domingo, 25 de dezembro de 2016

O ano que não acaba - José Roberto Mendonça de Barros*

O ano que não acaba - José Roberto Mendonça de Barros*

- O Estado de S. Paulo

• Será difícil voltar a crescer sem avanço substancial na infraestrutura de energia, logística e comunicações

Estamos no ano que não acaba nunca. A incerteza foi a nota, aqui e no mundo. Lá fora, todos os países dependem uns dos outros e ninguém está a salvo no mundo rico. Nem o Sr. Trump está livre para fazer o que quiser, embora possa produzir um enorme estrago no globo. Como aprendemos aqui, de forma dolorosa, a marquetagem política vai até certo ponto; sozinha, não é capaz de criar mudanças de verdade, como também não foi capaz de transformar uma péssima candidata numa estadista. Tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos, as forças vitoriosas na consulta popular ainda não mostraram o que querem de fato, trazendo grande incerteza para todos.

Embora nossa crise seja enorme e nosso País relativamente fechado, exportamos para todas as regiões do globo, não dependendo especialmente de ninguém, como é o caso do México. Somos apenas atingidos de forma indireta pela crise global. Nossas dificuldades são nossas, cujas soluções estão aqui entre nós.

O ano termina com duas convicções:

1. Há uma gigantesca rejeição à corrupção como prática de ganhar e exercer o poder. É isso que está na base da derrota do antigo governo, da rejeição ao sistema político e do suporte à Lava Jato.

A população associou a piora de sua vida à corrupção sistêmica, e não está errada. O caso da Itália, como tem nos lembrado Maria Cristina Pinotti, é emblemático: desde Berlusconi o país voltou a aceitar a corrupção como uma espécie de fato da vida e não consegue mais crescer, especialmente no que depende do elo corrupção-obras de infraestrutura-melhoria da produtividade.

2. A crise econômica está se mostrando muito mais dura do que se imaginava.

Embora o governo esteja enfraquecido, parece-me que o melhor caminho para o Brasil (se não o único) seja levar a cabo este período de transição, dando tempo para que a Lava Jato e as outras operações avancem e acabem por melhorar o padrão de governança do País. Além disso, a equipe econômica (que é a melhor dos últimos anos) necessita de mais tempo para implementar políticas que permitam nos tirar da recessão e criar as condições para a volta do crescimento.

Vale a pena refletir. Embora possa, na superfície, parecer uma boa ideia para alguns a antecipação das eleições de 2018 (direta ou indireta), tenho convicção de que, em meio à época decisiva da Lava Jato, isso criaria um vácuo econômico e uma enorme dificuldade de montagem de um eventual novo governo. Afinal, se hoje não se sabe exatamente quem será atingido pelas investigações, imagine numa situação de mudança política.

Num cenário dessa natureza, a equipe ministerial perderia completamente seu poder de comando, tornando praticamente impossível qualquer recuperação da atividade e do emprego. Isso é especialmente verdadeiro no momento em que se encerra um ano muito produtivo no avanço de reformas. Apenas para lembrar, tivemos a aprovação e a promulgação da PEC do Teto de Gastos e a aprovação, na CCJ da Câmara, da reforma da Previdência. Além disso, o Congresso aprovou a LDO, uma Lei de Governança das Estatais, uma reforma parcial do setor elétrico e uma mudança na legislação do petróleo. Nestes últimos dois setores, o progresso já é palpável, o que deverá se traduzir em mais investimentos.

Foi anunciado também um conjunto de medidas microeconômicas que deverão dar início ao trabalho de redução do custo de fazer negócios no Brasil.

Finalmente, e a despeito da frustração causada pelo baixo crescimento neste segundo semestre, temos pelo menos dois bons acontecimentos previstos para o primeiro trimestre de 2017. O Banco Central tem deixado claro em sua comunicação que vai realmente acelerar a redução de juros a partir da reunião do Copom de janeiro, uma vez que já se projeta a convergência da inflação para a meta. Eu, como a maioria dos analistas, espero que a taxa Selic seja reduzida a um dígito até o final do próximo ano, com efeitos seguramente positivos na área do crédito, embasando certa recuperação efetiva da atividade.

Ao mesmo tempo, provavelmente teremos uma forte recuperação da safra agrícola que começará a ser colhida em fevereiro e que implicará uma importante injeção de renda no setor, dado que temos uma rara combinação de desvalorização do real com bons preços internacionais e elevação do volume produzido. Os climatologistas estão muito seguros de que esse será um ano positivo para a produção brasileira, ao contrário da safra 2015/16.

Entretanto, todos concordam que será difícil voltar a crescer sem um avanço substancial do investimento na infraestrutura de energia, logística e comunicações. Como o caso da Petrobrás já demonstrou, não avançaremos nessa área sem a combinação de três fatores: demonstração definitiva de que os esquemas corruptos foram decisivamente atacados e substituídos por práticas efetivas de boa governança; revisão da regulação, para que prevaleçam regras que premiem e estimulem a competição nos leilões; e elaboração de projetos viáveis que possibilitem atrair bons operadores e permitam elevar a produtividade da economia como um todo.
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*Economista

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