quarta-feira, 11 de maio de 2016

Em 'asilo' nos EUA, Daniel Aragão ataca cineastas de Pernambuco Diretor afirma que sofria opressão política no Recife


Publicado em 07/05/2016, às 09h01
Daniel, o
Daniel, o "Moloko", asilou-se em motorhome pelos Estados Unidos, onde segue produzindo
Foto: Divulgação
GGabriel Albuquerque
Com uma “performance” nas redes sociais, o diretor Daniel Aragão, também conhecido como Moloko, rompeu relações com um grupo de renomados cineastas pernambucanos. Em “asilo político” nos Estados Unidos, ele critica o pensamento de esquerda no meio artístico e acusa patrulhamento ideológico por ter trabalhado como diretor de fotografia no documentárioO Jardim das Aflições, sobre o filósofo conservador Olavo de Carvalho.
Morando e dirigindo um motorhome, ele não veio ao Recife para o lançamento de This Is Not a Song of Hope, seu novo curta, que concorre na mostra competitiva do Cine-PE. Em entrevista, ele fala sobre sua dissidência com cineastas de Pernambuco e novos trabalhos. 
JORNAL DO COMMERCIO – Você foi pros EUA no projeto de qual filme? E como surgiu a ideia de fazer essa “performance”?
DANIEL ARAGÃO – Eu fui em fevereiro pra Rotterdam apresentar meu curta This is Not a Song of Hope e pretendia tirar umas férias logo depois do Carnaval. Quando fui pegar o voo de volta pro Recife, de Lisboa, por pura coincidência do destino encontrei o Kleber [Mendonça Filho], a Emilie [Lesclaux] e seus filhos na Starbucks do aeroporto. Conversando com eles, percebi que eu não poderia voltar ao Recife devido a questões políticas. Fui no balcão da TAP e perguntei o custo para mudar meu vôo pra New York ao invés do Recife. O valor era irrisório, mudei na hora. Adiei minhas férias e desisti do Carnaval de Olinda.
JC – Como assim questões políticas? 
DANIEL – Nessa conversa eu percebi que terem excretado minha opinião política antigovernista estava concentrada no fato de que eu, um cineasta de prestígio, segundo ele, não deveria ter participado do filme sobre o Olavo de Carvalho. Tudo ainda era muito sutil e eu não queria entrar em parafuso, apesar de já ter sido ameaçado no Recife por ter participado do filme. Por isso eu reivindiquei minhas férias antecipadamente, como uma forma de refletir melhor
JC – Que tipo de ameaças? De quem?
DANIEL – De todos os cineastas com quem convivia. Isso inclui Marcelo Pedroso, Gabriel Mascaro, Pedro Sotero. Coisas que soam como brincadeira aos menos atentos. “Meu irmão, se tu ajudar o Josias a fazer o filme desse nazista, eu deixo de falar contigo, velho”.
JC – Você se considera um dissidente do cinema pernambucano? Pergunto tanto em termos políticos quanto estéticos.
DANIEL – Sempre fui, pensando em retrospecto. E até digo mais: os filmes que eu fazia sempre eram uma luta grande para aprovar minha ideia, não só perante os editais, mas, sim, perante esses meus amigos. Se eles não gostassem de uma cena, eu me sentia na obrigação de tirar do filme, por exemplo. Foi criado um ambiente de coletividade em prol do bem comum ao ponto de eu me sentir, por vezes, completamente insatisfeito com minha própria realização. Oprimido. O exemplo é Boa Sorte, Meu Amor, que mudei coisas significativas da narrativa pois o personagem principal não poderia ser assumidamente armamentista, contra o MST (contra o governo). Eu não tinha aprovação da minha equipe ao ponto de ter transformado o personagem em uma outra coisa.
JC – Pelo modo como você fala, parece que o cinema em Pernambuco é uma oligarquia.
DANIEL – Mas, de fato, é. De maneira quase imperceptível, já que ninguém se colocou contra de forma explícita até agora. Ano passado, com o episódio da Fundaj banir o Cláudio Assis e o Lírio Ferreira, surgiram algumas vozes dissonantes, mas nada que surtisse tanto efeito pois os mesmos que reclamavam da punição estavam sendo beneficiados pelo edital. Ninguém quis realmente peitar a censura da instituição pública.
