sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

‘O rolezinho da presidente em Lisboa’, por José J. de Espíndola

30/01/2014
 às 16:04 \ Opinião

‘O rolezinho da presidente em Lisboa’, por José J. de Espíndola

JOSÉ J. DE ESPÍNDOLA*
Dilma Rousseff embarcou em Zurique, na Suíça, e fez escala “técnica’, segundo informa, em Lisboa. A escala foi necessária, informou a presidente, porque o seu avião, o Aerolula (também conhecido como Força Aérea 51), não tem autonomia para voar, sem reabastecimento, de Zurique a Havana. Esta é a história contada. Vamos aos fatos reais.
O Aerolula é um A319 CJ, jato corporativo fabricado pela Airbus. O modelo do qual deriva é um A319, muito usado pela TAM em voos de curtas e médias distâncias. O modelo A319CJ, corporativo e derivado do A319 comercial, foi adaptado para longas distâncias, pela adição de novos tanques e para um número menor de passageiros.
Sua capacidade, dependendo do layout adotado, varia de 10 a um máximo de 39 passageiros, ou um pouco mais. Sua autonomia de voo, para o caso de dez passageiros, é de 11.650 km.
Entretanto, a autonomia de voo (MTOW) específica do Aerolula, que se vê informada no site, é de reduzidos (em relação a 11.650 km) 8.500 km. Oito mil e quinhentos quilômetros! Isto significa que o Aerolula foi configurado para um número máximo de passageiros (claro, é assim que as coisas são neste país: turismo e regabofe para o máximo de pessoas, quando quem paga é o contribuinte).
A distância (geodésica, isto é, levando em conta a curvatura da Terra) entre Zurique (Suíça) e Havana (Cuba) é de 8.044,76 km. A diferença entre a autonomia de voo do A319CJ da FAB e a distância geodésica entre Zurique e Havana é: 8.500 – 8044, 76 = 455,24 km (quatrocentos e cinquenta e cinco quilômetros e duzentos e quarenta metros). Isto é mais do que a distância entre Florianópolis e São Paulo (490,11 km).
As informações acima põem sérias dúvidas sobre a veracidade da alegação de que, por falta de autonomia do Aerolula, a escala em Lisboa foi ‘técnica’, isto é, teve de ser feita. Ao menos que a FAB dê uma explicação mais convincente (algo que supere os dados levantados acima), no que não acredito, tendo a pensar que Dilma mente, o governo mente. Certamente mentir não é uma novidade no governo do PT desde 2005, quando Lula começou a alegar que nada sabia do mensalão.
Mas, por mais esclarecedores que os dados acima possam ser, o mais importante ainda está para ser dito, e aí dou meu testemunho.
Em julho de 1972, aterrissei às 23 horas na mesma Lisboa de Dilma, vindo de Roma. Só que naquela época o avião era um Boeing 707-320 Intercontinental, equipado com quatro motores turbojets da Pratt & Whitney, insaciáveis bebedores de combustível. Os motores do Aerolula são modernas máquinas turbofans, muito mais econômicas em termos de consumo de combustível por quilômetro voado, além de menos ruidosas.
Aqueles Boeings históricos carregavam o máximo (em voos intercontinentais) de 23000 US gallons, ou 87.000 litros de combustível para o transporte de, no máximo, 141 pessoas. Já o Aerolula recebe um máximo de 41.000 litros. Ou seja, o tempo de reabastecimento do Aerolula, em Lisboa, forçosamente foi bem menor do que o do meu Boeing 707-320, de 1974.
Por que faço essas comparações? Só para dizer que o tempo de parada do meu 707–320 no aeroporto de Lisboa foi de aproximadamente uma hora. Ou seja, lá pelas 0h30 estava ele decolando rumo ao Rio. Ora, além da suspeitosa razão ‘técnica’ para a escala do Aerolula, como já demonstrado acima, é preciso registrar que, certamente em menos de uma hora (às 18h30, portanto), a presidente e sua entourage já poderiam estar voando para La Habana, si señor.
Como a decisão da presidente foi permanecer em Lisboa, em vez de esperar uma hora (quando muito!) para reabastecimento, concluo que só houve realmente uma razão real para isso: abastecer-se a si própria e a sua (come)tiva, em um regabofe fantástico, pago com o dinheiro do contribuinte. Não há como contornar esses fatos aqui arrolados.
O valor gasto nas hospedagens (caríssimas!) e no reabastecimento da presidente e sua (come)tiva não é a razão principal da minha indignação pessoal: o Brasil não irá à falência por causa disso. As despesas decorrentes de sua (sim, sua!) decisão de pernoitar em Lisboa são infinitamente importantes pelo seu simbolismo: foi um  espetáculo de desconsideração de Dilma e seu grupo para com o povo humilde do Brasil. A farra gastronômica foi um deboche jogado na cara do contribuinte. As mentiras para justificá-la apenas agravam a falta de respeito e desconsideração.
Ah, sim, a presidente garante que todos pagaram de seus bolsos as contas, como se a questão do rolezinho em Lisboa se limitasse a isso. Quem acreditar que cada um dos participantes realmente pagou alguma coisa ganha um A319CJ corporativo.
*José J. de Espíndola  é PhD, Dr.h.c, é Professor Titular da Universidade Federal de São Carlos, Departamento de Engenharia Mecânica, aposentado

