domingo, 28 de fevereiro de 2016

Contra o tempo – Editorial / Folha de S. Paulo


O ano começou aziago para os planos de recuperação da economia do país. Os primeiros resultados deste primeiro bimestre confirmam os prognósticos sombrios de que a recessão neste ano deve ser tão profunda quanto a de 2015.

Com o início do calendário político e o turbilhão incessante de escândalos, reavivaram-se as discussões sobre o impedimento da presidente Dilma Rousseff (PT).

Só isso bastaria para tornar menos provável a aprovação do tímido programa de reformas do governo, recebido ademais com ceticismo nos mercados e com franca desaprovação em seu partido.

As críticas acerbas do PT a esse conjunto ainda vago de medidas levanta mais suspeitas sobre a viabilidade de sua aprovação pelo Congresso Nacional. A ruína econômica e a fragilidade da presidente alimentam uma a outra.

Prossegue a eliminação de empregos formais. Perdeu-se 1,6 milhão de postos de trabalho com carteira assinada nos últimos 12 meses. Apenas em janeiro, foram-se quase 100 mil, mais que as 82 mil vagas fechadas em janeiro do ano passado.

Nas seis maiores metrópoles, o ritmo de redução do rendimento médio também se acelera, para 7,6% ao ano, já descontada a inflação. Cai o crédito na economia, agora 4,1% menor que no início de 2015. A baixa na renda e no total de empréstimos sugere que a recessão será mais sentida no cotidiano da população.

A arrecadação de impostos do governo encolheu 6,7% em janeiro, no ritmo ruim de 2015. Apesar da receita extraordinária da venda de concessões de hidrelétricas ter levado as contas federais para o azul neste mês, a piora na coleta de tributos indica que este será o terceiro ano consecutivo de deficit orçamentário.

A persistência de juros elevados devido à inflação e a incapacidade de controlar as contas do Tesouro fazem o peso da dívida pública crescer sem limite, ainda mais porque a retração da economia impede que se gere a renda necessária para manter a máquina estatal.

Quanto maior a dívida, maior a necessidade de cortes profundos de gastos ou de aumentos de impostos, menores as expectativas de controle da inflação e das taxas de juros, maior o risco de investir, para não dizer que se instala de vez a incerteza.

Tamanho rol de perigos não recomenda a abordagem gradualista com que Dilma parece disposta –ou fadada– a enfrentar a crise. Não só a presidente como o restante da classe política devem atitudes à altura dos desafios colocados ao país; do contrário, será incompreensível em nome de quais objetivos ainda se pretende governar.

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