domingo, 13 de outubro de 2013

PROFESSORES, NÃO DEIXEM DE LER: LYA LUFT: 'EDUCAÇÃO REPROVADA'


‘Educação: reprovada’, um artigo de Lya Luft

TEXTO PUBLICADO NA REVISTA VEJA DESTA SEMANA
Lya Luft
Há quem diga que sou otimista demais. Há quem diga que sou pessimista. Talvez eu tente apenas ser uma pessoa observadora habitante deste planeta, deste país. Uma colunista com temas repetidos, ah, sim, os que me impactam mais, os que me preocupam mais, às vezes os que me encantam particularmente. Uma das grandes preocupações de qualquer ser pensante por aqui é a educação. Fala-se muito, grita-se muito, escreve-se, haja teorias e reclamações. Ação? Muito pouca, que eu perceba. Os males foram-se acumulando de tal jeito que é difícil reorganizar o caos.
Há coisa de trinta anos, eu ainda professora universitária, recebíamos as primeiras levas de alunos saídos de escolas enfraquecidas pelas providências negativas: tiraram um ano de estudo da meninada, tiraram latim, tiraram francês, foram tirando a seriedade, o trabalho: era a moda do “aprender brincando”. Nada de esforço, punição nem pensar, portanto recompensas perderam o sentido. Contaram-me recentemente que em muitas escolas não se deve mais falar em “reprovação, reprovado”, pois isso pode traumatizar o aluno, marcá-lo desfavoravelmente. Então, por que estudar, por que lutar, por que tentar?
De todos os modos facilitamos a vida dos estudantes, deixando-os cada vez mais despreparados para a vida e o mercado de trabalho. Empresas reclamam da dificuldade de encontrar mão de obra qualificada, médicos e advogados quase não sabem escrever, alunos de universidades têm problemas para articular o pensamento, para argumentar, para escrever o que pensam. São, de certa forma, analfabetos. Aliás, o analfabetismo devasta este país. Não é alfabetizado quem sabe assinar o nome, mas quem o sabe assinar embaixo de um texto que leu e entendeu. Portanto, a porcentagem de alfabetizados é incrivelmente baixa.
Agora sai na imprensa um relatório alarmante. Metade das crianças brasileiras na terceira série do elementar não sabe ler nem escrever. Não entende para o que serve a pontuação num texto. Não sabe ler horas e minutos num relógio, não sabe que centímetro é uma medida de comprimento. Quase a metade dos mais adiantados escreve mal, lê mal, quase 60% têm dificuldades graves com números. Grande contingente de jovens chega às universidades sem saber redigir um texto simples, pois não sabem pensar, muito menos expressar-se por escrito. Parafraseando um especialista, estamos produzindo estudantes analfabetos.
Naturalmente, a boa ou razoável escolarização é muito maior em escolas particulares: professores menos mal pagos, instalações melhores, algum livro na biblioteca, crianças mais bem alimentadas e saudáveis – pois o estado não cumpre o seu papel de garantir a todo cidadão (especialmente a criança) a necessária condição de saúde, moradia e alimentação.
Faxinar a miséria, louvável desejo da nossa presidenta, é essencial para nossa dignidade. Faxinar a ignorância – que é uma outra forma de miséria – exigiria que nos orçamentos da União e dos estados a educação, como a saúde, tivesse uma posição privilegiada. Não há dinheiro, dizem. Mas políticos aumentam seus salários de maneira vergonhosa, a coisa pública gasta nem se sabe direito onde, enquanto preparamos gerações de ignorantes, criados sem limites, nada lhes é exigido, devem aprender brincando. Não lhes impuseram a mais elementar disciplina, como se não soubéssemos que escola, família, a vida sobretudo, se constroem em parte de erro e acerto, e esforço. Mas, se não podemos reprovar os alunos, se não temos mesas e cadeiras confortáveis e teto sólido sobre nossa cabeça nas salas de aula, como exigir aplicação, esforço, disciplina e limites, para o natural crescimento de cada um?
Cansei de falas grandiloquentes sobre educação, enquanto não se faz quase nada. Falar já gastou, já cansou, já desiludiu, já perdeu a graça. Precisamos de atos e fatos, orçamentos em que educação e saúde (para poder ir a escola, prestar atenção, estudar, render e crescer) tenham um peso considerável: fora isso, não haverá solução. A educação brasileira continuará, como agora, escandalosamente reprovada.

