terça-feira, 30 de agosto de 2016

Choque e Pavor no Ano 711 AD: A Conquista Islâmica da Espanha

Choque e Pavor no Ano 711 AD: A Conquista Islâmica da Espanha

Trazemos hoje à Coluna do Leitor uma tradução feita pelo amigo @MareSolitude, que traduziu um trecho do novo livro de Darío Fernándes-Morera publicado na Modern Age, revista cultural americana conservadora:

Choque e Pavor no Ano 711 AD: A Conquista Islâmica da Espanha

Acadêmicos, jornalistas e políticos afirmam que a Espanha medieval dominada pelos muçulmanos — “al-Andalus” — era um paraíso multicultural, um lugar onde muçulmanos, cristãos e judeus viviam  em harmonia. Mas essa descrição amplamente aceita é falsa, como revela o professor Darío Fernández-Morera da Universidade Northwestern (e conselheiro editorial da Modern Age) em seu novo livro, “The Myth of the Andalusian Paradise”.
A Modern Age fica orgulhosa de resumir este livro revelador e academicamente bem embasado.
Uma avaliação completa do domínio islâmico na Espanha medieval requer um exame de como as forças do Califado Islâmico obtiveram o controle desta região. As táticas implacáveis que elas frequentemente empregavam anteciparam algumas das medidas através das quais os posteriores governantes andaluzes usariam para manter o poder.
As forças do Califado Islâmico eram unidas, hábeis, violentas e bem lideradas. Seus comandantes eram experientes, havendo combatido e vencido os cristãos do Império Greco-Romano (usualmente conhecido como Império “Bizantino”, um nome enganoso) e as tribos bérberes pagãs do norte da África. Os bérberes, que compunham a maioria das tropas islâmicas, eram combatentes particularmente ferozes, como observado até mesmo por historiadores muçulmanos. Estes outrora pagãos estavam imbuídos do fervor religioso do recém-convertido e do apetite por pilhagem típico das tribos saqueadoras.
Os invasores usaram uma combinação de táticas de “choque e pavor” e tratados de “paz”. Nos tratados de “paz”, os conquistadores muçulmanos deram privilégios e autonomia momentâneos àqueles líderes visigóticos seculares e religiosos que não resistiram e que pagaram tributos (a exemplo do tratado com o conde Teodomiro), permitindo-os manter, pelo menos por um tempo, suas terras, servos e religião. Esta abordagem foi necessária porque os invasores inicialmente eram bem menos numerosos do que os nativos.
Mas como tanto as fontes cristãs e muçulmanas comprovam, as forças islâmicas eram mais implacáveis e sabiam como desmoralizar um inimigo melhor do que quaisquer exércitos desde os tempos das conquistas da Roma antiga. Ambas as fontes muçulmanas e cristãs mencionam uma história que, ainda que apócrifa, exemplifica o conhecimento do uso tático do terror na guerra psicológica. Logo após o desembarque das forças islâmicas, os cadáveres de alguns cristãos mortos em batalha foram cozidos em grandes caldeirões sob o olhar aterrorizado de outros cristãos feitos prisioneiros, que ficaram convencidos de que os muçulmanos eram canibais. Os muçulmanos, então, libertaram tais prisioneiros, que, diz o historiador do século XII, al-Kardabus, “contavam para todo cristão que eles encontravam o que tinham visto, de tal maneira que Alá preencheu seus corações com o pânico. Em seguida, aconteceu a batalha contra o [rei visigótico] Rodrigo.”[3]
Al-Kardabus e outro historiador muçulmano, Abd al-Wahid al-Marrakushi, afirmam que o líder árabe Musa Ibn Nusayr saqueou, escravizou e passou três anos promovendo a jihad — guerra santa — contra os infiéis espanhóis.[4] Juntamente com al-Kardabus, al-Marrakushi e al-Maqqari dizem que Musa investia na “pilhagem” o mesmo tempo que investia “organizando” a terra conquistada. Essas fontes também mencionam que vários membros da tabiun (a geração de muçulmanos devotos que eram discípulos diretos dos Companheiros de Maomé) chegaram à Espanha para dirigir a jihad e a conversão da região. A presença desses membros da tabiun destaca a motivação fundamentalmente religiosa da invasão — uma jihad.
