domingo, 31 de maio de 2015

BANALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA - Rafael Brasil

Ontem meu filho foi assaltado por dois “dimenores” na faixa de 17 anos perto de Ferreira Costa em Garanhuns. Se estes dois “dimenores” matassem meu filho, teriam “punições sócio-educativas”. E eu ia chorar pelo resto da vida, afinal eles estavam armados com facas amoladas. Tudo por um celular.
Basta de impunidade. Não deveria ter esta coisa de inimputabilidade para quem quer que seja. Dizem os sociólogos de botequim, geralmente esquerdopatas, que a cadeia é uma universidade do crime. Ora, quem mata ou mesmo ameaça matar por motivos torpes já é devidamente escolarizado no crime. Com mestrado e doutorado.
Crimes com ameaça à vida deve ter punição sim. Inclusive para os menores. Claro que precisamos - dentre outras consequências do sucateamento do estado e de suas instituições agravado na era petista - reformar urgentemente nosso sistema prisional, que é afinal uma questão de direitos humanos. Menores em presídios especiais. Dependendo da gravidade do crime, o apenado, quando atingisse maior idade, seria transferido para unidades destinadas a adultos. Afinal cadeia não foi feita para reformar ninguém, mas para afastar os meliantes e assassinos do convívio social. E  sobretudo  para realmente coibir os delitos, que é afinal o objetivo do direito. O que torna a violência incontrolável é a impunidade. Atentou contra a vida, matou, não tem essa de comutação de pena, nem privilégios na cadeia, como manter relações sexuais com gente de fora, etc. Um cubículo decente, banhos de sol por semana, só. Quem escolhe o mal tem que pagar. Simples assim.

Mas ainda a grande parte da mídia e dos meios universitários, geralmente de esquerda, defendem os criminosos, alegando serem vítimas sociais. É  uma torpe e simplória  criminalização da pobreza. Os pobres querem mesmo é sair da pobreza através da educação e do trabalho. E a educação começa mesmo é na família. Onde está a igreja para evangelizar os pobres? No momento os evangélicos estão fazendo isso. Enquanto os católicos, principalmente os padres de passeata vivem vociferando contra o capitalismo e defendendo marginais, fazendo o mesmo discurso esquerdopata. Até quando?    

Fernando Gabeira - A lâmina cruel

Fernando Gabeira - A lâmina cruel

• A faca íntima, a faca de uso interno, é também um símbolo de como se arrasta a questão da segurança no Rio

- O Globo / Segundo Caderno 

Assim como uma faca/que sem bolso ou bainha/se transformasse em parte/de vossa anatomia;/qual uma faca íntima/ou faca de uso interno,/habitando num corpo/como o próprio esqueleto

Os versos de João Cabral podem ser lidos a qualquer momento. Mas agora, no Rio, com a sucessão de assaltos a facadas, soam como uma verdade mais profunda. A faca íntima, a faca de uso interno, é também um símbolo de como se arrasta a questão da segurança no Rio.

Compro bicicleta, perco bicicleta, caras e baratas se perdem, elas são levadas no caminho. Isso é de menos. O difícil é ver a situação se deteriorando, como se fosse esse o curso natural. A crise de segurança é tão grande que motivou pesquisadores, criou um grupo de especialistas altamente capazes, entre eles o próprio Beltrame.

Desde quando surgiram as UPPs como alternativa, formulei algumas críticas, embora achasse a experiência importante, depois do que vi em Bidonville e Cité Soleil, ocupadas pelas forças brasileiras no Haiti. No entanto, afirmava que não existem condições de ocupar todas as comunidades do Rio: precisaríamos do exército chinês. E ainda assim em algumas favelas, como na Guerra do Vietnã, assume-se o controle de uma área durante o dia sabendo que à noite muitas vielas estarão nas mãos dos adversários.

Uma política de segurança, creio eu, precisa levar em conta múltiplas variáveis. A mais evidente é a fuga de traficantes para outros pontos, onde não chegam as UPPs. Existem outras mais sutis. Nas áreas em que o tráfico é derrotado, surge um pequeno exército de adolescentes desempregados. Sem uma política para reduzir os danos, através de curso e inserção no mercado de trabalho, a tendência é aumentar o número de assaltos. As UPPs geram problemas quando perdem para o tráfico, mas também quando ganham. Por isso devem ser consideradas apenas um instrumento.

A situação para mim é simples: temos pouco dinheiro, precisamos de inteligência. Em primeiro lugar, no sentido técnico. Os assaltos na Lagoa foram em cadeia. Era possível uma tática de monitoramento e prisão. A Polícia de Nova York já fez isso no metrô, é um caso conhecido. Onde há muito assalto, há uma chance de prender todos os envolvidos. O que vamos precisar também é de inteligência política. As UPPs nasceram de uma convergência entre setores sociais, inclusive empresários, como Eike Batista, que por razões óbvias não pode continuar. O governo foi ficando sozinho consigo mesmo. E a verdade é que para dar um novo passo é preciso reafirmar a tese de que sem a sociedade, o governo não dará conta do problema, a barbárie tende a crescer. Para realizar uma política de segurança na qual a UPP seja apenas um instrumento, é preciso reativar os laços do governo não apenas com empresários, mas com a sociedade.

Concordo com aqueles que dizem que pagam impostos e têm direito à segurança, uma tarefa inequívoca do governo. Mas a realidade é esta: o problema está fora do alcance de um governo que conte apenas com as próprias forças. Não estou pensando num processo social que transforme o carioca num suíço que telefona para a polícia porque alguém faz barulho no apartamento ao lado. Penso num motorista de ônibus em Israel que nos levava para Tel Aviv e, ao ver uma pequena fogueira na estrada, parou o ônibus e foi apagá-la. Poderia se transformar em algo pior, disse ao retomar o volante. Ele tem a consciência de que se desloca numa área de perigo e passa a se comportar de acordo com ela.

Esse encontro governo-sociedade é muito difícil no Brasil de hoje. Mas quem sabe, num caso tão grave como o do Rio, não seja um primeiro passo decisivo. Isso não significa deixar de cobrar, inclusive do aparato montado para a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Até que ponto contribuem de fato com os problemas cotidianos?

As bicicletas se vão, vidas desaparecem e com elas as ilusões de que o governo consiga sozinho conter a violência. As UPPs tremem e com elas treme a convicção de que exista uma bala de prata na política de segurança. É preciso superar o estado de choque e se perguntar, por exemplo, se toda essa dinheirama gasta na segurança dos jogos trouxe algum legado e se, realmente, influi no cotidiano. Enfim, é preciso dar um balance na maneira como se empregam os recursos na segurança e certificar-se de que estão sendo bem usados. E abrir uma discussão sobre a potencial ajuda da sociedade, em mudanças de comportamento necessárias.