‘Além de bacalhau & vinho’, por Sandro Vaia


‘Além de bacalhau & vinho’, por Sandro Vaia

Publicado no Blog do Noblat
SANDRO VAIA
Então ficamos assim: a presidente come o que quiser, no restaurante que quiser, porque ela paga a conta. E pronto.
A comitiva dela pode sair da Suíça e ir para Cuba com uma ligeira paradinha em Lisboa porque o avião não tem autonomia de voo e precisava abastecer.
Enquanto o avião abastece a comitiva presidencial tem todo direito de alugar as suítes que quiser, no hotel que quiser, pagar as diárias que quiser.
Enfim, a comitiva presidencial tem o direito de fazer o que quiser, inclusive o de mentir e de dizer que a escala foi improvisada, embora o governo português jure que tinha sido informado dois dias antes.
A oposição, como não podia deixar de ser, fez praça de mais essa vistosa aventura governamental, e encaminhou um pedido à Procuradoria Geral da República para que a escala fosse investigada.
A Comissão de Ética Pública da Presidência da República não se sente habilitada a investigar essa tal de escala secreta ─ tão secreta que até as fotos do chef do restaurante lisboeta com a presidente foram publicadas em todos os jornais ─ e daqui a alguns dias ninguém lembra mais de nada.
No Brasil há uma extraordinária vocação para magnificar a banalidade ao mesmo tempo em que se banaliza aquilo que talvez devesse se magnificar.
Enquanto se discute se a escala foi secreta ou não, se a presidente pagou ou não pagou a conta do restaurante, se as diárias do hotel foram ou não abusivas, a presidente chegou tranquilamente a Cuba, entregou o porto novo financiado com dinheiro brasileiro, e posou para fotos carinhosas com o vovô ditador aposentado mais longevo do planeta.
Já que se trata, aparentemente, de exigir um pouco mais de transparência, talvez fosse mais útil, em vez de pedir à PGR que investigue a escala do avião, o menu do restaurante, as diárias do hotel e quem pagou a conta, que a oposição conseguisse explicações claras sobre as condições de financiamento do porto de Mariel, sobre o projeto da Zona Especial de Comércio que o governo cubano pretende implantar lá, e quais vantagens o Brasil pretende tirar disso.
O governo poderia aproveitar também para deixar claro porque o dinheiro que está sendo gasto lá não é o mesmo que faz falta na melhoria da nossa infraestrutura portuária, rodoviária e aeroviária. Se não é falta de dinheiro, é falta do que? De vontade? De competência?
E já que se trata de deixar as coisas claras, porque não aproveitar para pedir explicações também sobre os detalhes do contrato de prestação de serviços que o Brasil assinou com Cuba para a importação da mão de obra de médicos, e se as leis trabalhistas do país estão ou não sendo desrespeitadas por ele.
Enfim, saber que Dilma paga as suas próprias contas no restaurante pode ser muito tranquilizador, mas as preocupações da oposição e do país deveriam ir muito além da conta do bacalhau e do vinho.

1 minuto com Augusto Nunes: Dilma ainda não explicou quem pagou a conta do hotel e nem por que os gastos com viagens presidenciais são segredos de Estado

31/01/2014
 às 1:06 \ Direto ao Ponto

1 minuto com Augusto Nunes: Dilma ainda não explicou quem pagou a conta do hotel e nem por que os gastos com viagens presidenciais são segredos de Estado


A reportagem do Globo assinada por Paulo Celso Pereira e Chico de Gois transformou de vez em piada de brasileiro o álibi da “escala técnica”em Lisboa. Sabe-se agora que Dilma Rousseff resolveu presentear-se com a noitada em Portugal já na quarta-feira passada, dia 22, antes da chegada a Davos, na Suiça.
Na quinta-feira, enquanto alguns assessores providenciavam a hospedagem da turma nos hotéis Ritz e Tivoli, outros cuidavam da reserva da mesa para 12 pessoas no restaurante Eleven. Na sexta, pelo menos três funcionários do Planalto decolaram de Brasília para juntar-se em Lisboa ao Escalão Avançado (Escav) completado por colegas que deixaram a Suiça no sábado, antes da decolagem do avião presidencial.
Se é que a conta do jantar foi dividida entre os comensais, ainda assim terá sido  bancada pelos brasileiros que pagam impostos. Ministros em viagem pela Europa embolsam diárias de 460 dólares, ou mais de mil reais. É dinheiro de sobra para regabofes em restaurantes estrelados. Para pernoites em hotéis refinados existe o cartão corporativo.
Presidentes da República usam cartões corporativos, mas não recebem diárias. Em contrapartida, dispõem de um “ordenador de despesas” que cuida do pagamento de gastos que são tratados como segredo de Estado. “Por motivos de segurança”, sussurram integrantes do pior primeiro escalão da história.
Como se a pátria ficasse em perigo caso fosse descoberto o preço do prato típico português que Dilma saboreou no Eleven. “Eu lhe servi cavala”, contou o chef Joachim. Parece brincadeira. Mas cavala também é nome de peixe

O sol na cabeça - FERNANDO GABEIRA


sexta-feira, janeiro 31, 2014

O sol na cabeça - FERNANDO GABEIRA

O Estado de S.Paulo - 31/01

Nestes tempos de muito calor, tempestades e milhares de raios, uma carioca da Gávea teve muita sorte porque lhe caiu na cabeça apenas um porco-espinho. A frase de Milton em O Paraíso Perdido tem valor universal, mas parece ter sido escrita para o Brasil deste verão tenso, pré-Copa do Mundo e eleições: a mente humana pode fazer do céu um inferno e do inferno um céu.

Comentando uma conferência budista, Alan Lighting escreveu: "Como cientista, acredito firmemente que os átomos e moléculas são reais e existem independentemente de nossas cabeças". Lighting observa, entretanto, que, enrascados na teia de 1,5 kg de neurônios, temos dificuldade de determinar o que é real. Constantemente, no esforço de representar o mundo, ignoramos dados essenciais ou inventamos algo que não está diante de nós.

