domingo, 20 de novembro de 2016

A sindrome de Barry/ Romanov pegou Cabral – Elio Gaspari


A sindrome de Barry/ Romanov pegou Cabral – Elio Gaspari

- O Globo

Desde o início da Lava Jato, o andar de cima de Pindorama padece de uma síndrome que pode ser chamada de "Du Barry/Romanov", em homenagem à Condessa Du Barry (1743-1793) e do grão-duque Mikhail Romanov (1878-1918). Ela ataca pessoas que diante de uma encrenca bíblica pensam que "comigo-ninguém-pode" e decidem desafiar a sorte. Foi o que aconteceu com Marcelo Odebrecht. Mesmo na cadeia, desafiou o Ministério Público. Noutro exemplo, Eduardo Cunha achou que compraria uma passagem para a impunidade ajudando a empossar Michel Temer. Sérgio Cabral duvidou que a Federal fosse ao seu apartamento e está em Bangu. Há mais gente na fila.

Madame Du Barry era uma mulher bonita, rica e poderosa como namorada de Luís 15. Em 1789, quando a patuleia de Paris revoltou-se, ela fugiu para Londres. Lá, teve a ideia de voltar para a França. Passaram-na na lâmina em 1793. Voltou porque achava que dava. Mais de um século depois, em 1917, o czar Nicolau 2º abdicou, entregando a coroa ao seu irmão Mikhail Romanov. O grão-duque esquivou-se. Mandou a família para o exterior, mas ficou na Rússia. Achou que dava. Em 1918 ele foi tirado de casa, levado para uma floresta e passado nas armas. Seu corpo nunca foi encontrado. (Depois de Mikhail os bolcheviques mataram o czar, sua mulher, cinco filhos e outros quatro grão-duques.)

Olga, irmã de Nicolau e Mikhail, fugiu em 1920 com duas crianças pequenas, comendo o pão que Asmodeu amassou. Morreu no Canadá em 1958, aos 78 anos. Viveu modestamente ao lado do marido, um oficial por quem se apaixonara, levando-a a abandonar um marido gay.

Um sobrenome e a História do Brasil
Na quinta-feira (17), Paulo Fernando Magalhães Pinto, assessor e laranja de Sérgio Cabral entregou-se à Polícia Federal. Com a entrada de um Magalhães Pinto na carceragem viaja-se pela história de três gerações do andar de cima de Pindorama.

Na raiz dessa árvore esteve a suave figura de José de Magalhães Pinto, um modesto bancário que se tornou um líder empresarial durante o Estado Novo. Em 1943, aos 33 anos, assinou o Manifesto dos Mineiros pedindo a redemocratização do país, perdeu todos os empregos. Magalhães fundou o banco Nacional, que se tornou um dos maiores do país. Entrou para a politica, elegeu-se deputado e governador de Minas Gerais, derrotando Tancredo Neves. Em 1964, foi o mais destacado líder civil na deposição de João Goulart.

Com uma calva inesquecível e modos gentis, não ganhou a estima dos militares mas, mesmo assim, em 1967, foi nomeado chanceler e um ano depois assinou o Ato Institucional nº 5. Perdeu o rumo e viu-se condenado a papéis de coadjuvante, apesar de ter chegado à presidência do Senado. Nunca praticou violências quer contra o erário, quer contra pessoas físicas. Em 1985, numa trapaça do destino, votou em Tancredo Neves, seu adversário histórico. Meses depois teve um acidente vascular cerebral do qual não se recuperou até sua morte, em 1996.

Magalhães já não estava consciente quando seu banco, administrado pelos filhos Marcos e Eduardo foi à garra. Marcos passou um breve período na cadeia. Ana Lúcia, uma de suas irmãs, era mulher do filho do então presidente Fernando Henrique Cardoso. Outra, Maria Virgínia, é a mãe de Fernando Magalhães Pinto, o amigo de Sérgio Cabral.