Governador e prefeito apontaram para a Justiça, que solta demais. Mas isso é objeto de uma batalha nas próprias leis. Leva tempo. Por que não apresentar saídas para aqui e agora? Na Lagoa, por exemplo, por que não convocar os ciclistas e discutir com eles um projeto comum? Essa distância entre o universo político e a sociedade é algo que neutraliza nossas potencialidades. Infelizmente é também um fato nacional. Estranho viver num país em que os políticos falam uma linguagem e as ruas falam outra. Mundos paralelos.

Flávio Tavares - Ridículos sem bússola


- Zero Hora (RS)

Nada é pior do que aquelas situações em que o ridículo esconde o absurdo ou o crime. O perigo torna-se profundo quando o tom de tudo é palhacesco e nos confunde, sem saber se devemos rir ou chorar, dar gargalhadas pelo disparate ou nos entristecer de raiva.

É o caso do "shopping" da Câmara dos Deputados, que seu presidente, Eduardo Cunha, do PMDB, fez entrar de contrabando na medida provisória do ajuste fiscal. Se a presidente Dilma não vetar a esdrúxula decisão (que o Senado também aprovou), seremos o primeiro país do mundo em que o parlamento será centro de compra e venda.

Ou estou errado e, apenas, vão oficializar algo que já existe? A ideia de Cunha habilita vender no varejo (direto ao consumidor) o que parlamentares e políticos já fazem no atacado, negociando votos. Por acaso, a maioria das fraudes que a Polícia Federal e o Ministério Público investigam todo dia não se origina no núcleo político?

O "Parla-shopping" só vai "democratizar" os fornecedores, vendendo roupas de marca e eletrônicos em vez de votos apenas...

Se nada é pior do que o ridículo perigoso, nada é melhor do que a "maquillage" (escrita em francês, original de maquiagem) para disfarçar a sabujice e adulação. Horas depois das prisões, na Suíça, de dignatários do futebol do continente americano, a Confederação Brasileira de Futebol retirou da fachada da sede o nome de José Maria Marin, que em imensas letras de aço brilhavam dia e noite, como sol e luas. A "sede José Maria Marin" da CBF já não tem nome!

O próprio Marin é veterano bajulador do poder. Deputado estadual em São Paulo durante a ditadura, foi instigador da "punição exemplar" ao diretor de notícias da TV Cultura, Vladimir Herzog, preso e morto sob tortura em 1975. Em furiosos discursos na Assembleia, alegava que a emissora estatal não cobria inaugurações de obras... Depois, quando o delegado Sérgio Fleury (que passou à História como torturador- mor) foi condenado pela Justiça por executar presos comuns, Marin foi seu grande defensor.

O futebol nos apaixona, mas, também, nos confunde e acovarda. Se a maré global não nos arrastar, ficamos inertes na areia. Agora, nossos brios só vieram à luz após o FBI e a Procuradoria de Justiça dos EUA desvendarem que a corrupção na Fifa envolvia, pelo menos, dois brasileiros. O Senado, de um lado, a Polícia Federal e o procurador-geral Rodrigo Janot, de outro, entrarão no assunto, anunciou o próprio ministro da Justiça.

Ironicamente, outra vez os EUA ditam as regras. Se não fosse por eles, continuaríamos desatentos e servis à CBF, tal qual seguimos sem saber o que houve por trás das bilionárias obras da Copa do Mundo, realizadas sem licitação pelo tal RDC, "regime diferenciado de contratação", onde $ó há bon$ amigo$.

O assalto à Petrobras foi (ou é) tão profundo que viramos zumbis tontos, sem entender como o trio PT-PMDB-PP organizou-se em quadrilha. A desfaçatez dos grandes empresários envolvidos, confessando como corrompiam, supera a literatura universal do absurdo – do teatro de Ionesco e Becket ao romance de Kafka.

Agora, a República depende dos presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara Federal, Eduardo Cunha, ambos do PMDB e sob suspeita nas fraudes da Petrobras. A presidente Dilma entregou a articulação do governo ao vice Michel Temer (também do PMDB) e saiu de cena.

Em plena crise mundial, a ânsia da oposição se alia ao sensacionalismo da imprensa e (querendo ou não) passa a ideia de caos. Assim, perdemos a bússola. E, em vez de contar com os quatro pontos cardeais, decidimos como se houvesse apenas abismos.

O perigo é sermos levados ao suicídio antes que a crise (real ou inventada) nos mate.

Elio Gaspari - Frankenstein tem conserto

Elio Gaspari - Frankenstein tem conserto

- O Globo

A reforma política que a Câmara mandará ao Senado ainda é uma criança e pode até acabar bem. Entendendo-se que o Congresso é um poder da República e não uma assessoria, o que os deputados decidiram pode não agradar, mas reflete uma vontade. Se falta consenso, consenso falta. As matérias aprovadas irão ao Senado, e o que for mudado voltará à Camara.

Sepultou-se o sonho petista do voto de lista. Parece pouco, mas ele quase foi instituído em 2007. Tudo indica que começará a acabar a reeleição. Na essência, fica tudo mais ou menos como está.

Restam dois espinhos: o financiamento encapuzado de candidatos por meio de doações de empresas a partidos e a proliferação de siglas amarradas às tetas do Fundo Partidário. O primeiro pode ser resolvido na regulamentação. O segundo é mais difícil, mas pode-se restabelecer uma cláusula de barreira séria, negando sobrevivência aos partidos que não tiverem 5% dos votos nacionais e 3% dos votos em nove estados. Isso já foi aprovado pelo Congresso, e quem liberou geral foi o STF.

A ‘bosta seca’ ameaça a Lava-Jato
Se o Ministério Público aplicar a “teoria da bosta seca” aos conflitos existentes nos depoimentos de réus confessos da Lava-Jato, aquilo que hoje é uma investigação arrisca virar uma pizza. Bosta seca “é o tipo de coisa que quanto mais mexe, pior fica”: “Mexeu, fedeu”.

A opção do Ministério Público pela teoria da bosta foi revelada pela repórter Sonia Racy, expondo diálogos ocorridos durante um depoimento do operador Alberto Youssef, preservado em vídeo. O procurador Andrey Borges mencionou a Youssef que havia contradições entre a sua narrativa e a do “amigo Paulinho”. O ex-diretor da Petrobras mencionara transações que envolviam pedidos de pagamentos de R$ 2 milhões para as campanhas da doutora Dilma em 2014 e de Roseana Sarney no Maranhão, em 2010. Ele teria encaminhado a Youssef os pleitos, trazidos pelo ex-ministro Antonio Palocci e pelo senador Edison Lobão.

