sexta-feira, 2 de setembro de 2016

JANAÍNA PASCHOAL E A IMPRENSA - Morgenstern

A proponente do impeachment Janaína Paschoal discursou no Senado. O que a imprensa noticia foi o inverso do que Janaína afirmou.
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Nossa colunista Janaína Paschoal discursou hoje no Senado pela acusação no processo de impeachment de Dilma Rousseff. Para quem perdeu o discurso, buscar compreendê-lo pelo que divulgado na imprensa resulta em acreditar que o discurso de Janaína foi exatamente o inverso do que disse.
De acordo com manchete do Congresso em Foco, Janaína chora, pede desculpas a Dilma e menciona Deus em “conluio”. No Bahia Notícias, Janaína Paschoal chora por causar ‘sofrimento’ a Dilma e cita Deus ao falar de conluio. No BOL, Janaina Paschoal atribui processo de impeachment a Deus. O telefone sem fio prossegue até gerar bizarrices as mais estapafúrdias, como num tal Blog da Luciana Oliveira: Segundo Janaína Paschoal, ‘Deus’ é golpista e quer proteger corruptos.
Pelo que se depreende de tais manchetes, Janaína Paschoal parece ter feito seu discurso completamente na defensiva, sem força, sem acreditar em suas próprias palavras, crendo que talvez estivesse errada, e pedindo desculpas por sua própria existência e por seu pedido de impeachment.
Pior: respondendo à tese de que todo o processo de impeachment foi um “conluio”, Janaína Paschoal teria acatado tal asserção, e se desculpou retirando a justificativa do plano da história factual, levando-a para a metafísica. É o que se lê no subtítulo da matéria do Congresso em Foco, citando palavras de Janaína: “Eu acho que, se houver alguém fazendo algum tipo de composição nesse processo, é Deus”.
A realidade foi bem oposta, com um discurso bem duro em relação aos crimes de Dilma Rousseff. A demonstração de seus crimes, como funcionaram, quais suas conseqüências, por que as pessoas não entendem e como Dilma e sua defesa envidam todos os esforços para ignorar o que a acusação diz e repetir roboticamente que “não há crime de responsabilidade” não foi apenas clara: foi forte, dura, técnica.
É o que se lê na própria matéria do Congresso em Foco, a despeito de seu título que escolheu mal as palavras:
Eu acho que, se houver alguém fazendo algum tipo de composição nesse processo, é Deus. Foi Deus que fez com que várias pessoas, ao mesmo tempo, cada uma na sua competência, percebessem o que estava acontecendo com o nosso país e conferiu a essas pessoas coragem para se levantarem e fazerem alguma coisa a respeito”, disse Janaína.
Ou seja, Janaína Paschoal negou o conluio, e apenas fez uma metáfora: se houve realmente uma orquestração, não foi dela com políticos, mas de Deus que fez com que vários seres humanos desconectados percebessem os crimes de Dilma Rousseff e trabalhassem para que não perdurassem – e para que a crise brasileira não se estendesse. E não se estendeu e até diminuiu, tão logo Dilma Rousseff foi afastada.
No último meio minuto de discurso, Janaína Paschoal faz algo que a defesa, Dilma e os petistas nunca têm coragem de fazer: separar Dilma Rousseff, a presidente, de sua pessoa privada. Não pede desculpas pelo impeachment – pelo contrário, o reforça e garante que Dilma sofrer impeachment fará bem inclusive para os netos de Dilma! –, mas afirma que não quer causar mal à pessoa de Dilma Rousseff.
Uma noção de justiça praticamente esquecida no Brasil: o acusador, o julgador, o juiz, o delegado e até o carcereiro não querem o mal do acusado, do culpado, do julgado, do detento: querem apenas a justiça. Punição, afinal, pode significar justamente o bem para o punido.
No reino da amoralidade e do relativismo total, sobra apenas a força ideológica, usada para um lado ou outro. Janaína, com poucas palavras e fáceis de serem assimiladas pelo mais simples do brasileiro, negou exatamente o uso da lei para prejudicar alguém, para fazer o mal.
Contudo, para quem tenta juntar os cacos de seu discurso lendo-se manchetes (os textos serão lidos por menos de 1% de quem lê manchetes), resta apenas a idéia de que Janaína Paschoal estava fraca, abatida, combalida, sem argumentos, sem força para defender suas próprias idéias, que pediu desculpas a Dilma Rousseff (e não que separou a presidente criminosa de uma pessoa a quem não quer fazer mal) e, sem argumentos, “citou Deus” ao falar de conluio (como fez o Bahia Notícias) ou “atribui impeachment a Deus” (como fez o BOL).
Sem argumentos, mas querendo criticar Janaína (que, bem ao contrário, teve argumentos irrefutáveis), jornalistas, digamos, “em conluio”, de praticamente uma hora de discurso, citam exata e cirurgicamente a mesma e única frase de Janaína Paschoal que poderia pegar mal em uma manchete para falantes e opinantes que acreditam que qualquer referência religiosa é o mesmo que a Inquisição.
Para quem se julga alheio a manipulações, é fácil notar que qualquer pessoa que acredita em manchetes tem sentimentos que são rigorosamente os mesmos que plantadores de manchetes querem que a população tenha sobre certas pessoas. São, portanto, de longe, as pessoas mais facilmente tapeáveis da Via Láctea.
Ademais, por que, como analisou o Implicante, a imprensa não está noticiando a chuva de insultos pesadíssimos, machistas e criminosos que são volvidos contra Janaína Paschoal?
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