"Foi criado um ambiente de coletividade em prol do bem comum ao ponto de eu me sentir, por vezes, completamente insatisfeito com minha própria realização"
JC – Você anunciou que estava usando o benefício do Funcultura para uso próprio nos Estados Unidos. Isso era parte da “performance”? 
DANIEL – Fiz um post sobre isso. Resumindo, o que aconteceu foi o seguinte: eu não roubei nada. Passei nota fiscal e tudo certinho. Como eles estavam atrasados um ano no pagamento, eu apenas me paguei porque botei grana do meu bolso enquanto esperava a grana deles. Então, dá pra dizer que foi parte da performance.
JC – Alguém chegou a denunciar ou falar contigo sobre isso?
DANIEL – Falaram sim. Mas do jeito bem recifense de se “falar com alguém”: através de fofocas pelos bares da cidade (risos). Uma pessoa da Secretaria [de Cultura] mandou mensagem extra-oficial via telefone sem fio que eu não iria receber a segunda parcela nem tão cedo. Pelo menos uns oito amigos vieram falar isso pra mim.
JC - O que você quer dizer quando fala que está em "exílio"? Você tem a liberdade de voltar ao país a qualquer momento e seu novo filme será exibido num dos principais festivais do Estado, patrocinado pela Prefeitura do Recife. Onde está a repressão aí?
DANIEL – Exílio pro governo americano é um despatriamento. Asilo é o mais correto pois sou eu quem decido como me sinto. E eu me sinto mais próximo da cultura do Brasil estando aqui. A diferença é que os USA me abraça como eu sou, e aqui posso acessar a justiça diariamente sem a interferência do coletivo.  Preparei a documentação para isso mas não entreguei ainda na imigração pois ainda não preciso trabalhar aqui. Vendi meu filme para a Globo, única empresa que consegue pagar de forma liberal um produto artístico no Brasil. Estou vivendo graças a isso enquanto aguardo o pagamento da segunda parcela do Funcultura para lançar meu filme [Prometo Um Dia Deixar Esta Cidade], que espero o pagamento para distribuir há 1 ano.  
O meu filme [This Is Not...] está sendo exibido num festival que foi massacrado pelo público do Recife, eu incluso. Por mais que a exibição ocorra, não posso contabilizar isso como as "pazes" com meu estado e minha cidade. Eu não estava conseguindo sequer ir para uma festa sem sofrer uma ameaça por minha opinião política. Aos poucos isso é uma tortura. Até sua namorada começa a acreditar nas fofocas mais do que na própria realidade que ela vê diariamente com o convívio comigo.
JC - Como você acha que este novo curta reflete o momento político seu e do País?
DANIEL - Prometo Um Dia... reflete mais esse momento. De forma direta mesmo. Quando eu fiz, não sabia que iria refletir. Assistindo ao filme novamente pois eu que estou lançando aqui nos festivais dos USA, percebi isso de uma forma imensa. Semana que vem eu exibo o filme no festival latino de Austin. OThis Is Not... é só a cereja do bolo. Como é um filme totalmente autobiográfico, filmado na minha casa, o sentimento que o filme passa é quase de um documentário
JC – Você diz ter hackeado um chat de cineastas da cidade e ainda postou um print da conversa no Facebook. Não acha isso antiético? Ok, os dados não estavam criptografados, mas está pressuposto que aquela era uma conversa privada.
DANIEL – O que é ser antiético no Brasil? Difamar o amigo espalhando em boca miúda que ele é louco na tentativa de apagá-lo ou falar a verdade abertamente pelo Facebook, o único meio possível de se fazer isso hoje em dia?
JC – Surgiu um rumor de que você estava com depressão.