Se os cristãos resistissem, um massacre se seguiria após a vitória muçulmana. Próximo da cidade de Orihuela, os cristãos derrotados foram punidos com o extermínio.[5]
Após os muçulmanos capturarem Córdoba em um assalto furioso, os defensores cristãos restantes se abrigaram em um igreja e continuaram a lutar. Segundo al-Maqqari, os muçulmanos tocaram fogo na igreja e os cristãos dentro dela morreram, sem se render; de acordo com al-Kardabus, quando os cristãos se renderam, o comandante muçulmano mandou decapitá-los.
Toledo, a capital dos visigodos, não ofereceu resistência ao rápido avanço das forças islâmicas porque a maioria dos soldados havia acompanhado o rei Rodrigo para se encontrar com o inimigo. No entanto, Musa executou alguns membros idosos da nobreza toledana por razões que os acadêmicos não têm um consenso, mas que talvez tenha sido simplesmente para encorajar os demais.[6] As forças muçulmanas capturaram Sevilha após sitiá-la, fazendo com que os combatentes cristãos fugissem para o norte. Diante da cidade de Mérida, após saírem vitoriosas, as forças islâmicas massacraram os “politeístas” em fuga.[7] Novamente em Sevilha, quando os cristãos se revoltaram contra a ocupante guarnição muçulmano-judaica, um exército muçulmano com reforços recapturou a cidade e massacrou os seus habitantes.[8]
Fontes cristãs como a Chronica Mozarabica do ano 754, escrita não muito depois da conquista, e a História de Espanha (Primera Crónica General) comissionada pelo rei Alfonso X no século XIII corroboram os métodos de recompensas e punições descritos pelos cronistas muçulmanos. Estes relatos cristãos afirmam que Musa oferecia paz e privilégios aos cristãos da nobreza e às lideranças da igreja que não resistissem, mas matava aqueles que o fizessem. Musa reduzia às cinzas qualquer cidade que resistisse, “crucificava membros da nobreza e os homens idosos,” e “esquartejava os jovens e os bebês lactentes (iubenes atque lectantes),” de tal maneira que as cidades se rendiam sob o terror e muitos dos seus habitantes fugiam para as montanhas.[9] Ambos os métodos, o esmagamento brutal de qualquer oposição e a concessão de pactos aos membros da elite que concordassem em não resistir, bem como a fraude envolvida nesses pactos (fraude que foi observada por outras fontes cristãs e por historiadores muçulmanos tais como Ibn Abd al-Hakam), estão registrados na Chronica Mozarabic de 754: “Após devastar o país até os confins de Toledo, a cidade real, Musa conquista, através da oferta de uma paz fraudulenta, as regiões vizinhas com a ajuda de Oppas [lorde visigodo] , filho de Égica [rei antecessor], e executa alguns membros da elite visigóticas que tinham permanecido na cidade e coloca todos eles para perecer no fio da espada com a sua ajuda.”[10]
A natureza “fraudulenta” dos acordos de paz mencionada por fontes cristãs e muçulmanas era de fato justificada pela tradição legal islâmica. Um acadêmico islâmico bastante simpático ao islã, Majid Khadduri, destaca que a revogação desses acordos em casos de necessidade era aceitável na prática legal do islã medieval porque
O islã, emergindo  no século VII como a nação conquistadora tendo  por objetivo último a dominação do mundo, recusava reconhecer quaisquer outros sistemas legais a não ser o seu próprio. Havia o desejo de estabelecer tratados de paz temporários com as outras nações, enquanto aguardava a consumação da sua missão terrena.
O Profeta e os seus sucessores, porém, reservavam o direito de repudiar qualquer tratado ou arranjo que eles considerassem prejudiciais ao islã. . . . Ainda que a relação entre o islã e as comunidades não-muçulmanas seja um estado de hostilidade, não é considerado inconsistente com o objetivo último do islã se um tratado é estabelecido com o inimigo, seja para fins de conveniência ou porque o islã sofreu um revés.[11]
Escrito logo após a derrota dos visigodos, o hino de igreja Tempore belli corrobora o que outras fontes muçulmanas e cristãs dizem sobre as aterrorizantes, mas eficazes táticas utilizadas contra os cristãos. Como o historiador espanhol M. C. Díaz y Díaz afirma, tal poema litúrgico latino descreve um “inimigo implacável,” “tomado pelo entusiamo do exercício da guerra” (continuo fervida bello), “forçando as tropas cristãs a partir em retirada e a fugir em pânico,” saqueando templos e casas dos cristãos, incendiando as cidades daqueles que resistiam, e tomando suas belas jovens como escravas sexuais, tudo isso gerando um “terror indescritível.”[12] A Chronica Mozarabic de 754 ecoa esses lamentos sobre a pilhagem das riquezas e a escravização sexual das belas e jovens mulheres cristãs (57.1–5).