Como todo mundo parece esperar alguma coisa em 2014, os rolezinhos foram recebidos com excitação e uma tonelada de interpretações. Racismo, luta de classes, desejo de entrar nos templos do consumo, cada um atirou para o lado, deixando de fora uma realidade que os americanos descrevem de forma direta e simples: boy meets girl. Como foi possível ignorar essa força elementar e fixar nos grandes traços políticos e sociológicos?

Em 2010, no Rio, houve de fato um rolezinho em que moradores de uma favela entraram num shopping e foram retirados por seguranças e forças policiais. Na época a esquerda oficial ignorou o episódio. Sérgio Cabral era o governador, em plena campanha de renovação do mandato, e o PT estava junto - são aliados antigos que até hoje hesitam diante da separação.

A morte de um jovem gay em São Paulo também foi interpretada com excessiva rapidez. Os militantes apostaram num assassinato homofóbico antes de concluídas as apurações.

Estamos entrando no período eleitoral. Os debates assumem tom apaixonado, a verdade naufraga como numa guerra.

No livro Mishima ou a Visão do Vazio, Marguerite Yourcenar faz uma observação sobre autores que estabelecem uma ligação da obra e vida de Mishima usando cabos, sem perceber que as conexões, nesse caso, são finos capilares. O pensamento militante costuma ter essa tendência: ligar com cabos uma realidade que emerge apenas através de delicados capilares.

O resultado disso é um debate enlouquecido, em que a raiva predomina. Recentemente disse pelo rádio que havia uma cela vermelha, com o n.º 13, na Papuda e que poderia abrigar os dirigentes do PT. Foi tomado como um insulto. Não tive outra saída senão mostrar a imagem da cela vermelha com o n.º 13. Aí o debate se deslocou para discutir se a cor era mesmo vermelha ou vinho. Limitei-me a lembrar que em outros idiomas o vinho tinto é chamado de vinho vermelho.

Imagens, que também são discutíveis, ajudam a criar um mínimo de consenso sobre o real. Dilma, em Davos, disse que o Brasil está preparado para a Copa. No mesmo dia passageiros da Gol forçaram a porta de emergência e protestaram em cima das asas do avião. Isso não quer dizer que Dilma estivesse mentindo em Davos. Mas a imagem nos conduz a uma reflexão sobre o nível de preparo do Brasil, alguns meses antes do evento.

No Rio, o vice-governador Pezão afirmou que o sistema de trens estava ganhando cada vez mais credibilidade. As imagens diziam o contrário: passageiros caminhando pelos trilhos, sufocados pelo calor, lamentando a degradação dos serviços.

Outro dia, tuiteiros do PT afirmaram que os presos de Pedrinhas não me deixaram entrar no presídio porque eu seria uma ave de mau agouro, sempre atrás de tragédias. Quem conhece crises penitenciárias sabe que a entrada ou não de alguém num presídio depende das autoridades, não dos presos. Os tuiteiros do PT viraram samurais eletrônicos da família Sarney. Que destino, bro!

Os debates, que se davam em baixo nível, devem cair mais na Copa e nas eleições. Toda a efervescência artificial do momento já revela o medo do desconhecido, dos desdobramentos incontroláveis que podem surgir da revolta popular. É preciso saber antes, interpretar antes, emplacar logo uma versão que resolva o único problema com que realmente vale a pena se preocupar: como continuar no poder. Se dependesse de mim, veria as coisas com calma e até um certo distanciamento. As emoções virão, não é preciso vivê-las antecipadamente.

Alguns problemas reais, como a crise argentina, estão passando ao largo. E podem ter repercussão aqui. O mesmo vale, em menor escala, para a crise na Venezuela. O fracasso de duas economias de peso na América Latina merece estar, creio eu, na ordem do dia. Lembro que, apesar de tudo, a Argentina vai crescer 2,8%, talvez um pouco mais que o próprio Brasil. O índice de crescimento não é tudo. O FMI olha com apreensão para a Argentina e é inevitável que as dificuldades hermanas tenham repercussão no nosso país.

É preciso ainda achar um espaço nessa batalha polifônica em torno do funk ostentação, de biografias de cantores, e discutir um rumo para um país que, a meu ver, já o perdeu com o esgotamento do modelo de puro estímulo ao consumo e coalizão presidencial fisiológica.

Um ocupante da casa do Big Brother fez pipi na piscina e se defendeu: "Quem não faz pipi na piscina?". Todos os que não fazem deveriam levar isso em conta. Há muitos fios soltos por aí, tão importantes para conhecer o País como o fenômeno dos rolezinhos, que na imaginação desvairada é o prenúncio do grande arrastão que descerá dos morros e da periferia.

Há 50 anos os militares tomavam o poder. Muitos dos sobreviventes já estão naquela idade em que chaves e óculos desaparecem com frequência, numa aparente conspiração para nos enganar. Discordo da afirmação budista de que o mundo é um produto da mente. Reconheço nele uma existência autônoma. Mas concordo com a tese de que tudo passa, tudo passará.

Eu me divirto com o reflexo dessa realidade essencial no desespero dos que querem o poder para sempre. Adoro vê-los rangendo bytes e pixels nos blogs envenenados. E a vida vindo em ondas, como o mar.

