de pé no chão, os sufis são “tudo o que o Estado Islâmico odeia”, ele conclui.

Os sufis são sonhadores e, ao lembrar do carro de som nas ruas de Vitória, pensei: os tempos não estão nada bons para os sonhadores. Como em certo momento, os tempos também não foram bons para o próprio John Lennon. Mas, ainda assim, a canção “Imagine” sobrevive porque, conforme se viu em Vitória, quanto maior a dificuldade mais temos vontade de cantá-la.

No Brasil, somos forçados a fazer uma espécie de corte nos sonhos, uma equivalência simbólica ao corte nos gastos. No entanto, é possível sonhar, sobretudo agora. É uma conversa de réveillon que agora tem um outro sentido prático: o ano começa realmente depois do carnaval. E 2017 será vital para se achar um novo caminho que nos tire dessa área de instabilidade, crise social, desemprego, violência crescente e sistema político vivendo num mundo paralelo. O ato inaugural do ano será a quebra do sigilo das delações de 77 funcionários da Odebrecht. Depois da tsunami, será possível recolher os cacos e reconstruir o sistema político.

A tsunami atinge vários países do continente. Mas é no Brasil que tudo está sendo investigado, foi aqui que o sistema de corrupção foi instalado e exportado como um produto nacional. Muitos temem que a sacudida no universo político comprometa a retomada econômica. Acho que são complementares. De que adianta chegar na frente com mais empregos, um pouco mais de dinheiro no bolso e com a mesma farsa política dominando o país? Existem muitos projetos em gestação, muitos sonhos na gaveta. Eles dependem de uma estabilidade que nos dê alguma confiança no país, como já tivemos lá atrás, com a conquista de eleições diretas para a presidência. Do governo Collor para cá constatamos que eleger um presidente pelo voto direto não é tudo. Será necessário construir uma atmosfera política em que o presidente possa se mover com decência. Uma atmosfera que reduza a distância abissal entre sociedade e representantes pagos por ela.

Tudo acaba na Quarta-feira de Cinzas. Mas tudo começa também depois dela. Nada melhor que circular o carro de som tocando “Imagine”, mesmo sabendo que a realidade vai contemplar apenas uma fração mínima de nossos sonhos.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Uma morte anunciada que não aconteceu - Bolívar Lamounier*


- O Estado de S. Paulo

O que mais se ouve é que a democracia representativa está nos estertores. Será?

Neste exato momento, em algum lugar do planeta alguém está digitando mais um texto sobre o inexorável declínio da democracia representativa. Os detalhes variam, mas os argumentos são os mesmos de sempre.

Na verdade, a morte da democracia liberal começou a ser anunciada antes mesmo de ela ser levada à pia batismal. No século 19, socialistas de variados matizes davam por assentado que a “democracia burguesa” se esborracharia quase sem ser notada. Como uma irrelevante “superestrutura”, ela sucumbiria no bojo da Revolução. Seria lembrada como um mero registro nas estatísticas da mortalidade infantil.

Nas primeiras décadas do século 20, o fascismo ascendente retomou – e robusteceu – o antigo vaticínio. A democracia estaria em estado terminal não porque o próprio capitalismo estivesse nas últimas, mas pela razão oposta: na era industrial, o avanço da economia de mercado provocaria uma forte elevação no nível dos conflitos entre o capital e o trabalho. Em tal cenário, a política do futuro exigiria o “Estado forte”, ou seja, ditaduras totalitárias, a exemplo das que despontavam na Itália e na União Soviética (URSS).

Nos anos 1930, no Brasil e de modo geral na América Latina, a democracia liberal não iria muito além da “tenra florzinha” a que se referiu Otávio Mangabeira. Os principais ensaístas e historiadores seguiam a mesma toada. Em seu clássico Raízes do Brasil, de 1936, Sérgio Buarque de Holanda advertiu que o parto de um Estado digno do nome seria sofrido. O rebento seria anêmico, pois nasceria sob o signo do passado colonial e cresceria pressionado pelas brutalidades próprias do capitalismo, que entre nós apenas começavam a se configurar.