Youssef diz que esses pedidos não aconteceram e ofereceu-se para uma acareação com “Paulinho”. Um dos dois está mentindo e ambos assinaram acordos que caducam caso sejam apanhados em patranhas. Não se conhece a identidade da pessoa que expôs a doutrina da bosta seca, não querendo mexer no assunto. Pode ter sido um procurador e é impossível que tenha sido um transeunte. Passaram-se vários dias, o dono da voz não foi identificado e não se anunciou a acareação.

Desde o início da Lava-Jato tudo o que os larápios precisam é de um tumulto no inquérito. Eles sabem o que fizeram. Só um louco poderia esperar por uma absolvição na primeira instancia. Tudo o que se precisa é intoxicar o processo. Numa variante da lição de Neném Prancha (“chuta pra cima que enquanto estiver no céu não é gol”), trata-se de transferir a disputa para as instâncias superiores do Judiciário, reduzindo a questão genérica a tecnicalidades processuais. Foi assim que a Operação Castelo de Areia virou pó no STJ e no Supremo Tribunal. O banqueiro Edemar Cid Ferreira, condenado a 21 anos de prisão pela quebra do Banco Santos em 2006, teve sua sentença anulada pelo Tribunal Regional Federal.

A doutrina da bosta seca é tóxica. Baseado num vídeo da Polícia Federal, o Ministério Público pediu e obteve a prorrogação da prisão de Marice, cunhada de João Vaccari. Erro, a gravação mostrava Giselda, irmã da senhora. A vida é arte, errar faz parte, mas a demora na condenação da doutrina da bosta seca e na identificação do seu formulador são mais que um detalhe. Edemar Cid Ferreira esperou nove anos, mas anulou sua condenação.

Recordar é viver
Empresários da indústria automotiva estão mobilizados para preservar as desonerações tributárias que os beneficiam.

O livro “A capital da vertigem”, no qual o jornalista Roberto Pompeu de Toledo conta a história de São Paulo de 1900 a 1954, traz uma notável revelação. O andar de cima não gosta de pagar impostos e hostiliza quaisquer tributos sobre veículos automotivos desde 1901, quando talvez só houvesse dois na cidade.

O primeiro documento que trata da existência de um automóvel em São Paulo é uma petição de Henrique Santos-Dumont (irmão do Pai da Aviação) pedindo que fosse desonerado de pagar imposto sobre seu “automobile”, pois a manutenção do veículo era cara e as ruas, péssimas.

O pedido foi negado, mas a luta continua.

A dona da faca
O comissário Aldemir Bendine, presidente da Petrobras, passou um fim de semana trancado num hotel de Angra com diretores da empresa.

Na sua equipe, a dona da faca é Solange da Silva Guedes, diretora de Exploração e Produção. Com mais de 30 anos na empresa, sua marca tem sido a defesa de cortes em projetos, iniciativas e, sobretudo, na parolagem.

Em 2009, criou-se na Petrobras uma girafa chamada de Grupo de Análise de Projetos. Era formada por uma pequena equipe, com alta participação de pessoas estranhas aos quadros da empresa, e foi encarregada de centralizar todas as informações sobre os principais projetos em andamento. Em 2012, Solange Silva Guedes fechou a quitanda.

Eremildo, o idiota
Eremildo é um idiota e à noite joga bola no Aterro do Flamengo. Estranhou quando o presidente da Fifa, Joseph Blatter, disse que as prisões de José Maria Marin e outros sete cartolas “jogaram uma longa sombra no futebol”.

O idiota acha que a sombra não caiu sobre o futebol, mas sobre Blatter e a Fifa. O futebol nada tem a ver com isso. Se Blatter tivesse feito o que devia em 2012, quando foram descobertas as roubalheiras, Marin não estaria na Comissão Organizadora da Fifa e o atual presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, não precisaria ter voltado às pressas para o Brasil.

Eremildo acha que a doutora Dilma nunca fez nada de errado e viu no episódio mais uma prova de que ela é infalível.

A doutora nunca foi com a cara de Blatter, da Fifa e de Marin.

A CBF e Marin
Se a CBF do doutor Marco Polo Del Nero realmente não queria prejulgar o antecessor José Maria Marin, não deveria ter retirado o nome dele da sua sede.

Vale lembrar que Marin herdou de seu antecessor, Ricardo Teixeira, um jato de 18 lugares e um helicóptero Agusta de US$ 14 milhões.

Marin e Del Nero moram em São Paulo, e a CBF tem sede no Rio. O Agusta era usado como equipamento de mobilidade urbana pela dupla.

CPI da CBF
O Senado criou uma CPI para investigar as roubalheiras dos cartolas e da CBF.
Como diz a porta do inferno:

“Deixa toda esperança, vós que entrais”.

Eduardo Cunha
Alguém precisa avisar ao deputado Eduardo Cunha que falar tapando a boca é falta de educação.
Se não for coisa pior.

A força avulsa - MERVAL PEREIRA O GLOBO - 31/05


A medida mais impactante aprovada na reforma política que está em curso no Congresso foi o fim da reeleição, que tem forte apelo popular, pois a reeleição acabou virando símbolo de abuso de poder do mandante da hora, especialmente depois de a reeleição de Dilma Roussef estar atrelada a um estelionato eleitoral claro.

Considero precipitada a decisão, pois antes deveria ser pensada uma série de regulamentações que limitassem o uso do poder público na campanha da reeleição, a começar pela necessidade de o postulante ter de se licenciar do cargo seis meses antes do pleito.

Se o fim da reeleição for confirmado, inclusive no Senado, estaremos diante de uma medida que terá consequências na maneira de fazer política no país e, sobretudo, na maneira de governar de prefeitos, governadores e presidentes da República.

Justamente os cargos disputados pelo voto majoritário, e que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu não terem o dever de fidelidade partidária. Essa nova configuração pode abrir caminho para a aprovação, mais adiante, de candidaturas independentes aos cargos majoritários.

Juntamente com o voto opcional, que também estará em votação na reforma política, essa poderá ser uma mudança substancial na política brasileira, reordenando o papel dos partidos políticos. Proposta de emenda à Constituição de autoria do senador Reguffe (PDT-DF) permite que candidatos sem filiação partidária concorram às eleições. De acordo com a PEC 6/2015, para ser registrada pela Justiça Eleitoral, a candidatura avulsa deverá ter apoio e assinatura de pelo menos 1% dos eleitores aptos a votar na região (município, estado ou país) em que o concorrente disputará o pleito.

No seu voto no STF, o ministro Luis Roberto Barroso definiu assim a questão da fidelidade partidária: "A perda do mandato em razão de mudança de partido não se aplica aos candidatos eleitos pelo sistema majoritário, sob pena de violação da soberania popular e das escolhas feitas pelo eleitor".