Aduladores do caos - REINALDO AZEVEDO

Aduladores do caos - REINALDO AZEVEDO

FOLHA DE SP - 31/01

O Brasil não é o Egito. A nossa democracia não vive sob tutela, a não ser a desses milicianos do futuro


Para o submarxismo vigente naqueles ambientes que o poeta Bruno Tolentino (1940-2007) chamava "Complexo Pucusp" --onde a imprensa colhe seus "especialistas"--, o futuro já aconteceu faz tempo. O que virá será só a materialização do que já estava inscrito na natureza humana. E essa natureza, consta, é libertar-se da opressão. Assim, toda ação, todo acontecimento, todo evento só encontram sentido na medida em que podem ou não ser úteis a esse propósito. A história deixa de ser "a contínua marcha do desejo", na expressão de Thomas Hobbes, para ser uma sequência de capítulos de fim conhecido, que nos conduzirá ao encontro com a verdade. Parece complicado? Eu me esforcei. Das nuvens para os ônibus.

Desde 1º de janeiro, 33 ônibus municipais e outros tantos intermunicipais já foram incendiados na periferia de São Paulo e adjacências. Em dois ou três casos, alega-se uma reação à suspeita de que a PM teria matado um rapaz da "comunidade". E os demais? Ah, esses ficariam por conta do "malaise" social que levaria adolescentes da periferia a fazer "rolezinhos", "black blocs" a quebrar tudo, funkeiros a tentar explodir posto de gasolina... Teria sido acionado o gatilho do DNA libertador das massas.

Analistas muito severos trovejam: "Eu bem que avisei". Outros iluminam suas esperanças com as chamas dos ônibus. Estão com o povo, contra os reacionários! A antropologia da reparação ameaça: "Chegou a hora de entregar os dedos; os oprimidos não se contentam mais com os anéis do reformismo tucano-petista!".

O espírito do tempo tem peso determinante na história. São os poderes instituídos e as matrizes influentes de valores --onde estão a imprensa e a indústria cultural-- que definem a recompensa e a punição aos comportamentos desejáveis ou indesejáveis. Se essas instâncias flertam com a desordem, esta passa a ser encarada como um instrumento eficaz de luta. Se a violência é recompensada com o reconhecimento da legitimidade da "causa", já se tem erigida uma moral. Aí a vaca vai para o brejo.

Defende-se hoje, a céu aberto, que PMs enfrentem desarmados os fascistoides que vão para as ruas portando coquetéis molotov --e assim é desde a primeira manifestação em São Paulo, no dia 6 de junho do ano passado. Tenta-se linchar um policial que cometeu a ousadia da legítima defesa. A repressão ao tráfico de drogas vira agressão aos direitos humanos. O desvio assume, enfim, o papel de contenção que cabe à norma.

Insiste-se na farsa ridícula da luta da "sociedade contra o Estado", e policiais "negros e morenos" (como diria Gilberto Carvalho), saídos daquela mesma periferia que seria a portadora do futuro, são tratados como o braço armado da velha ordem a retardar a aurora. O Brasil não é o Egito. A nossa democracia, por enquanto ao menos, não vive sob tutela, a não ser a desses milicianos do futuro. É bem verdade que o PT se esforça para tomar o lugar da sociedade e tenta estatizar até os "manos" e as "minas" dos "rolezinhos". Mas ainda não logrou o seu intento.

Não pensem que este rottweiler do reacionarismo acredita numa moral intrínseca da história, oposta à dos submarxistas, que nos conduziria para o bem. A história, em si, é amoral e se move por relações de força. Ocorre que, por esse caminho, democracia, fascismo ou comunismo seriam resultados plausíveis até que não se chegasse àquele momento do encontro do homem com o seu começo. Besteira!

A história não é moral, mas nós somos seres morais. Falaremos em nome de quais valores? A democracia é um regime legitimado pela maioria, mas sustentado, nos seus fundamentos --muito especialmente a proteção às minorias--, por elites de pensamento capazes de fazer escolhas que transcendem seus próprios interesses. É nesse lugar que está a imprensa. Não, meus caros! Os pobres não herdarão o Reino da Terra. Quais serão, então, as nossas escolhas?

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Tim Vickery: Como o Brasil não se preparou para a Copa em 11 anos