10 comentários:

  1. Tenho saudade do tempo em que tomar "pau" era vergonhoso e ainda tínhamos que prestar contas em casa, onde professora era respeitada, por medo ou respeito, não interessa, tinha seu valor reconhecido, onde fazer dever de casa e prestar atenção nas aulas sem abrir a boca era o que tinha que ser feito. Valorizava cada minuto da minha vida estudantil porque eu sabia que custava muito caro para os meus pais que não tiveram a oportunidade que eu tive. Hoje a “molecada” tem livros, transporte, merenda escolar tudo gratuito e não dão valor algum. O sistema facilita é bem verdade. Que pena!!! Traumas? Balela. Fui educada para respeitar as pessoas, falar baixo, não mentir, valorizar o que tinha, e quando tinha, não podia reclamar do que não tinha e ainda assim não fiquei com traumas. Agradeço aos meus professores que foram rígidos comigo, que verdadeiramente sabiam que eu capaz de fazer melhor cada vez mais. Hoje, graças à educação de “antigamente” me tornei uma cidadã com valores. Leio e entendo o que leio, sem demagogia, sou uma pessoa letrada e não “alfabetizada.” Uma pena a educação estar nesse caos. Elementar!!! Interessa a alguém não?????

    PS. Apenas uma professora

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  2. Qual a tese defendida pela autota?

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    1. Ela fala sobre as precárias condições que se encontram as escolas públicas do nosso país. E ainda um fato mais vergonhoso, que nada tem se feito para melhorar esse estado. Grande Lya Luft!

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    2. Está clara a tese dela....depois que lançaram mão da aprovação automática...e exigências brandas...para quê o aluno deve estudar se ao final do ano, certamente o sistema irá aprová-lo? Justamente porque não há uma estrutura adequada e recursos que sustentem esse aluno mais um ano frequentando os bancos escolares...não se exige mais do aluno o que se exigia há tempos atrás.

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  3. Fantástica a declaração de Lya Luft, essa fala com propriedade. Porém existem "especialistas" em educação que nunca entraram em uma escola pública e sequer se colocaram na pele de um professor para sentir o drama. Uma boa parte dos estudantes da área da educação, quando colocam os pés em uma escola para cumprir o estágio obrigatório, desiste no primeiro dia. Saem da escola e falam categoricamente: Não é isso que eu quero pra mim, tô fora! Parabéns Lya Luft, sou seu fã, amo seus artigos.

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  4. Eu colocaria no título, ao invés de "professores, não deixem de ler", uma convocação para que TODOS lessem. Nós, professores, já lidamos com a realidade em que "não pode reprovar para não traumatizar", com falta de recursos mais básicos, com nossa dignidade e autoridade sendo vilipendiada cotidianamente até por detentores de cargos educacionais que deveriam nos apoiar. Estamos pregando no deserto há muito, muito tempo.

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  5. Parabéns,adoro tudo que a Lya Luft escreve.

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  6. Subtenda-Se que um país, por mais necessitado e empobrecido que seja, não deve deixar gerações serem emburrecidas apenas para se tornarem uma massa que sera facilmente manipulada. Lamentável que a educação tenha chegado a este nível. No entanto se o patrono da educação brasileira diz que conhecimento e aprendizagem faz parte de uma educação "bancária" que atende apenas aos interesses capitalistas, e que a escola deve pregar a revolução que professores como Mao, Marx, Guevara pregavam, compreendermos como chegamos na atual condições de penúltimo lugar em educação!

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