Isso porque, segundo ele, no sistema majoritário atualmente aplicado no Brasil, a imposição de perda do mandato por infidelidade partidária "se antagoniza com a soberania popular, que, como se sabe, integra o núcleo essencial do princípio democrático".

O vínculo entre partido e mandato é muito mais tênue no sistema majoritário que no proporcional, "não apenas pela inexistência de transferência de votos, mas pela circunstância de a votação se centrar muito mais na figura do candidato do que na do partido", situação reconhecida pela própria Constituição ao prever, em seu artigo 77, § 2º, que "será considerado eleito Presidente o candidato que, registrado por partido político, obtiver a maioria absoluta de votos (...)".

Não se pretende negar o relevantíssimo papel dos partidos nas democracias representativas modernas, alerta Barroso. Porém, não parece certo afirmar que o constituinte de 1988 haja instituído uma "democracia de partidos".

Para Barroso, o artigo 1º, parágrafo único, da Constituição é inequívoco ao estabelecer a soberania popular como fonte última de legitimação de todos os poderes públicos, ao proclamar que "todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos diretamente".

A obrigação de filiação partidária como condição de elegibilidade, disposta no art. 14, §3º, V, da Constituição, é um entrave às candidaturas independentes, e é certo que os constituintes impuseram diversas regras para estabelecer o pluralismo político como um dos fundamentos da República (art. 1º, V).

No entanto, o reconhecimento de que nas disputas majoritárias o papel relevante é dos candidatos e não dos partidos, além da possível aprovação da não obrigatoriedade do voto, pode criar um ambiente político favorável a candidaturas majoritárias independentes.

Juntamente com novas cláusulas de desempenho para o acesso ao fundo partidário e ao tempo de propaganda gratuita, essa mudança pode provocar vigorosa alteração no nosso sistema político-partidário, obrigando os partidos a se posicionarem com mais vigor.

O passado que não passa - JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS O ESTADÃO - 31/05


Em dezembro de 2011, publicamos aqui no Estado, Carlos Melo, do Insper, e eu, um artigo que, três anos e meio depois, parece ser, infelizmente, atual. Dizíamos, então, que “é importante crescer, mas de modo sustentável. Não basta apenas querer o crescimento, gargalos precisam ser alargados e entraves, removidos. Urge iniciar um novo ciclo de mudança”. Hoje, ocupo este espaço para um novo artigo com o Carlos, no qual colocamos que não apenas este processo não veio, como o governo se perdeu no triunfalismo e em conquistas limitadas que festejava.

Já naquela ocasião apontávamos que, ao contrário dos primeiros anos do governo petista, “a agenda era mais complexa. Há um sério problema na expansão da oferta: a produtividade, total e do trabalho, está estagnada; os custos de produção e de investimento sobem velozmente: a competitividade sistêmica cai nas classificações internacionais, como o Doing Business, do Banco Mundial; o investimento perde vigor. A despeito disso, a grande resposta do governo é estimular a demanda”.

Passados 41 meses desde a publicação de nosso artigo, podemos dizer que essa situação se agravou ainda mais. Na verdade, até regrediu: voltamos às agruras dos ajustes fiscais e agora não nos resta alternativa de curto prazo que não seja defender a cidadela macroeconômica, que a esta altura de nossa história deveria ser ponto pacífico, questão superada.

Como em dezembro de 2011, ainda “precisamos de poupança, investimento, infraestrutura, ambiente de negócios, regulação e formação de capital humano – e mais investimento. Precisamos muito de uma substancial melhora na governança pública; precisamos recuperar a credibilidade do sistema político e fazer reformas. Precisamos crescer de uma vez por todas e a isso se dá o nome de maturidade”. Mas, na verdade, tudo parece mais difícil: agora, o ímpeto para o investimento, nos tempos de Operação Lava Jato, se recolheu; sabe-se lá o que mais pode estourar nessa cesta de explosivos que se revelou a relação entre governos e estatais com parte das empresas privadas, fornecedoras de insumos e serviços. A ideologia e a falta de pragmatismo comprometeram marcos regulatórios, o ambiente de negócios piorou, sem as reformas necessárias, a governança pública está em cheque; e a credibilidade do sistema político nunca esteve tão baixa, incapaz hoje de fazer reformas – nem mesmo as que interessam apenas ao sistema político.

O déficit de liderança é ainda maior. Após tantos desatinos durante a eleição de 2014 e mesmo após a posse, em janeiro, a presidente Dilma Rousseff calcinou a maior parte de seu capital político; compôs um governo fraco, de poucos quadros qualificados, possuidor de uma única “bala de prata” – o ajuste do ministro Levy, tão necessário quanto insuficiente. A presidente perdeu comando e com ele o controle de sua base aliada. Se vê sujeitada a insistir em práticas que se esgotaram como recursos que um dia, apesar de questionáveis, apresentaram alguma eficiência momentânea – a distribuição de cargos e espaços no governo. Sem criatividade ou ousadia, Dilma se recolheu, incapaz de expressar uma nova mensagem à nação, mais preocupada com sua popularidade, hoje ao rés do chão.

Em 2011 dizíamos que “não é fácil fazer reformas. A presidente, mesmo que as quisesse – e aparentemente não quer –, dificilmente conseguiria emplacar agenda nessa direção. Sua base política é enorme, porém fragmentada e contraditória; seus aliados, beneficiados do status quo, são reativos; e mesmo seu Estado-Maior – incluindo aí o ex-presidente Lula – se mostra temeroso de conflitos capazes de afetar o obsessivo indicador da popularidade”. O que dizer hoje? O ex-presidente Lula, por muito tempo dito como uma espécie de fiador de Dilma, hoje, à luz do dia, rifa o governo de sua ex-protegida. Está mais preocupado com a manutenção de sua base eleitoral tradicional do que com seu lugar efetivo na história. O mesmo vale para boa parte do PT, que parece não mais considerar seu o governo atual.

O impasse se aprofunda, e até mesmo a oposição, sobretudo do PSDB, se mostra incapaz de expressar alternativas e apontar caminhos de saída. É preciso compreender que quanto pior, pior para todos. Dizíamos no final de 2011 que “há um conhecido rol de propostas, ainda não totalmente desenvolvidas e articuladas. Diante do esmaecimento do processo, seria de supor que o momento de implementá-lo chegou. Todavia, sua oportunidade política parece cada vez mais distante”. E mais distante ainda nos parece hoje, se não houver entendimento político para a superação do péssimo momento.

É imperioso debater e propor saídas, alternativas, apontar os caminhos do amanhã. Assim como em 2011, repetimos: “eis o impasse: a história indica que chegou o momento de seguir em diante, mas a falta de consenso e disposição para o enfrentamento paralisa o processo. Não há, ainda, o dínamo da mudança e talvez só mesmo a crise, quando chegar, possa vir a sê-lo”.