Tim Vickery: Como o Brasil não se preparou para a Copa em 11 anos

Atualizado em  30 de janeiro, 2014 - 15:08 (Brasília) 17:08 GMT
Operários ainda instalavam os assentos na arquibancada da Arena da Baixada, em Curitiba, no dia 21 de janeiro (AP)
Operários ainda instalavam os assentos na arquibancada da Arena da Baixada, em Curitiba, no dia 21 de janeiro
"Estádios são coisas relativamente simples de se construir", disse a presidente Dilma Rousseff em visita à Suíça na semana passada. Isso de fato nos leva a uma pergunta óbvia: então por que tantos estádios para a Copa do Mundo estão tão atrasados?
A alta procura por ingressos e pacotes de hospitalidade ajudam a explicar a falta de paciência da Fifa com os prazos assumidos e não cumpridos – e não importa o que se pense sobre o relacionamento entre a Fifa e o governo brasileiro, a Copa do Mundo foi um negócio em que o Brasil entrou (e que o Brasil aceitou) voluntariamente.
Mas uma hora as máscaras caem, como quando o presidente da Fifa, Joseph Blatter, comentou recentemente que, em todos os anos que esteve no comando da entidade, nunca viu uma Copa do Mundo com tantos atrasos. Ele ainda acrescentou que o Brasil foi definido como país-sede da Copa de 2014 em 2007 e, portanto, acabou se beneficiando de um ano extra para se preparar – sete, em vez dos tradicionais seis.
E aqui ele não está sendo generoso. Porque a realidade é que o Brasil não teve sete anos para se preparar. Teve 11.
Um pouco de história: Blatter tentou levar a Copa do Mundo de 2006 para a África do Sul, mas ele perdeu uma votação controversa no Comitê Executivo da Fifa. Por razões políticas, ele não poderia fracassar de novo quatro anos depois. Por isso, junto com Danny Jordaan (presidente da Confederação Sul-Africana de Futebol), ele sugeriu a ideia de revezar o torneio entre os cinco continentes. Em 2010, ele conseguiu decretar: seria a vez da África. Problema resolvido.
E para onde a Copa do Mundo iria depois? A América do Sul, que não recebia o Mundial desde 1978, era o candidato óvio. Então, em março de 2003, Joseph Blatter anunciou que em 2014 seria a vez do subcontinente. O torneio havia dobrado de tamanho desde a Copa da Argentina, em 1978. Quantos países no continente seriam capazes de sediar um Mundial com os 32 times que jogam atualmente? Na realidade, havia apenas um - e assim, alguns dias após o anúncio de Blatter, a Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) declarou que o Brasil era o seu único candidato.
"Nenhum outro país estava na briga com o Brasil. A disciplina da competição, então, acabou não existindo e abriu espaço para alguns velhos vícios brasileiros; muita politicagem nos bastidores, muita esperteza e pouco progresso. De fato, a consequência da experiência brasileira foi o fim da ideia de revezamento de continentes para sediar a Copa do Mundo."
(É verdade que a Colômbia rapidamente rompeu com a Confederação e até lançou uma candidatura separada, mas nunca chegou a alimentar sérias esperanças. Ela estava apenas se protegendo contra a vizinha e rival Venezuela, que estava investindo pesado em estádios à época para sediar a Copa América de 2007. O real objetivo da Colômbia – que foi alcançado – era superar a Venezuela na disputa para sediar o Mundial Sub-20 de 2011).
Mas não dá para escapar da verdade: o Brasil sabia que iria sediar a Copa do Mundo de 2014 desde março de 2003. Não havia nenhuma tensão dramática quando, quatro anos e meio depois, a palavra "Brazil" saiu do envelope. Isso simplesmente confirmou o que todos já sabiam. Então por que outubro de 2007 foi tratado, não apenas pela mídia brasileira, como o ponto de partida?
Se tivesse havido uma disputa competitiva pela Copa de 2014, os países candidatos teriam que apresentar propostas. Uma das primeiras coisas que eles teriam quem fazer seria identificar as cidades-sede. Seria um princípio básico, necessário apenas para entrar na briga.
Mas nenhum outro país estava na briga com o Brasil. A disciplina da competição, então, acabou não existindo e abriu espaço para alguns velhos vícios brasileiros; muita politicagem nos bastidores, muita esperteza e pouco progresso. De fato, a consequência da experiência brasileira foi o fim da ideia de revezamento de continentes para sediar a Copa do Mundo.
Nenhuma decisão definitiva sobre as cidades-sede foi tomada até o fim de maio de 2009. Anos foram jogados fora. E uma vez que você fica atrás do relógio, os princípios básicos começam a valer; o custo do que você pode fazer aumenta. A escala do que você pode fazer diminui. E muitos estádios estão atrasados, com o orçamento estourado, enquanto inúmeros projetos de mobilidade urbana, a principal área que iria beneficiar realmente a sociedade, ainda não saíram do papel ou sequer têm chances de ficarem prontas a tempo.
Os estádios são bastante impressionantes. Ainda em 2007, o medo era que eles se tornassem Engenhões, versões maiores do estádio construído no Rio de Janeiro para os Jogos Pan-Americanos de 2007 que custou caro e nasceu obsoleto. Em vez disso, deixando de lado por um minuto a questão dos preços dos ingressos, os estádios são grandiosamente modernos. Eu não voltei lá depois da Copa das Confederações, mas achei a Fonte Nova, em Salvador, um lugar maravilhoso para se apreciar o futebol.
Protesto contra a realização da Copa foi retomado no dia 25 de janeiro (AP)
Os protestos contra a realização da Copa foram retomados no dia 25 de janeiro
Em termos políticos, porém, o fato de os estádios serem impressionantes cria um problema. Isso ficou implícito – e em muitas vezes explícito – na mensagem dos protestos que estouraram em junho e julho do ano passado; se os estados brasileiros foram capazes de construir essas arenas, então por que seriam incapazes de entregar os serviços públicos no chamado "padrão Fifa"?
O pentacampeão em 2002, Rivaldo, disse outro dia que "o Brasil vai passar vergonha na Copa". Não vejo exatamente assim, embora imagino que haverá problemas e que já ficou claro que o evento não vai cumprir seu potencial para a sociedade brasileira.
Mas a "vergonha" é de quem? Do frentista ou da recepcionista que moram na periferia de uma grande cidade, acordando às 4 da manhã todo dia para chegar ao trabalho? Por que eles deveriam se sentir envergonhados? Eles não tiveram qualquer participação no processo. Não houve nenhum debate público no Brasil sobre os objetivos da Copa do Mundo, sobre quanto a sociedade estava disposta a gastar e o que queria em troca. Por anos, não havia sequer um lugar no Comitê Organizador Local para representantes eleitores pela sociedade (o que, por sinal, é um contraste gritante com a Copa da África do Sul, onde havia um envolvimento generalizado no governo). As pessoas não são porta-vozes das suas nações ou responsáveis por ações da classe dominante.
Infelizmente, todos os atrasos que afetaram a Copa do Mundo de 2014 eram previsíveis. O que não era nem um pouco previsível foi a reação do povo durante a Copa das Confederações, saindo às ruas em centenas, milhares, desafiando a noção que os brasileiros tinham – tinham, no passado – deles mesmos de ser um povo tão passivo a ponto de ser idiota.
O país estava mudando bem em frente aos nossos olhos. O Brasil que existia até maio de 2013 se foi para sempre. Ainda não está claro aonde isso vai nos levar em julho de 2014. Mas aqueles envolvidos na luta positiva para formar uma nova nação não estão passando vergonha. Estão passando para o mundo a visão de um Brasil alternativo, um Brasil mais justo e mais competente.