A História de Espanha comissionada por Alfonso X (Primera Crónica General) também relata como os conquistadores muçulmanos matavam os homens, incendiavam as cidades, arruinavam as terras, tomavam jovens mulheres como escravas sexuais e saqueavam as riquezas da igreja, fazendo com que os bispos fugissem com as relíquias cristãs. Uma outra obra de história escrita no século XIII, de autoria de Rodrigo Jiménez de Rada, mostra como os muçulmanos queimavam as cidades, derrubavam as árvores frutíferas, destruíam as igrejas, consideravam música sacra uma blasfêmia e profanavam os cálices. Por um outro lado, assim como a obra de Alfonso X, também descrevia “tratados” nos quais os conquistadores obtinham o consentimento das diversas lideranças cristãs — ainda que os muçulmanos violassem esses acordos logo que eles tivessem o controle sobre a região. O historiador muçulmano do século IX, al-Hakam, também menciona tal desonestidade: “Quando os muçulmanos conquistaram a Espanha, eles a pilharam e cometeram muitas fraudes.”[13] A obra Chronicon Mundi, de Lucas de Tuy, escrita no começo do século XIII, ecoa esses relatos: “os mouros subjugaram, através da espada e do fogo, quase o todo da Espanha. . . . Apenas os godos que se retiraram para as montanhas dos Pirineus nas Astúrias e na Galícia escaparam. Os mouros ficaram com as melhores terras, conquistadas pela lâmina vingativa. . . . E eles mudaram as torres das cidades antigas; destruíram castelos. . . mosteiros; queimaram  os livros da lei sagrada e cometeram muitas más ações.”[14]
Como tais fontes muçulmanas e cristãs indicam, queimar igrejas e pilhar os seus tesouros tinham um papel importante nas táticas de choque e pavor dos conquistadores. Essa destruição ajudava a desmoralizar a resistência cristã. Muhammad Ibn al-Razi (887-955), um dos primeiros historiadores da conquista islâmica, relata que o fundador do Emirado de Córdoba, o omíada Abd al-Rahman I, consistentemente queimava igrejas e relíquias cristãs.[15]
Como a arabista espanhola Susana Calvo Capilla aponta, quando os cronistas muçulmanos mencionam as igrejas, é frequentemente para se regozijar por sua destruição ou conversão em mesquitas como parte da humilhação dos infiéis.[16] Relatos cristãos corroboram os dos muçulmanos: As Crónicas Anónimas de Sahagún (século XII ou XIII) falam da destruição de uma capela e as relíquias dos santos nela guardadas próximo do rio Cea durante as jihads; e a Crónica de Alfonso III (século IX: atribuída a Alfonso III, rei das Astúrias, que viveu por volta de 852-910) relata como Alfonso I das Astúrias (693-757) reconstruiu as igrejas nas cidades reconquistadas e devolveu os cristãos à sua pátria.[17]
Dificilmente poderia ser dito de outra maneira dadas as obrigações impostas pela lei islâmica medieval. Um tratado legal de autoria do influente jurista de al-Andalus, Ibdn Rushd al-Jadd (falecido em 1126), mostra o imã Malik Ibn Anas, o fundador da escola Maliki de jurisprudência islâmica, que dominava al-Andalus, respondendo questões da lei islâmica. Maliki responde desta maneira uma pergunta sobre o que deve ser feito com os crucifixos e livros sagrados dos cristãos derrotados pela jihad:
Pergunta: O que deveria ser feito com os livros sagrados que forem encontrados nas igrejas dos Rum [isto é, “Romanos,” um dos nomes genéricos que os muçulmanos davam aos cristãos] nas terras do inimigo? O que deveria ser feito com os crucifixos de ouro e outros  objetos que forem encontrados?