A crise, finalmente, chegou. E chegou com marcas indeléveis: um enorme problema de governança (que se expressa numa corrupção generalizada, na ineficiência da máquina pública e na incapacidade de desenvolver projetos de boa qualidade); um grande fracasso da política macroeconômica (expressa no desarranjo fiscal, na elevada inflação e nos juros altos) e na política microeconômica (crises na Petrobrás, no modelo elétrico, no etanol, no setor automotivo, na construção civil, no setor de bens de capital e na indústria em geral). Isso tudo somado à grande crise de credibilidade do sistema político, que se expressa no sentimento de corrupção generalizada e da ineficiência de quadros. O caso Fifa só reforça essa percepção e o acúmulo das decepções. Cidadãos e torcedores estão juntos.

Na verdade, o que está por trás de tudo é a implosão de duas grandes apostas, interconectadas: a tentativa de hegemonia e eternização no poder de um grupo político e a tentativa de fazer com que o Estado dominasse e conduzisse, em aliança com certos grupos campeões, todas as fontes de crescimento da economia. Daí o desastre macro e o desarranjo microeconômico.

A travessia do deserto será longa e a recessão de 2015, muito profunda. Depois do desastre, assinar manifestos antineoliberais não vai resolver coisa alguma.

Os caminhos estão abertos para quem, de boa-fé, comece a se preocupar com o que fazer.

A crise é feia, mas o Brasil tem lastro - SERGIO FAUSTO



O ESTADO DE S. PAULO - 31/05

Vivemos uma conjuntura política ímpar. Cinco meses após a presidente reeleita tomar posse novamente do cargo, sua figura se apaga, enquanto o vice-presidente e o ministro da Fazenda ganham ares de primeiros-ministros. Acontece que legalmente a primeira mandatária continua a ser a presidente. Embora só o ministro da Fazenda seja demissível, ambos detêm poder a título precário, condicionado ao desempenho nas tarefas de organizar a maioria governista no Congresso e recriar a perspectiva de melhora da economia, respectivamente. O desempenho de um depende do desempenho do outro. Se a já precária maioria governista no Congresso desandar, adeus retomada do crescimento. Se a esperança de retomada do crescimento desaparecer, a maioria política governista seguirá o mesmo caminho.

Depois de quase naufragar na partida, a nau governista pôs-se em movimento e venceu algumas batalhas na luta pelo ajuste fiscal, mas a guerra das expectativas será longa. Na política, jamais se viu um Congresso que abrigasse tantos partidos – problema que se deve agravar com a reforma política virtualmente aprovada na Câmara – e tamanho desejo de desafiar o Executivo, hoje mais fraco do que nunca antes na História recente deste país. Na economia, a passagem do ajuste à retomada do crescimento será mais difícil do que foi no início do segundo mandato de FHC e no primeiro de Lula, pela combinação de desarranjos internos e circunstâncias externas não favoráveis.

A incerteza no cenário nacional é agravada pelo desdobramento imprevisível de um processo judicial que alcança empresas líderes no setor de infraestrutura e construção pesada, partidos e lideranças que compuseram o núcleo do bloco político construído nos governos Lula. A implosão desse bloco, em pleno andamento, deixará mortos e feridos. Resta ainda saber qual a extensão dos danos e sua distribuição entre os atores que protagonizaram o ciclo político e econômico que agora se encerra estrepitosamente.

As incertezas sobre os resultados do processo judicial não se dissiparão tão cedo. Se os inquéritos sob a jurisdição do juiz Sergio Moro avançam com rapidez, bem mais lento é o ritmo dos trabalhos nos domínios da Procuradoria-Geral da República, onde se encontram sob investigação nada menos que os presidentes da Câmara e do Senado, além de outros 43 parlamentares da atual legislatura, número que pode crescer com novas delações premiadas. Se os acordos de leniência de empreiteiras com a CGU parecem mais próximos, o Ministério Público já deixou claro que não deixará de contestá-los. Dentro do bloco governista, em particular no PT, a insegurança é ampla, geral e irrestrita. Também para a oposição o futuro é incerto, porque a implosão do lulopetismo mudou a combinação de gases na atmosfera política do País, mais volátil do que nunca antes nos últimos 20 anos.

Falar que há muita incerteza no cenário nacional é dizer o óbvio. Menos óbvio é notar que as instituições políticas e jurídicas têm conseguido resguardar o País de um naufrágio econômico e de uma crise institucional. Na conjuntura atípica, os atores até aqui se têm movido dentro dos limites constitucionais vigentes e segundo o aprendizado feito pelo País desde o Plano Real. Esse aprendizado se resume, simplificadamente, a uma lição singela: precisamos de estabilidade política para ter estabilidade econômica e vice-versa. E sem uma e outra coisa não haverá crescimento. Nem que a vaca tussa.

Com suas regras escritas e não escritas, o software institucional que tem assegurado razoável estabilidade política e econômica ao País nos últimos 20 anos, com seus pesos e contrapesos, tem passado – vale repetir, até aqui – pelo teste de estresse a que está submetido.

A própria presidente demorou, mas entendeu que não poderia continuar em rota de colisão com o Congresso. O Legislativo não perde a oportunidade para exercer em grau inédito a independência que a Constituição lhe atribui, mas não age para tornar inviáveis as ações do Executivo.

A credibilidade do Banco Central e do regime de metas de inflação recupera seu antigo vigor, porque a sociedade e mesmo os políticos, afinal, sabem que no Brasil quem brinca com a inflação acaba queimado. O TCU se fortalece como órgão de controle, apontando infração à Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) no primeiro mandato de Dilma Rousseff, no caso das notórias "pedaladas fiscais". O governo contesta a interpretação do tribunal, mas não põe em xeque sua competência legal para proceder à acusação, muito menos questiona a validade da LRF.

Furiosos com a inclusão do nome deles na lista de políticos sob investigação da Procuradoria-Geral da República, os presidentes da Câmara e do Senado ameaçaram patrocinar emenda constitucional para impedir a recondução de Rodrigo Janot. Sem apoio suficiente entre seus pares, logo recuaram da bravata.

O Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal atuam com firmeza sem precedente no combate à corrupção, valendo-se de instrumentos jurídicos novos. Procedem, no entanto, dentro dos limites do devido processo legal e, em última instância, sob o crivo do STF.

Embora preocupado com os prejuízos políticos e econômicos do processo judicial, o governo não opera para cercear o trabalho dos responsáveis pela investigação ainda em curso. E as oposições, sem abandonar seu dever de manter acesos os holofotes sobre irregularidades cometidas pela presidente e seu governo, decidem trilhar caminho alternativo ao impeachment, que nada teria de inconstitucional, mas provocaria consequências imprevisíveis e não desejadas pela população na delicada situação econômica e política que o Brasil atravessa.