Excessos sigilosos - DORA KRAMER

quinta-feira, janeiro 30, 2014

Excessos sigilosos - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 30/01

Dizer que Dilma Rousseff não entendeu direito a essência da reação crítica à sua escala técnica de 15 horas em Lisboa para abastecer o avião que a levava da Suíça a Cuba seria menosprezar a capacidade da presidente (e de seus conselheiros) de tergiversar.

Como qualquer ser humano dotado de um mínimo de habilidade cognitiva, ela compreendeu perfeitamente do que se trata. Mas, convenientemente, preferiu dissertar de maneira professoral sobre a divisão da despesa entre os participantes do jantar no restaurante Eleven, na capital portuguesa.

"Eu escolho o restaurante que for porque eu pago a minha conta", iniciou ao seu peculiar modo autossuficiente, para continuar austera - "não há a menor condição de eu usar o cartão corporativo e misturar o que é consumo privado e público" - e encerrar em figurino exemplar: "No meu aniversário (em Moscou) eu também paguei. Tem gente que acha esquisito uma presidente dividir a conta. Acho isso extremamente democrático e republicano".

E por aí foi detalhando suas exigências na partilha dos gastos com almoços e jantares; falou sobre a autonomia de voo da aeronave presidencial (um problema também enfrentado pelos governos do México e da Argentina, ficamos sabendo) e das escalas cogitadas até a opção por Portugal.

Como se as questões em tela fossem essas. Pagar a conta do restaurante em compromissos privados pode até não ser um hábito entre autoridades brasileiras, mas trata-se de uma obrigação. E, no caso, de um instrumento de rodeio.

As despesas de hospedagem em dois hotéis de luxo - suíte presidencial a R$ 26 mil - e transporte da comitiva ficaram fora da dissertação presidencial. Assim como ficaram e ficarão longe da vista e dos ouvidos dos cidadãos por que, por determinação da zelosa presidente, os gastos com viagens presidenciais passaram a ser incluídos entre as informações a serem mantidas em sigilo.

E é desse segredo que se cuida. A ele também se dá o nome de ausência de transparência, que fere o artigo 37 da Constituição onde estão previstos os pressupostos a serem obedecidos pelos ocupantes de cargos na administração pública.

O argumento da Presidência ao baixar a norma foi a genérica alegação de razões de segurança. É de se perguntar no que a segurança presidencial estaria ameaçada se o público soubesse o quanto está pagando pelas despesas das comitivas oficiais mundo afora.

Mas a presidente não reivindica apenas o direito de gastar sem dar satisfação. Quer, nessas viagens, aproveitar as escalas técnicas para passear e ter alguns momentos de lazer como "cidadã comum", longe dos olhos da imprensa. Vale dizer, do País.

Por esse método, desde 2012 fez seis paradas que só apareceram depois na agenda oficial. Desta vez, soube-se que estava em Lisboa porque o Estado descobriu. A Presidência justificou que a decisão havia sido tomada de última hora, no sábado, e o governo português desmentiu; fora avisado na quinta-feira.

Não há outro jeito de dizer: o governo brasileiro mentiu. E a presidente da República, cobrada, fez-se de desentendida. Não há razão para isso.

Se a chefe do governo quer momentos de folga em suas viagens internacionais, deveria dizer isso com clareza, sem usar o subterfúgio da parada técnica porque o reabastecimento do avião é algo a ser resolvido com alguma rapidez.

Não é preciso desembarcar a comitiva, transportá-la, hospedá-la, proporcionar-lhe lazer e levá-la de novo ao cumprimento da próxima etapa de trabalho. O fato de nesse meio tempo cada um pagar a sua parte na conta do restaurante, francamente, é o de menos.

O ‘rapa’ e o Uai - CARLOS ALBERTO SARDENBERG


quinta-feira, janeiro 30, 2014

O ‘rapa’ e o Uai - CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O GLOBO - 30/01

Governo não gera riqueza. Quem gera riqueza é o setor privado, o empreendedor com seu ‘espírito animal’



A cena me foi descrita por uma ouvinte da CBN, quando eu estava no ar na última terça-feira: em São Paulo, na movimentada Avenida Rebouças, num calor de rachar, dois PMs saem de uma “viatura” e confiscam os copinhos de água que um homem vendia aos sedentos motoristas parados no semáforo.

Comércio ilegal reprimido, diz a autoridade. O “rapa”, dizem os ambulantes.

A ouvinte mandou a história como ilustração, pelo avesso, da entrevista que eu fizera naquela mesma terça com o mineiro Elias Tergilene, fundador dos shoppings populares Uai — três unidades em Belo Horizonte e uma em Manaus — e que está tratando da instalação de novas unidades no Rio (Morro do Alemão) e em São Paulo. Seu objetivo, ele conta, é abrir espaço formal para empreendedores populares.

Quem são eles? Os moradores das periferias e favelas que querem, precisam ou já tocam um negócio informal. Associado ao Sebrae e à Fundação Dom Cabral, Tergilene treina e forma essas pessoas para colocá-las na legalidade.