Resposta: Os crucifixos [de ouro] devem ser despedaçados antes de serem distribuídos [como butim aos combatentes muçulmanos] mas não se deve distribuí-los diretamente. Quanto aos livros sagrados, eles têm que desaparecer.[18]
No seu comentário sobre a resposta de Maliki, Ibn Rushd al-Jadd clarifica que ele leu que os livros sagrados dos cristãos derrotados devem ser queimados para que “desapareçam” — a não ser que as páginas possam ser apagadas completamente de tal maneira que as páginas em branco possam ser vendidas para obter algum lucro. Mas se não for possível vendê-las, elas devem ser queimadas.
O registro arqueológico na Espanha corrobora toda essa evidência textual. Assim há magníficos tesouros religiosos visigóticos encontrados enterrados nas rotas que saíam do sul da Espanha em direção ao norte, confirmando o que as fontes escritas afirmam sobre o medo e a fuga que os cristãos empreendiam perante a pilhagem muçulmana das igrejas.[19]  O que o reino dos visitados enfrentava era, de fato, um inimigo “letal e inflexível.”[20]
O historiador muçulmano Ibn Khaldun (1332-1406) destacava como desde o começo o uso do terror foi fundamental nas conquistas islâmicas:
Compreenda-se a declaração de Maomé: “Fui ajudado por meio do terror (que vitimou o inimigo). . . .” (O mesmo fato explica) a vitória de Maomé diante dos politeístas, mesmo contando com um exército pequeno, e as vitórias dos muçulmanos durante as conquista islâmicas após (a morte de Maomé). Alá cuidou do Seu Profeta. Ele lançou o terror nos corações dos infiéis. . . . Terror nos corações dos seus inimigos foi a razão de haver derrotas esmagadoras nas conquistas islâmicas.[21]
Não admira que as polêmicas religiosas dos cristãos orientais contra o islã, a partir do século VII, incluem uniformemente o argumento de que os muçulmanos usam a violência para expandir a sua fé, e que as primeiras polêmicas espanholas contra o islã consistentemente também destaquem o uso da violência pelos seus seguidores.[22]
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As três opções que Musa dava aos hispano-visigóticos eram a norma do que os muçulmanos ofereciam aos cristãos: (1) converterem-se ao islã, (2) submeterem-se como dhimmis à supremacia islâmica e pagar o imposto (jizya) com a intenção expressa de humilhar os infiéis e lembrá-los da sua submissão, ou (3) ser morto (no caso dos homens) ou escravizado (no caso das mulheres não-combatentes e das crianças).[23]
Eis a fonte das interpretações conflitantes da conquista islâmica da Espanha — há aqueles que alegam que conquista foi em grande parte “pacífica,”, alcançada por meio de “pactos,” e há os que alegam que ela foi em grande parte “violenta.”[24] Os conquistadores muçulmanos de fato ofereciam a paz aos que se rendiam sem lutar, ainda que sob domínio muçulmano e condições estritas — mas eles rapidamente destruíam aqueles que resistissem. Os que se rendiam ao sistema de “paz” dos muçulmanos o faziam sabendo totalmente das consequências caso resistissem. A conquista islâmica, então, combinava força bruta e pactos de paz.[25] O segundo, no entanto, era inseparável e uma consequência do primeiro. E as forças muçulmanas se reservavam o direito de anular os “pactos de paz” sempre que fosse vantajoso fazê-lo, porque, como mostra o acadêmico Majid Khadduri, “a relação normal entre as comunidades muçulmanas e não-muçulmanas é um estado de hostilidade” até que o islã alcance a hegemonia.