Por ora a travessia se dá com razoável estabilidade graças às instituições construídas e/ou aperfeiçoadas nos últimos 20 anos, ao amparo da Constituição. Não é pouco.

O risco de um novo pacto federativo - MAILSON DA NÓBREGA

O ESTADÃO - 31/05

Volta-se a falar em pacto federativo, compreendendo, como sempre, descentralização e maior autonomia para Estados e municípios. A ideia faz sentido em tese, mas será problemática se desprezar as condicionantes que explicam a atual distribuição de receitas e encargos na Federação. Não é o que parecem pensar os governadores, que tornam a reivindicar aumento de transferências de recursos da União para os Estados.

A defesa da ideia se nutre de um mito, o de que a maior participação da União na receita tributária adviria de ação deliberada para aumentar o poder em Brasília. Teria havido dois momentos do processo: um durante o governo militar; outro iniciado em 1988, centrado no recurso crescente às contribuições sociais. A concentração ocorreu, mas por motivos distintos e justificáveis.

O estudo em que se baseou a reforma tributária no governo Castelo Branco (1965) não contém referência a centralização de recursos na União. O objetivo era imprimir racionalidade ao sistema. Conceitos jurídico-formais da época da colônia foram substituídos por regras baseadas nos aspectos econômicos dos tributos. Os Estados e municípios beneficiaram-se da criação dos fundos de participação, cujo objetivo era assegurar receita mínima para todos.

O uso de contribuições foi a melhor forma de lidar com os efeitos fiscais da Constituição de 1988 e a elevação dos fundos de participação, que passaram de 20% da arrecadação do Imposto de Renda (IR) e do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) em 1980 para 47% em 1988. Adicionalmente, 10% do IPI foram alocados aos Estados por supostas perdas com incentivos às exportações. A União perdeu ainda os impostos únicos sobre combustíveis, energia elétrica, minerais e transportes, que foram incorporados ao ICMS, que é estadual.

Além da perda expressiva de receitas, a União teve suas despesas elevadas pela criação de novos gastos previdenciários e com a folha de pessoal. Os dispêndios obrigatórios com educação subiram de 13% para 18% dos impostos federais. Dada essa terrível realidade, restava ao governo federal, em fins de 1988, a opção de aumentar a carga tributária.

Para tanto deveria ter recorrido ao Imposto de Renda e ao IPI, menos distorcivos do que os demais. Acontece que seria preciso cobrar pelo menos o dobro do IR e o triplo do IPI para obter a mesma receita, pois mais da metade do primeiro e mais de dois terços do segundo se destinam automaticamente à educação e aos fundos de participação. Instituiu-se, por isso, a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), uma espécie de IR integralmente pertencente à União, não sujeita à partilha com Estados e municípios. Vieram outras contribuições e foram elevadas as alíquotas das existentes.

Quem defende um novo pacto federativo, incluindo os governadores, deveria antes estudar a estrutura da despesa federal. Os gastos previdenciários – 7,1% do produto interno bruto (PIB) em 2014 – consomem 28,4% da receita tributária da União. Os gastos com educação e saúde somam outros 12,4%. A folha dos servidores, quase todos estáveis, absorve 16%. Os encargos financeiros da dívida federal, 20%. Finalmente, 15,2% vão para os fundos de participação. No total, 92% da receita da União estão comprometidos com gastos obrigatórios. Restam 8% para financiar programas sociais, investimentos, Forças Armadas e manutenção da máquina federal. Essas despesas superam aqueles 8% e tornam deficitário o Orçamento da União. Não tem de onde tirar para dar aos Estados e municípios.

A República inspirou-se no modelo federativo americano, de forte autonomia estadual, mas foi guiada por tradições ibéricas de Estados unitários. Diante das dimensões do Brasil justificava-se o federalismo, mas era preciso contar com mudanças culturais. Permaneceu, todavia, a ideia de que o governo federal tem papel central. No século 20 consolidou-se a visão de que o gasto público exerce função redentora. Vem daí o desastre fiscal da Constituição de 1988 e de decisões posteriores que ampliaram a despesa pública. Veja-se a recente e irresponsável fragilização do fator previdenciário na Câmara dos Deputados. Se aprovada no Senado e não vetada, agravará a situação da Previdência Social e ampliará os gastos obrigatórios para 94,4% da receita.

A rigor, é possível negociar uma nova estrutura de gastos e receitas, com distribuição adequada entre os entes federados. Distribuir somente receitas, como querem os governadores, esbarra em impossibilidade física, a menos que se aumente substancialmente a carga tributária. Redefinir gastos por ente federado esbarra na sua rigidez. Poder-se-ia transferir receitas do INSS e outras para os Estados, atribuindo-lhes a responsabilidade de arcar com as aposentadorias em seu território e de assumir parcelas da dívida pública federal, mas isso é utopia.

Discussões sobre o pacto ganham dimensão em época de crise nos Estados, como agora. Desta vez, há uma novidade, isto é, o efeito, nas finanças dos governos subnacionais, da desastrada política de desonerações do IPI, conduzida pelo Ministério da Fazenda no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. Pela Constituição, o IPI pertence às três esferas de governo, mas é administrado pela União. A rigor, a União deveria compensar os Estados e municípios pela perda deles na concessão de benefícios fiscais. O inédito, desta vez, foi o abuso. Já é hora de criar regra nesse sentido para casos futuros.

Independentemente disso, não faz sentido reivindicar novas transferências da União, pois o Tesouro Nacional é uma vaca leiteira capaz de continuar a repartir indefinidamente suas receitas. No passado, transferências adicionais resultaram quase sempre em maiores gastos de custeio e aumento do quadro de servidores.

Sem um estudo sério e responsável o risco é caminhar-se a esmo para um novo e desastroso federalismo fiscal. A situação do Brasil pioraria.

O desmonte da Universidade pública - EDITORIAL O GLOBO


O GLOBO - 30/05

Radicalização de grupos de estudantes e o ativismo sindical de funcionários têm contribuído para tumultuar os campi, onde o ensino passa a ficar em segundo plano



Não fosse suficiente a crise de qualidade enraizada no ensino básico, a Universidade pública passa por uma fase de turbulência, a qual a falta de recursos em função da crise fiscal do Estado não explica por inteiro. A degradação educacional brasileira tende a fechar o círculo: vai da falta de creches ao ensino superior precário.

A alegada escassez de recursos aparece apenas na superfície de uma fase de conflitos, muitas vezes violentos, entre reitoria, professores, alunos e servidores, alimentados por muita politização radical e sindicalização de atividades secundárias nos campi, mas que afetam a própria finalidade dos estabelecimentos: a formação de profissionais de alto nível, sem os quais nenhum país eleva seu estágio de desenvolvimento.