Mas reparem a explicação dele: “Preciso ensinar essas pessoas a ganhar dinheiro para pagar a formalização, para pagar os impostos... Essas pessoas fazem riqueza para o país, não podem ser tratadas como bandidos.”

Sim, a questão não é simples. Imagine que você tem uma loja formal, paga ao contador, ao advogado e os impostos, e um sujeito coloca uma banquinha bem na frente para vender coisa parecida. Concorrência injusta, claro. Não pode.

Ou você vende sanduíches, tendo que pagar também a taxa da vigilância sanitária e dos bombeiros, e um cara começa a assar churrasquinhos bem ao lado. Aí, além de concorrência injusta, há um problema de saúde pública.

Tudo bem, mas por que uma pessoa vai vender copinhos de água em congestionamentos, sob um sol de 35 graus? Porque não encontra serviço que pague mais. Ou porque faz um bico depois do trabalho regular.

Ou porque tem talento, como a dona de casa que começa a vender empadinhas ou biquínis, ou abre um salão nos fundos. Ou como um funcionário de escritório que perde o emprego, recebe a indenização e resolve tentar um negócio de consertos domésticos. Ou como uma moça, boa de internet, que compra dois computadores e instala uma lan house na sala de sua casa.

Situações diferentes exigem respostas diferentes. Nem sempre é o caso de chamar o “rapa” — que aparece na forma de polícia ou fiscal, não raro cobrando pedágio.

E sempre, mas sempre mesmo, será o caso de chamar pessoas como Elias Tergilene. E sempre será o caso de tentar, pela via do setor público, os caminhos que ele toma pela via da iniciativa privada.

Tergilene sabe do que fala. Com a experiência de quem foi camelô e ambulante — começou vendendo de estrume a madeira — ele vai direto ao ponto: tem muito talento por aí, muita gente séria querendo ganhar dinheiro honestamente. Hoje, por exemplo, tem fábrica de móveis e mineração, além do Uai.

Olhando as histórias, pode-se dizer: se o governo não atrapalhar, já está mais que bom. Mas, claro, será bem melhor se o governo e todo o sistema formal puderem apoiar certas iniciativas.

Os shoppings Uai dão dinheiro ao seu fundador. Os lojistas pagam apenas uma taxa de ocupação, nada sobre o faturamento. No ano passado, as quatro unidades faturaram R$ 36 milhões e todo o negócio até aqui foi tocado com capital próprio.

Tergilene diz que seus shoppings misturam atividade econômica e social. Têm o objetivo de desenvolver a economia e o comércio locais, gerando negócios e empregos ali mesmo onde é instalada a unidade. Gasta-se dinheiro para treinar e formar as pessoas.

Mas não consegue financiamento, nem nos programas especiais do BNDES e da Caixa. “Se for enquadrado como shopping, os juros são muito elevados; se não é shopping, é o quê?”, diz ele. Já se fosse um porto em Cuba...

Para as unidades no Rio e em São Paulo, Tergilene está tentando financiamentos públicos e privados, além de parcerias com prefeituras e comunidades locais.

Não deveria ser um caso especial. Governo não gera riqueza. Quem gera riqueza é o setor privado, o empreendedor com seu “espírito animal”. Logo, deve ser a lógica do sistema: pessoas que tenham a iniciativa de produzir e vender coxinhas ou programas de computador precisam ter os caminhos abertos.

Faz um ano da tragédia da boate Kiss, em Santa Maria. Não foi por fatalidade que morreram 242 pessoas. Não é por fatalidade que ninguém tenha sido condenado até agora. O local apresentava várias irregularidades. Está alguma coisa muito errada quando o poder público deixa passar uma situação como essa e “rapa” os copinhos de água de um ambulante.

ABAIXO AS MORDOMIAS - RAFAEL BRASIL






ABAIXO AS MORDOMIAS

É escandalosa as mordomias do serviço público em todos os poderes da república. Nos Estados Unidos, só o presidente do supremo tribunal federal, tem direito a carro oficial. Na Alemanha, uma professora de alfabetização de crianças ganha o equivalente aos professores universitários, e um juiz ganha cerca de cinco mil euros. Assim me disse um amigo, meu agente secreto de informações que passou um ano na Alemanha. Na Suécia, os deputados moram em alojamentos e dividem comunitariamente a cozinha. O servidor deve dar o exemplo. Claro, tem corrupção, mas se pegos estão fritos. Cadeia e desmoralização pública. E o povo não vota mais, se candidatos. Por essas bandas, ainda existe vergonha na cara. República quer dizer coisa pública, e pronto. Todos devem dar o exemplo.

Por essas e outras, o país está um verdadeiro barril de pólvora. Como é que um bicho corrupto e feio como Renan Calheiros, reincidente na safadeza e corrupção, pega um avião do governo para ir para batizados e implantar fios de cabelo? Um ladrão como Delúbio Soares passar décadas recebendo salário como professor do estado de Goiás, e na época do auge da corrupção dizia não andar mais de avião turbo hélice. Só de jatinho...

Por essas e outras, os políticos são odiados pela população. Um verdadeiro perigo para a democracia, que não funciona sem política nem instituições democráticas e republicanas sólidas. Ademais, ditadura também é política, só que de uma facção. Totalitarismo é a politica do terror, do estado, ou do partido dominante “salvador da pátria”, da humanidade ou coisas do gênero.

Dentre muitas outras reformas, a política é fundamental. Tem que diminuir drasticamente a marquetagem política, sobretudo na televisão. Todos os candidatos deviam falar em um só cenário do TRE, com falas sem cortes. Se desse um pigarro, ou se engasgasse, saía na televisão. O voto deveria ser facultativo, e distrital misto, entre muitas outras coisas.



