segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Brasil pode ganhar com comércio na era Trump, diz Amaral Cláudia Trevisan - O Estado de São Paulo

Brasil pode ganhar com comércio na era Trump, diz Amaral

Cláudia Trevisan - O Estado de São Paulo

Provável fim do Tratado Trans-Pacífico e déficit comercial com os EUA na última década tendem a beneficiar o País


O Brasil não faz parte de nenhum dos “problemas” apontados por Donald Trump na campanha eleitoral e deve ficar à margem de mudanças que serão implementadas pelo presidente eleito dos EUA, avalia o embaixador brasileiro em Washington, Sérgio Amaral. O diplomata ressalta que o Brasil tem déficit comercial com os EUA, investe e produz empregos no país e não tem uma grande população de imigrantes nos EUA. A seguir, os principais trechos da entrevista:
O que esperar do governo Trump e de sua relação com o Brasil? 
Será um governo de mudança interna e externa. Ele capturou sentimentos de mudança da sociedade. O Brasil não deve ser afetado de maneira direta por nenhum dos problemas que Trump apontou.
Foto: Cláudia Trevisan
Diplomacia
Para Sérgio Amaral, Brasil não deve sofrer efeito de mudanças de Trump
Por quê?
A rejeição do Tratado Trans-Pacífico (TTP) deve ocorrer. A revisão do Nafta possivelmente aconteça. O fato de não haver o TTP pode ser interessante para nós. Será que não haverá oportunidade de maior aproximação entre o Mercosul e a Aliança do Pacífico, de maior convergência na América do Sul? Trump propõe tarifas a outros países que têm grande superávit comercial com os EUA. Nos últimos dez anos, o Brasil teve déficit. Na área de investimentos, a acusação é que países como a China estão levando investimentos e causando desemprego nos EUA. Nos últimos anos o Brasil investiu US$ 24 bilhões nos EUA e criou 80 mil empregos. E a participação na imigração é pequena comparada à de outros países. 
Como a relação pode avançar?
e houver vontade dos dois lados, temos de ter um pouco mais de flexibilidade. É melhor ter 80% de algo do que 100% de zero. 
Em que área isso pode ocorrer?
Na área do comércio, se o novo governo quiser privilegiar acordos bilaterais, nós não temos nenhum problema. Na área de ciência e tecnologia, existem as negociações da base de Alcântara, que tem a melhor localização do mundo para o lançamento de satélites. O Brasil gastou cerca de US$ 1 bilhão em um acordo com a Ucrânia, sem resultado. Existe interesse dos dois lados de usar a base para o lançamento de satélites. Os EUA querem preservar a propriedade intelectual de sua tecnologia. 
A campanha de Trump defendeu o protecionismo e a crítica à globalização. Há movimentos semelhantes na Europa. Qual efeito disso no longo prazo?
Nós vivemos transformações sem precedentes na história recente, com as sociedades questionando os governos. Há poucos líderes com alta aprovação. Quando a popularidade do presidente da França chega a 4%, algo está ocorrendo. Se no plano interno nós vemos os limites da democracia liberal, no internacional há o descontentamento com a globalização. Também há a rejeição do estrangeiro. Existe um impacto sobre a identidade nacional. Talvez esse seja o sentimento mais forte na Europa. A grande questão é se esses movimentos contestadores e populistas serão capazes de se transformar em governo. Na Europa nenhum conseguiu até agora. Os EUA são um pouco diferentes. O movimento contestador e algumas vezes populista de Trump está ancorado no Partido Republicano, que preside as duas Casas do Congresso.
Trump parece disposto a desafiar várias das instituições da democracia americana.
Ele está desafiando várias ideias, está contestando as práticas políticas, mas vai assumir o governo de um país no qual as instituições são fortes e existe um sistema de checks and balances (controles pela separação de poderes). A questão que se coloca nos países em que as instituições são mais fortes é se os checks and balances vão funcionar.
E vão?
Em dois anos a gente conversa.
Quais os riscos associados a esse movimento de mudança?
É saber se as instituições políticas e econômicas terão tempo e capacidade de se ajustar aos novos caminhos da sociedade. Se você olhar o Beppe Grillo na Itália, ele é uma caricatura política, mas por trás dele há um movimento que contesta a sociedade, os sistemas partidários e os líderes políticos. 
Há uma inversão de papéis, com os EUA, idealizadores da globalização, a rejeitando e a China a defendendo?
É uma ironia. A globalização teve sua origem na liberalização dos fluxos financeiros e comerciais e na defesa da desregulamentação, o que permitiu a emergência da China. Os chineses perceberam que a redução de tarifas beneficiaria o país que tem mais competitividade. Eles têm mão de obra barata, estão desenvolvendo tecnologia e têm uma infraestrutura inteiramente nova.
Trump está certo em transformar a China em seu principal alvo econômico?
A sociedade americana apontou para um problema verdadeiro, para o qual não tem resposta ainda. A resposta não está na mudança das regras do comércio, mas em um ajuste da economia mundial a essa nova realidade. Já vimos os efeitos econômicos da emergência da China. Os efeitos políticos estão começando.
Que tipo de política externa o sr. espera de um secretário de Estado como Rex Tillerson, CEO de uma grande multinacional?
Não temos indicação de como será o exercício da política externa americana. Muitos dizem que a relação com a China será mais difícil, mas Trump indicou como embaixador na China um grande amigo de Xi Jinping. Existem duas mudanças claras: os empresários terão um papel muito maior e os militares ocuparão ministérios em um número inédito, o que pode indicar maior ênfase na área de defesa.

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