A depredação, na noite de quinta-feira, do campus da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), com a participação de estudantes e pessoas que resistiam à remoção de parte de uma favela próxima, retrata este momento da crise do ensino superior financiado pelo contribuinte.

Foi iniciado também na quinta um movimento de greves nas universidade federais. O sindicato nacional de docentes (Andes—SN) contabilizou paralisações em 18 instituições, distribuídas em 12 estados. Movimento que o novo ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, critica porque, segundo ele, não foi dada chance para negociações. Parece que é mais forte a motivação política das paralisações, outro sintoma da radicalização nos campi.

O fenômeno não é novo. Há tempos, a Universidade de São Paulo (USP), a instituição de ensino superior brasileira mais bem colocada em rankings mundiais, tem enfrentado sérias dificuldades devido a esta exacerbação de grupos de alunos e sindicatos de servidores.


Mal administrada, a USP estourou a folha de salários. Por isso, está em fase de ajuste, o que alimenta a radicalização. Em artigo ontem na “Folha de S.Paulo”, o professor Francisco Carlos Palomanes, do curso de História, relatou as dificuldades para conseguir dar aula. A tendência é a universidade cair nas avaliações internacionais.

A banalização da greve nos campi levou, por sua vez, o professor da UFF, também de História, Daniel Aarão Reis a criticar publicamente esses movimentos. Insuspeito perante a esquerda, participante da chamada luta armada, preso político, Daniel, em entrevista ao GLOBO, de que é articulista, destacou a absoluta falta de representatividade das assembleias que decretam essas greves. Nas quais os maiores prejudicados são os estudantes da graduação.

Mas como parece haver outra e delirante agenda para esses grupos que infestam os campi, a ebulição continua. Vozes sensatas como a dos dois professores não devem ser minoritárias entre o corpo docente. Porém, falta mobilização política daqueles que entendem qual o papel da Universidade. Enquanto isso não ocorrer, o ensino superior público corre sérios riscos.


A rua é boa - MÍRIAM LEITÃO O GLOBO - 31/05



O ano está tenso, as notícias são desencontradas e negativas. Nesse ambiente, a palavra clara da ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, desanuvia e simplifica. Ela acha que as manifestações de rua este ano foram necessárias, diz que ainda quer, aos 61 anos, o que queria aos 16: "não mudar do Brasil, mas mudar o Brasil." Acha que ministros do Supremo deveriam ter mandato e critica o marketing político.

A defesa de que os ministros de tribunais superiores tenham mandato vem de uma conta simples, que ela me fez quando saíamos do seu gabinete, após gravar a entrevista para a Globonews:

- Uma pessoa que seja escolhida aos 35 anos, idade mínima para ser ministro do Supremo, pode ficar até os 75 anos. Isso são 40 anos, dez mandatos presidenciais. É poder demais.

Ela diz que continua convencida de que na República todo poder deve ser temporário. Por isso, acha que, em algum momento, deveria ser discutida com a sociedade a possibilidade de mandatos fixos no Supremo.

O marketing da presidente Dilma Rousseff em 2014 acusou os adversários de pretender fazer o que ela acabou fazendo, além de outras ofensas. Diante disso, perguntei à ministra o que a Justiça eleitoral pode fazer para impedir que o marketing manipule o eleitor.

Ela disse que a política precisa voltar a ser "a pessoa na polis". No marketing, a pessoa diz o que o eleitor deseja ouvir, não o que ele tem condições de fazer. Contou que a palavra candidato vem de Roma, quando a pessoa que queria representar os interesses dos plebeus tinha que atravessar a rua trajando apenas um manto branco, "cândido", que deixava parte do corpo à mostra. Era uma forma de dizer que não tinha nódoa moral e não mentiria física ou moralmente.

- Quando o marketing faz uma propaganda do que acha que o eleitor quer ouvir, ele faz uma fraude eleitoral. Temos que evitar que o marketing crie figurações que permitam ao candidato não levar adiante seus compromissos. A pessoa precisa se mostrar verdadeiramente - diz a ministra.

Ela própria escolheu um caminho simples quando foi se apresentar ao Senado para a sabatina. Deu aula de manhã na PUC de Belo Horizonte, foi para Brasília, pegou um táxi e foi ao Senado dizer quem era e responder aos senadores.

Este ano começou com fortes manifestações de rua contrárias ao governo e à corrupção. A ministra Cármen Lúcia define os atos como "necessários":

- A nossa geração foi para as ruas. Não seria eu, que corri na Álvares Cabral, que iria achar que ficando em casa as coisas mudariam. Fomos para as ruas pela liberdade, pela anistia, para pedir eleições para o Diretório Acadêmico e para a Presidência da República. Na época, havia adesivos que diziam: "Brasil, ame-o ou deixe-o." Eu o amo e não quero deixá-lo. Como aos 16 anos, aos 61 eu continuo do mesmo jeito. Não quero me mudar do Brasil, quero mudar o Brasil. A rua é boa. No carnaval, na manifestação, e, eu que sou do interior, acho que até no enterro é melhor, porque as pessoas vão todas juntas, cantando. A rua é para nós.

A ministra acha que é hora de "transformar" a Justiça para que ela seja mais célere e atenda aos desejos dos cidadãos. Ela está trabalhando em um projeto para acelerar o julgamento de quem pratica crime contra a mulher e argumenta que "a Justiça que tarda falha".

Quando perguntei sobre a crise atual, ela explicou que crise tanto pode ser instabilidade, ou uma ruptura, fase final de uma evolução, quando mudanças radicais, "de raiz", transformam a nossa vida. Em momentos assim, os governos não respondem com a mesma rapidez exigida pela sociedade:

- As demandas se acumulam. As perguntas são novas e não há respostas. A democracia vive da confiança e há muita descrença na sociedade. As instituições não podem ser consideradas desnecessárias.

Cármen Lúcia termina a conversa com um estímulo à esperança e ao esforço:

- Uma última palavra. Como dizia o nosso Guimarães Rosa: "Sorte é merecer e ter". Eu acho que o Brasil merece ter paz maior, Justiça maior, serviços melhores, mas nós brasileiros precisamos entender que temos que brigar para ter, porque nós merecemos.

sábado, 30 de maio de 2015

Uruguai, Minas – Pimentel e a mulher nas asas de Benê. É a quadrilha comandada pela dupla Lula-Dilma à toda Com Blog Reinaldo Azevedo - Veja



Uma coisa é certa: o governador de Minas, Fernando Pimentel (PT), é mesmo íntimo do empresário Benedito Oliveira Neto, o Benê, personagem central da Operação Acrônimo, deflagrada pela Polícia Federal. Conforme reportagem da VEJA.com, há a suspeita de que Neto operava o caixa paralelo da campanha de Pimentel.
Pimentel e sua mulher, Carolina, estavam em companhia de Benê num jatinho que saiu de Punta Del Este, no Uruguai, com destino a Belo Horizonte, no dia 29 de março de 2014. No voo também se encontravam uma segunda mulher, Bruna Cristina Oliveira da Fonseca, e o deputado federal petista por Minas Gabriel Guimarães Andrade, um dos políticos mais próximos do governador. Gabriel é filho do ex-deputado petista Virgílio Guimarães, que apresentou Marcos Valério ao PT. Segundo a PF, Virgílio é sócio oculto de Benê.