DANIEL – Eu me consulto com um psiquiatra há três anos, meu quadro nunca foi de depressão, apenas TDAH e ansiedade. Mas meus amigos ainda acham que quem vai pra psiquiatra é doido, entende? A geração de 30-40 anos ainda carrega aquele complexo da psiquiatria como uma clínica para gente sem capacidade alguma. O doido da Tamarineira. Não sou muito capaz de entrar muito nesse assunto, mas posso te passar o fone do meu psiquiatra pra você conversar com ele, se quiser.
JC – Você comentou que pensou em botar a tira do Bolsonaro na foto de perfil do Facebook, mas não o fez. Simpatiza com as ideias dele?
DANIEL – Eu simpatizo com qualquer político que não é corrupto, nesse Brasil de hoje. No caso do Bolsonaro, ainda não o conheço ao ponto de declarar meu apoio ou coisa do tipo, mas tenho certeza que ele não é o monstro que fazem dele. Inclusive, seu histórico enquanto deputado tem votações importantes, à exemplo da PL-5398/2014 com punições mais severas ao estuprador, ou a PL-367/2011 que suspende o direito de dirigir por 12 meses de quem tem mais de 40 infrações na carteira.
DANIEL – Não vi como exaltação e, sim, como uma provocação gratuita, desnecessária pro momento da votação. Se a Dilma realmente pegou em armas, essa ação de guerrilha tinha que ser combatida de alguma forma. Àquela época era a tortura física. Hoje é a tortura psicológica. Dilma mora em Brasília há muitos anos antes de presidir, assim como o Bolsonaro. Ele sabe que a Dilma tem medo do Ustra. Trollou na hora errada.
JC – Você disse que se considera de esquerda, mas não no Brasil. Explica isso. Se fosse americano, então, não votaria no Donald Trump?
DANIEL – Eu ainda me sinto confuso, pois no Brasil nada funciona, então não consigo ter um exemplo real funcional de qualquer gestão, seja de direita ou de esquerda. Mas eu, como artista, defendo tudo e estou com todos os artistas que apoiam o Bernie [Sanders], por exemplo. Sei que esse apoio aqui é emocional, já que os USA são uma sociedade muito fria, calculista. Então, pra mim, quando eu vou num show da Grimes e vejo ela pedindo pra votar no Bernie, na verdade, ela tá pedindo apenas para que as pessoas sejam mais livres e expressivas como ela. Já no Brasil, ser de esquerda, apesar de apropriar também esse caráter histórico dos direitos da minoria e da liberdade artística, entra em contradição fatal pois é a gestão que mais produz assassinatos, mais fome, mais morte, mais tudo de ruim. Sem contar com o maior roubo de patrimônio público da história da sociedade capitalista.
JC  - Você já havia lido algum livro do Olavo de Carvalho antes de trabalhar no filme? O que acha dele?

DANIEL - Nunca tinha lido nada do Olavo antes de ser convidado. Nem mesmo uma linha do que ele escreveu. Quando fui convidado, aceitei apenas pelo fato de nunca ter feito um filme sobre um filósofo e por gostar do Josias [Téofilo, diretor do longa] e acreditar nos sonhos dele mesmo ele sendo uma figura constantemente difamada pelos meus amigos do Recife. Me identifiquei (risos).

JC - E no que você está trabalhando aí dos Estados Unidos?

DANIEL - Basicamente estou fazendo aqui tudo que faria se estivesse no Brasil. Como sobrevivo da minha própria produção, e como a tecnologia permite, não importa onde estou. Além de trabalhar no lançamento dos meus filmes, estou escrevendo um roteiro chamado The Brazilian sobre o [maestro pernambucano] Moacir Santos, Estou também filmando e fotografando artistas brasileiros que moram aqui em todo território norte-americano para um livro e documentário a serem lançados em 2017. E acabei de filmar um curta novo todo com a tecnologia 360 graus pra utilizar o óculos de realidade virtual, um curta musical filmado nos pantanos de New Orleans com a comunidade negra voodoo.

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