Para os cristãos que se mantiveram leais à sua fé, o que Musa e suas forças muçulmanas estabeleceram foi um “reino selvagem” (regnum efferum conlocant), como a Chronica Mozarabica de 754 relata.[26] A obra História de Espanha de Alfonso X resume a conquista islâmica como descrita nas fontes cristãs medievais:
Os santuários foram destruídos; as igrejas derrubadas. . . . Eles atiraram para fora das igrejas os crucifixos e os altares, os óleos e livros sagrados e as coisas que eram honradas pela cristandade, tudo foi esparramado e descartado. . . . Os inimigos devastaram as terras,queimavam as casas, matavam os homens, incendiavam as cidades, as  árvores, os vinhedos e todo o verde foi derrubado. Tão grande se tornou essa praga que não restou na Espanha uma vila ou cidade que fosse boa. . . que não tivesse sido queimada ou posta abaixo ou tomada pelos mouros; e as cidades que eles não podiam conquistar, eles as enganavam e as conquistavam com falsos pactos.[27]
Um cronista muçulmano argumentou de maneira ainda mais vigorosa: segundo al-Hakam, tão impressionante foi a conquista da Espanha que, quando Musa escreveu para o seu califa, ele a descreveu “não como uma conquista, mas como o dia do Juízo Final.”[28]
Darío Fernández-Morera é Professor Associado no Departamento de Literatura Espanhola e Portuguesa na Universidade Northwestern. Ex-membro do National-Council on the Humanities, graduou-se na Universidade Stanford, fez mestrado na Universidade da Pennsylvania, e obteve seu doutorado na Universidade Harvard. Ele publicou diversos livros e vários artigos sobre questões culturais, literárias, históricas e metodológicas na Espanha, América Latina e nos Estados Unidos.
Este ensaio é um excerto do seu novo livro, “The Myth of the Andalusian Paradise: Muslims, Christians, and Jews under Islamic Rule in Medieval Spain”, que está agora disponível pela editora ISI Books.
TheMythOfAndalusianParadise
Notas:
[1] Abu Muhammad Abd al-Wahid al-Marrakusi: Lo admirable en el resumen de las noticias del Magrib (Kitab al-Muyib Fi Taljis Ajbar al-Magrib), trans. Ambrosio Huici Miranda (Tetuán: Editora Marroquí, Instituto General Franco de Estudios e Investigación Hispano-Árabe, 1955), 149 and n1; Ana Serrano, María Jesús Viguera, et al., Ibn Khaldun: The Mediterranean in the Fourteenth Century: Rise and Fall of Empires (Seville: Legado Andalusí, 2006), 196.
[2] “Os súditos [de Teodomiro] não serão mortos ou tomados como escravos nem serão separados de suas crianças ou mulheres. . . e suas igrejas não serão queimadas. . . . Desde que ele aja de boa fé e cumpra as condições que nós impusemos. Ele concordou com os termos de rendição envolvendo sete cidades. . . . [Ele também concordou] que não dará refúgio para qualquer escravo fugitivo, nem abrigará qualquer um dos nossos inimigos, nem dará receios aos que estão seguros conosco; que ele não esconderá informações que tenha obtido acerca dos [nossos] inimigos; e que cabe a ele e ao seu povo pagar um dinar anualmente e quatro mudd (alqueires) de trigo, quatro mudd de centeio, quatro qist (medidas) de suco de uva espesso, quatro qist de vinagre, dois qist de mel e dois qist de óleo. Escravos pagam metade disso. Testemunhado por Uthman b. Abi Abda al-Qurashi, Habib b. Abi Ubaida, Ibn Maisara al-Fahmi e Abu Qaim al Hudhali. Escrito no mês de Rajabe, no ano 94 da Hégira (abril de 713).” Christians and Moors in Spain: Volume III Arabic Sources, ed. and trans. Charles Melville and Ahmad Ubaydl (Warminster: Aris & Phillips, 1992), 11–13.
[3] Ver, entre outras fontes, Ibn Abd al-Hakam, Conquista del Norte de África y de España, 43; al-Qutiyya, 6; The Book of Sufficiency on the History of Khalifs, by Abú Ja’far Ibn Abdi-l-hakk Al-khazráji Al-kortobí, traduzido por Pascual de Gayangos, in The History of the Mohammedan Dynasties in Spain, vol. 1, app. D, xliii–1; o excerto é de Ibn al-Kardabus, 64–65; Rodrigo Jiménez de Rada, vol. 2, chap. 23.
[4] Para essa e as seguintes, ver Ibn al-Kardabus, 68, 66; Abd al-Wahid al-Marrakushi, Histoire des almohades, 9–14.
[5] Para essa e as seguintes, ver Ajbar Machmuá, 23–30; al-Qutiyya, 8; al-Maqqari in The History of the Mohammedan Dynasties in Spain, 1:277–87, 531n18, 2:1–2; Ibn Idhari al-Marrakusi, Historia de al-Andalus, 17–42; Crónica mozárabe de 754, 71, 79.