Fato é, no entanto, que o retrospecto histórico não respalda a antiga ladainha. Antes da 2.ª Guerra, o número de democracias respeitáveis andava por 10 ou 12, se tanto – hoje estamos falando de 50 ou 60. Mesmo nas melhores, com exceção dos Estados Unidos e da Inglaterra, a parcela da população total habilitada a votar mal atingia 10%, ante cerca de 70% na época atual. As mulheres não votavam. Excetuando novamente os casos norte-americano e inglês, o Legislativo era impotente ante o Executivo. Autoridades legitimamente eleitas eram derrubadas sem a menor cerimônia.

Em que pese o pano de fundo acima esboçado, o que mais se ouve é que a democracia representativa está nos estertores. Tanto no Primeiro como no Terceiro Mundos, o que a cada 15 minutos se afirma é que o mundo caminha para formas autoritárias ou totalitárias de organização política. Ou para uma nebulosa “democracia direta”, como pretendem alguns sonhadores. E é certo, certíssimo, que motivos para pessimismo pipocam por todo lado. Nos Estados Unidos, a ascensão de Donald Trump produziu um fenômeno até há pouco impensável: a premonição de uma crise institucional capaz de romper o próprio regime democrático. Rússia, China, Cuba e Coreia do Norte conservam sua espessa sombra totalitária; mas quando exatamente, ao longo da História, esses países tiveram regimes democráticos? Sem esquecer a possível erosão da democracia pela corrupção e pela praga populista, das quais a Venezuela é um exemplo egrégio. No Brasil, a imensa trama descoberta na Petrobrás. Mas que aspecto devemos destacar: o fato de um cartel de empreiteiras ter desmoralizado quase todo o sistema partidário ou o surgimento, no sistema de Justiça, de lideranças enérgicas e de instrumentos de investigação eficazes?

O equívoco subjacente é perceptível. Quer-se imaginar que a democracia só será real quando a sociedade não tiver mais problemas para resolver, quando, na realidade, ela é a engrenagem mediante a qual a sociedade enfrenta os seus problemas e trata de equacioná-los pacificamente.

Inegavelmente, há uma malaise. Uma falta de convicção, ou uma debilitação generalizada da crença no valor da democracia. Não podemos subestimar o potencial deletério desse fato, mas atribuir-lhe a mesma força das engrenagens institucionais e econômicas da democracia liberal é, evidentemente, um equívoco. E aqui me refiro não apenas às engrenagens, por assim dizer, maduras, consolidadas, mas também daquelas que às vezes conseguimos surpreender in statu nascendi.

Vejam-se a propósito dois artigos publicados pela revista Foreign Affairs no exemplar de janeiro/fevereiro deste ano. Sempre arguto, o cientista político Joseph Nye, Jr., suscita a indagação tradicional: Will the Liberal Order Survive?. Mas Jieun Baek, uma jovem pesquisadora, faz o percurso inverso. Especializada no mais grotesco totalitarismo ainda existente, o da Coreia do Norte, ela descreve fraturas no casco do regime de Pyongyang.

Resumidamente, a história é a seguinte. Em 1994-1998, uma fome devastadora deixou um saldo de centenas de milhares de mortos. Incapaz de alimentar seu povo, o regime foi obrigado a tolerar os jangmadang, pequenos mercados informais nos quais as famílias compravam ou trocavam mercadorias. Esses mercados, escreve Jieun Baek, vieram para ficar: cresceram, diversificaram-se e se sofisticaram. Atualmente, é por meio deles, parcial ou totalmente, que a maioria (talvez 75%) da população se abastece. E uma grande parte dessa maioria – os jovens, principalmente – recorre a esse expediente para adquirir não apenas peças de vestuário ou alimentos. O que mais lhes interessa são eletrônicos contrabandeados, dos quais eles se valem para acessar produtos culturais do Ocidente. Não por acaso, nesse segmento da sociedade a ideologia martelada dia e noite pelo regime tende a se dissolver rapidamente.

* Bolívar Lamounier é cientista político, sócio-diretor da Augurium Consultoria e membro das Academias Paulista de Letras e Brasileira de Ciências. Seu último livro é ‘Liberais e antiliberais: a luta ideológica de nosso tempo’