A ruína do Nacional deixou um rombo estimado em R$ 6,7 bilhões e ele foi absorvido pelo Unibanco. Em 1995, dez anos depois da quebra do banco, Eduardo Magalhães Pinto, irmão de Marcos e de Maria Virgínia estava na lista de viajantes VIPs da Alfândega do Rio de Janeiro.

OLFATO
Talvez o governador Pezão não saiba, mas o deputado Jorge Picciani acha que seu governo acabou.

Picciani é presidente da Assembleia Legislativa e pai de Rafael, chefe da Casa Civil do governador, e de Leonardo, ministro do Esporte de Michel Temer.

QUIROMANCIA
A pergunta que mais se ouve no Rio de Janeiro é: “E agora, como se sai dessa?”.

Num puro exercício de quiromancia, com o único propósito de mostrar que há saída, aqui vai uma, em dois tempos.

Tempo 1: Michel Temer desacelera suas propostas de emendas constitucionais e decreta intervenção federal no estado.

Tempo 2: Nomeia o cardeal D. Eugenio Salles para o cargo de interventor. Com toda razão, argumente-se que isso não pode ser feito, porque ele morreu em 2012.

Diante desse imprevisto, nomeia-se um similar. Cada um pode indicar quem quiser, mas, para continuar a conversa, pode-se convidar um ministro do Supremo Tribunal Federal. Quem? Da ativa, Luís Roberto Barroso. Da reserva, Joaquim Barbosa.

EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo é um idiota, habitualmente compra umas vaquinhas do pecuarista Renan Calheiros e estava no Congresso quando lhe perguntaram o que achava da prisão de Sérgio Cabral, e o presidente do Senado disse que não trataria do assunto porque “não tomei profundidade” do assunto.

O cretino não sabe o que foi que Renan tomou.

ODEBRECHT INN
Tudo o que Marcelo Odebrecht quer da vida é fechar logo o seu acordo de colaboração com a Viúva para ser transferido para o Complexo Médico-Penal do Paraná. Na nova cana, poderá trabalhar e, para cada três dias de serviço, descontará um de pena.

Atualmente seus exercícios se resumem a uma hora, para poder concluir a colaboração.

FIRMEZA COM PEZÃO
Está no meio da papelada da Lava-Jato: entre os dias 10 e 11 de setembro de 2014, o governador Pezão se fez representar na assinatura de quatro empréstimos, no valor de R$ 2,1 bilhões. Um deles, no valor de R$ 600 milhões, foi tomado junto ao Credit Suisse, representado por Sérgio Firmeza Machado, filho do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado.

Sérgio 2.0 era funcionário do banco e colabora com as investigações. Ele revelou que o Credit Suisse mimou a qualidade de seus serviços com um bônus de R$ 48 milhões.

FASHION FEDERAL
Sérgio Cabral foi para a carceragem com uma mochila. Já houve empreiteiros que chegaram com malas de rodinhas. A mochila é um adereço mais jovem, talvez até chique.

Não se sabe a marca do equipamento, mas, caso alguém queira se precaver, uma mochila Louis Vuitton do tipo “cheguei” custa R$ 7.850. O modelo Grigori, preto e discreto, sai por R$ 13.200.

O GOURMET CABRAL
Servido pelo menu de Bangu, Sérgio Cabral teve dias melhores. Jantando em 2009 com o casal Fernando Cavendish no restaurante Louis XV, num hotel de Mônaco, ele proclamou:

“Este é o melhor Alain Ducasse do mundo”.

Era bravata, porque Ducasse tinha 30 restaurantes.

Cabral comemorava o aniversário da mulher, e o Ducasse fica perto da joalheria Van Cleef, onde o empreiteiro cacifou o anel de brilhantes da senhora.

CACASO
Nunca é demais lembrar um verso de Antonio Carlos de Brito, o inesquecível Cacaso (1944-1987).
Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.

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