Enfim, o povo tem que se mobilizar, e pressionar. Mas sobretudo aprender a votar. Toda essa corja política foi eleita pelo povo, que também é corrupto. Por que não dizer isso? Muitos aceitam a corrupção como um fato natural, como a chuva e o vento. E que querem também tirar uma lasquinha. Enfim, o povo não se importa se o PT é corrupto, desde que tire sua bolsa família, muitas vezes de forma irregular. Os corruptos de todas as matrizes, claro pensam assim. Só que não se apropriam de merrecas. Roubam, ninguém neste mundo de deus sabe a conta. É o Brasil. E assim caminhamos para o obscurantismo de sempre.

Prisões brasileiras são 'um inferno', diz Barbosa em Londres

Prisões brasileiras são 'um inferno', diz Barbosa em Londres

Atualizado em  29 de janeiro, 2014 - 22:03 (Brasília) 00:03 GMT
Presidente do STF, Joaquim Barbosa, dá palestra em Londres | Crédito: BBC Brasil
Para Barbosa, precariedade do sistema prisional brasileiro é fruto de falta de vontade política
Diante de uma plateia de mais de 250 pessoas na Universidade King's College, em Londres, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, classificou as prisões brasileiras como "um inferno" e creditou a precariedade do sistema prisional à falta de vontade política de governantes locais.
"As prisões (no Brasil) são como o inferno. Os políticos não se importam, pois (delas) não há retorno político: votos", afirmou ele durante uma palestra promovida pelo King's Brazil Institute, departamento de estudos brasileiros da universidade britânica.
"Horror é a palavra mais adequada para definir o sistema prisional brasileiro. O governo federal tem um papel pequeno nas prisões. Elas são, em sua maioria, controladas pelos governos estaduais, que só buscam dividendos políticos", acrescentou Barbosa, que não mencionou nomes de governantes.
Para exemplificar o que chamou de "natureza explosiva das prisões brasileiras controladas por organizações criminosas", o presidente do STF citou o caso da Central de Custódia de Presos de Justiça (CCPJ) de Pedrinhas, em São Luís, no Maranhão, onde mais de 60 presos morreram em 2013.
Considerado o complexo penitenciário mais violento do Brasil, Pedrinhas sofre com superlotação das celas e infraestrutura precária. Vídeos recentes mostrando presos sendo decapitados durante uma violenta rebelião ocorrida no interior do presídio ganhou as manchetes da imprensa brasileira e contribuiu para afundou o governo maranhense em uma crise sem precedentes.
Em dezembro do ano passado, pouco antes de entrar de férias, Barbosa recebeu um relatório de um juiz do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), órgão que também preside, sobre a situação da penitenciária.
"Vi algumas fotos do que aconteceu lá (em Pedrinhas) e fiquei horrizado. Mas não pensem que isso só acontece no Maranhão. São locais onde há a absoluta ausência de poder do Estado", afirmou ele.

Preconceito

Convidado para falar sobre o funcionamento do STF, Barbosa deixou de lado o protocolo e abordou temas variados durante seu discurso, desde a lentidão do Judiciário ao crescimento de políticos ligados a Igrejas evangélicas.
Suas declarações mais fortes foram feitas quando o ministro encerrou sua exposição sobre a Corte e decidiu responder a perguntas da plateia.
Sobre racismo, Barbosa afirmou que o Brasil "precisa fazer algo para incluir os negros na sociedade".
"O Brasil nunca enfrentou de frente o preconceito contra negros. As cotas não são o bastante. Se o país quer ser respeitado como um grande player no cenário mundial, é preciso fazer algo para inserir essas pessoas", afirmou ele.
"E isso se dá através da educação, que é, no meu ver, o principal problema do Brasil", acrescentou.
Segundo Barbosa, ainda que "respondam por mais da metade da população brasileira", os negros ainda têm "pequena" nas camadas mais altas da sociedade.
"A televisão brasileira, por exemplo, é dinarmarquesa", criticou Barbosa, provocando risos no auditório.

Corrupção e fundamentalismo

O presidente do STF também mencionou casos de corrupção no Judiciário e ressaltou o papel do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) como órgão punitivo.
"Muitos juízes brasileiros são honestos, mas nem todos. Há alguns poucos que não são. Nesse sentido, o CNJ tem tido um papel importante."
Ao ser questionado se acredita que o Brasil está dando "um passo para trás" ao misturar "religião e política", Barbosa afirmou que não encara o crescimento no número de políticos com filiações religiosas como "uma ameaça" para o país.
"Trata-se, no entanto, de uma clara distorção no sistema político. O Brasil é um Estado laico e assuntos de Estado não deveriam se envolver com religião. Algo precisa ser feito", afirmou o presidente do STF, sem mencionar o quê.
Barbosa reiterou mais uma vez que não tem intenção de concorrer à presidência.
"Nunca fui político, nunca fui filiado a nenhum partido e não vou ser candidato à presidência", disse.
Ao fim da palestra, o presidente do STF foi ovacionado pelo público. Rodeado por estudantes, ele teve dificuldade de deixar o auditório dada à quantidade de pedidos de foto.
Londres foi a última etapa de um ciclo de seminários e encontros que Barbosa realizou na Europa. Antes de chegar ao Reino Unido, o magistrado esteve na França, onde encontrou autoridades e também deu palestras.
O ministro estava inicialmente de férias, mas decidiu renunciar ao descanso para participar dos eventos. A decisão de Barbosa gerou polêmica após o jornal O Estado de São Paulo noticiar que ele ganhou 11 diárias de trabalho, no valor total de R$ 14 mil.