terça-feira, 17 de maio de 2016

Esquerda e direita - Celso Ming



• Se os conceitos esquerda e direita sempre foram ambíguos, mais ambíguos e mais destituídos de sentido se tornaram

- O Estado de S. Paulo

Por recorrente que seja, se há um comentário estapafúrdio é o de que o afastamento da presidente Dilma e sua substituição por Michel Temer tenha sido a substituição de um governo de esquerda por um governo de direita.

Se os conceitos esquerda e direita sempre foram ambíguos, mais ambíguos e mais destituídos de sentido se tornaram - e não foi agora.

Podem, por acaso, ser chamados de esquerda governos que não se interessaram em fazer as reformas, que desdenharam a educação, a saúde e o saneamento da população; que, em lugar disso, preferiram distribuir aparelhos de TV, celulares, veículos de segunda mão e tanquinhos para as áreas de serviço? Podem ser chamados de esquerda governos que, em vez de erradicar, conviveram e até incentivaram práticas patrimonialistas e de desprezo a valores republicanos?

É claro, pode-se argumentar que, nos últimos 13 anos, 45 milhões de brasileiros deixaram a condição de subconsumidores, deixaram de consumir pelo padrão D e passaram a consumir pelo padrão C; que o trabalhador obteve reajustes do salário mínimo acima da inflação e que ganhou acesso a condições mínimas de subsistência por meio do Programa Bolsa Família.

No entanto, se é elogiável, essa escolha foi obtida apenas temporariamente, com custos altos demais: com a inflação que corroeu a renda do trabalhador, desemprego que vai para 12% da população ativa, uma dívida explosiva, destruição da indústria, corrosão da Petrobrás e do sistema elétrico - e não se fala aqui das mazelas que produziram a rede de corrupção nunca vista antes neste país.

Quando afirma, como afirmou nesta segunda-feira, em entrevista ao jornal Valor Econômico, que “no Brasil a esquerda jamais esteve no governo e a direita nunca abandonou o poder”, o dominicano Carlos Alberto Christo, o Frei Betto, tem metade da razão. Tem razão quando afirma que o governo do PT não foi de esquerda, mas não tem razão quando insiste nessa classificação vazia depois da queda do Muro de Berlim, do ocaso do socialismo real e da social-democracia tal como conhecidos e do modelo de desenvolvimento adotado pelo governo comunista da China. (E não me perguntem por que frei Betto leva dois “ts”, se provém de Alberto.)

O primeiro objetivo de um governo identificado com os interesses da população mais pobre é assegurar o desenvolvimento sustentado e não um crescimento econômico do tipo voo de galinha. Se for para dar mais força à iniciativa do Estado, como quem se considera de esquerda assim imagina, então é preciso garantir simultaneamente o equilíbrio das contas públicas e não destruir as empresas estatais e o caixa do Tesouro, como acaba de acontecer.

A principal missão deste governo em exercício não é imprimir uma administração de DNA neoliberal. É consertar as finanças públicas e consolidar os fundamentos da economia. Se esse objetivo for alcançado, quem vier depois terá condições de imprimir na política econômica a orientação que o debate eleitoral eleger como mais adequado para os interesses do País. E, depois, como convém, seja julgado pelo que fez e deixou de fazer.

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