[6] Chronica Mozarabica de 754 , 54; al-Athir, 46; Ajbar Machmuá, 27.
[7] Ibn al-Kardabus, 63.
[8] Ajbar Machmuá, 30; Ibn Idhari al-Marrakushi, Al-Bayano ’l-Mogrib,
18, 23.
[9] Crónica mozárabe de 754, seções 54–55; Primera Crónica General de España, ed. Ramón Menéndez Pidal (Madrid: Gredos, 1955), 559.
[10] Chronica mozarabica of 754, 54.8–12.
[11] Majid Khadduri, War and Peace in the Law of Islam (Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1955), vii, 202.
[12] M. C. Díaz y Díaz, “Noticias históricas en dos hinos litúrgicos visigóticos,” in Los visigodos: Historia y civilización: Antigüidade y Cristianismo (Murcia) 3 (1986): 443–56. See also García Moreno, España 702–719, 190. Há a tentação de se comparar essas táticas de terror e seus céleres resultados com as táticas implacáveis e as conquistas similarmente rápidas do Estado Islâmica no Iraque e na Síria durante o século XXI.
[13] Primera Crónica General de España, chap. 559; Rodrigo Jiménez de Rada, vol. 3, chap. 22; al-Hakam, Conquista de África del Norte y de España, 47.
[14] Crónica de España, por Lucas, Obispo de Tuy, traduzido por Julio Puyol (Madrid: Revista de Archivos, Bibliotecas y Museos, 1926), 269–71.
[15] Crónica del moro Rasis, 281–82. Alguns historiadores têm questionado a atribuir a al-Razi as seções sobre história antiga pré-islâmica. Mas a pesquisa moderna tem confirmado a autenticidade do texto mesmo para o período pré-islâmico: ver a introdução por Diego Catalán, bem como a obra Adiciones al estudio de la crónica del moro Rasis (Madrid: Moneda y Crédito, S.A., 1978) do historiador Claudio Sánchez Albornoz. Outros textos, claro, corroboram a destruição de igrejas durante o período islâmica (ver, por exemplo, a pesquisa da Susana Calvo Capilla).
[16] Susana Calvo Capilla, “Las primeras mezquitas de al-Andalus a través de las fuentes árabes (92/711–170/785),” Al-Qantara 27, no. 1 (Enero–Julio 2007): 143–79.
[17] Crónicas anónimas de Sahagún, ed. Antonio Ubieto Arteta (Zaragoza: Pedro Garcés de Cariñena, 1987), 9–10; Crónica de Alfonso III in Jan Prelog, Die Chronik Alfons’ III, 34–36: cristianos secum ad patriam duxit. . . . Basilicas construxit et instauravit.
[18] Cit. Cyrille Aillet, Les mozárabes: christianisme, islamisation, et arabisation en péninsule ibérique (IXe–XIIe siècle) (Madrid: Casa de Velázquez, 2010), 122–23. As partes entre colchetes são minhas.
[19] Alicia Perea, El tesoro Visigodo de Guarrazar (Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Cientificas, 2001); El tesoro Visigodo de Torredonjimeno (Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Cientificas, 2009). Curiosamente, nenhum trabalho sobre as conquistas destacam tal evidência arqueológica.
[20] Lord Dannat, ex-chefe do British General Staff, referindo-se às rápidas conquistas do Estado Islâmico no Iraque e na Síria, cujo sucesso e métodos ecoam aqueles das primeiras conquistas muçulmanas: “ISIS Slaughters 400 in Ancient Syria City of Palmyra Where Hundreds of Bodies Line the Street,” Daily Mail, 24 de Maio de 2015.
[21] Ibn Khaldun, O Muqaddimah, 2:35.
[22] Em um documento datando provavelmente do século X, mas, claro, expressando visões comumente defendidas desde o século VIII. Ver Luis A. García Moreno, “Literatura antimusulmana de tradición bizantina entre los mozárabes,” Hispania Sacre 57 (2005): 11.
[23] A Chronica Mozarabica de 754 menciona a tributação que o islã impunha sobre os cristãos como uma das condições para lhes permitir praticar sua religião, mas sob os termos dos muçulmanos — uma provável referência à jizya islâmica. Além disso, a escola Maliki de lei islâmica, que era prevalente na Espanha Islâmica, destaca tais significado e propósito da jizya.