Pimentel Voo dois

Ouça a íntegra e confira um trecho da entrevista espantosa: a presidente do Brasil já não governa sequer o que diz



O áudio em estado bruto e o texto sem revisão nem retoques, ambos divulgados pelo Portal do Planalto, informam que o que deveria ser uma entrevista da presidente Dilma Rousseff ao jornalista mexicano Dario Pignotti foi uma genuína conversa de hospício. O que se ouve e lê é um documento histórico tão precioso quanto perturbador. E o confronto de alguns trechos demonstra que o diálogo amalucado nada tem a ver com versão publicada por La Jornada.
Dos 22min22 aos 24min02, por exemplo, entrevistado e entrevistadora produzem em dueto uma estarrecedora sequência de frases desconexas, afirmações sem pé nem cabeça e apartes bêbados que a rapaziada do Portal do Planalto transcreveu com elogiável fidelidade:
PresidentaQual é a cor da sua bandeira?
JornalistaBranca, azul e vermelha.
PresidentaBranca, vermelha e azul, não é? Não, verde.
JornalistaNão, vermelha e verde, verde. Igual que a da Irlanda, igual que a da Itália, só que tem o escudo no meio, da águia com a serpente.
PresidentaAh, tem o escudo no meio, está certo, com a serpente. E deixa eu te falar uma coisa…
JornalistaMexicanos são grito de guerra,
PresidentaPor que que eu perguntei isso? Sabe por quê? Teve um teatrólogo brasileiro, que você deve conhecer, Nelson Rodrigues, que, além, disso, foi um colunista de futebol.
JornalistaSim, claro.
Presidenta: Que quando se referia à Seleção Brasileira, dizia que a Seleção Brasileira era a pátria de chuteiras, a pátria verde e amarela de chuteiras, Lá, a Seleção Mexicana é a pátria azul, branca e verde…
JornalistaNão, a camisa é verde, a camisa da Seleção. Sim, é verde.
PresidentaÉ verde? Então, é a pátria verde e chuteiras. A nossa também às vezes é verde, hein?
JornalistaAgora deixa eu fazer uma pergunta, uma pergunta...
Presidenta: Agora, a Petrobras é tão importante para o Brasil como a Seleção.
Jornalista: Claro.
PresidentaEntão, eu sempre disse o seguinte: se a Seleção Brasileira é a pátria de chuteiras, a Petrobras é a pátria com as mãos sujas de óleo.
JornalistaAh, isso é muito bom, Presidente, é uma frase muito boa.
Presidenta: E vocês têm também a pátria suja de óleo lá, a mão suja de óleo.
Jornalista: Desde o presidente Cárdenas.
PresidentaCárdenas, el grande presidente Cárdenas.
Recriada pelos editores mexicanos, essa intragável gororoba de 243 palavras acima servida virou uma sopa de letras que se pode engolir sem engasgos:
“Le cuento una historia: en Brasil hubo un escritor y cronista de futbol, Nelson Rodrigues, que cuando se refería a la selección decía que era la patria verdeamarilla con botines de futbol. En forma análoga, Petrobras es una empresa querida por el pueblo brasileño, para mí es tan importante para Brasil como la selección de futbol, y creo que en México ocurre algo parecido con Pemex, desde que el gran presidente Lázaro Cárdenas nacionalizó los hidrocarburos en los años 30″. 
(Tradução livre: “Ouça esta história. Tivemos no Brasil um escritor e cronista de futebol, Nelson Rodrigues, que se referia à seleção como a pátria verde e amarela em chuteiras. Faço uma analogia. A Petrobras é uma empresa querida pelo povo brasileiro, para mim é tão importante para o Brasil como a seleção de futebol, e creio que no México ocorre algo semelhante com a Pemex, desde que o grande presidente Lázaro Cárdenas, nos anos 30, nacionalizou os hicrocarbonetos”)
A versão em espanhol, reduzida a 79 palavras, expurgou o amalucado falatório que redesenha a bandeira do México e contamina as mãos da Pemex com a sujeira do Petrolão. Redundâncias bizarras ou bijuterias verbais foram para o lixo e a mulher indecifrável se tornou inteligível. Dá-se a isso o nome de “edição”. É só uma forma de vigarice que sonega aos leitores a informação essencial: o declarante é incapaz de traduzir em linguagem de gente o que lhe vai pela cabeça em permanente tumulto.
Vale a pena ouvir de ponta a ponta a entrevista inverossímil. Em pouco mais de uma hora, fica evidente que Dilma não faz sentido. Como a Constituição não autoriza a decretação do impeachment por insanidade mental, o Brasil segue lidando com uma presidente que não governa sequer o que diz. Os primeiros meses avisam que três anos e meio, em certos momentos históricos, podem ser a medida da eternidade.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Vídeo exclusivo: Autora de best seller sobre Eike Batista conta como ele virou um empresário do PT - POR FELIPE MOURA BRASIL



eike-lulaA jornalista Malu Gaspar, da VEJA, autora do primoroso livro best seller “Tudo ou nada – Eike Batista e a verdadeira história do grupo X“, contou no Fashion Mondays de 18 de maio como ele virou um empresário do PT.
Eu mesmo filmei pelo celular o evento comandado pelo também autor da Record Alexandre Borges e não pude deixar de selecionar o trecho abaixo, nesta sexta-feira (29) em que outro empresário ligado ao PT – Benedito Rodrigues de Oliveira Neto, o Bené – foi preso pela Polícia Federal na Operação Acrônimo.
Bené ficou conhecido na campanha de 2010 por bancar despesas do comitê eleitoral da então candidata Dilma Rousseff e sua prisão pode respingar tanto na campanha da petista quanto na gestão do atual governador de Minas Gerais Fernando Pimentel (PT).
De 2004 a 2010, durante os mandatos de Lula, as duas empresas de Bené faturaram 214,4 milhões de reais em contratos com o governo federal.
Para se ter uma ideia, o Grupo EBX, de Eike Batista, faturou só do BNDES pelo menos 10,4 bilhões de reais.
Sim: Eike está solto.
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