[24] Para uma discussão dessas duas interpretações da conquista da Espanha, ver Maribel Fierro e Francisco García Fitz, eds., El cuerpo derrotado: Cómo trataban musulmanes y cristianos a los enemigos vencidos (Península Ibérica, ss. VIII–XIII) (Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2008), 23–25. Alguns lordes góticos, entre eles os seguidores da facção de Vitiza, a qual se aliara aos invasores, aceitaram de bom grado sua dhimmitude, que lhes permitia continuar como lordes cristãos de suas vastas propriedades. Eventualmente, como ambas as fontes muçulmanas (al-Hakam) e cristãs (Luca de Tuy, Primera Crónica General de Alfonso X) notam, tais lordes e seus sucessores foram vitimados pelas “fraudes” dos conquistadores à medida que o Estado muçulmano se tornava mais forte e capaz de violar os termos de submissão. Como o historiador Jesús Lorenzo Jiménez da Universidade Autônoma de Barcelona observa: “Quem quer que faça um pacto o faz porque é forçado a concordar com o pacto. Ninguém cede as coisas porque quer. É imposto sobre você.” (Cit. Santiago Belistigoitía, “El cambio histórico de 711,” El País, February 20, 2011.)
[25] Essa é a afirmação mais sensata sobre o assunto, como em Maíllo Salgado, Acerca de la conquista árabe de Hispania, 30. Representativo dos pactos foi a submissão do lorde Teodomiro (“Tudmir”) a Tariq. Mas o “pacto pacífico” incluía a obrigação de Teodomiro pagar ou sofrer as consequências (os colchetes são dos tradutores): “[Teodomiro] concordou com os termos de rendição envolvendo sete cidades. . . .
[Ele também concordou] que não dará refúgio para qualquer escravo fugitivo, nem abrigará qualquer um dos nossos inimigos, nem dará receios aos que estão seguros conosco; que ele não esconderá informações que tenha obtido acerca dos [nossos] inimigos; e que cabe a ele e ao seu povo pagar um dinar anualmente e quatro mudd (alqueires) de trigo, quatro mudd de centeio, quatro qist (medidas) de suco de uva espesso, quatro qist de vinagre, dois qist de mel e dois qist de óleo. Escravos pagam metade disso. (Christians and Moors in Spain: Volume III Arabic Sources (711–1501), ed. and trans. Charles Melville and Ahmad Ubaydli [Warminster: Aris & Phillips, 1992], 12–13.) Em 2013, a cidade de Orihuela (em Múrcia) celebrou o pacto em uma comemoração oficial: ver Alejandro García Sanjuán, La conquista islámica de la peninsula ibérica y la tergiversación del pasado: Del catastrofismo al negacionsimo (Madrid: Marcial Pons Historia, 2013), 19. García Sanjuán é defensor da escola que propõe a idéia de “pactos pacíficos” e ele ataca o “catastrofismo” de arabistas como Serafín Fanjul e historiadores como García Moreno (García Sanjuán, La conquista, 49–50). Ver também “Formas de sumisión del territorio y tratamiento de los vencidos en el derecho islámico clásico,” em Maribel Fierro and Francisco García Fitz eds., El cuerpo derrotado: Cómo trataban musulmanes y cristianos a los enemigos vencidos (Península Ibérica, Ss. VIII–XIII) (Madrid: 2008), 61–111.
[26] Chronica Mozarabica de 754, 54.
[27] Primera Chrónica General, 554.
[28] John Harris Jones, ed. e trad. Ibn Abd el-Hakem’s History of the Conquest of Spain (London: Williams & Morgate, 1858), 23; al-Hakam, 47, onde Vidal Beltrán a traduz com o termo igualmente impressionante “Ressurreição.” Al-Hakam também cita Malik dizendo que durante a conquista da Espanha os muçulmanos pilharam a região e fizeram muitas coisas “fraudulentas” (al-Hakam, 47). O historiador do século XVII Mohammed Ibn al-Raini al-Qayrawani cita a frase “Fim do Mundo” como sendo usada por Musa para descrever a conquista na tradução de E. Pellisier: Histoire de l’Afrique de Mohammed-ben-Abi-el-Raini-el-Kairouani, trans. E. Pellisier (Paris: Imprimérie Royale, 1845), 59.

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