terça-feira, 10 de julho de 2012

Réquiem para o século


"O Brasil chega despreparado ao novo milênio por não ter corrigido duas deficiências fundamentais: a carência de poupança interna e o déficit educacional"


Parafraseando Charles Dickens, em Tale of Two Cities, pode-se dizer que o atual século foi o melhor dos séculos e o pior dos séculos. Segundo Hobsbawm, foi também um século curto, tendo começado com a I Guerra Mundial (1914) e a eclosão do comunismo (1917) e terminado com o colapso do império soviético, em 1991. Tão curto que um oitentão como eu pode dizer que viveu menos de um século e viveu mais de um século.


Foi também um século esquisito. Começou com a belle époque liberal até a I Guerra Mundial, em que se conjugaram três movimentos que repontam neste fim de século: uma revolução tecnológica, acompanhada de expansão do espaço democrático e globalização financeira e comercial. Houve depois um longo interregno coletivista, com duas ameaças malignas ao liberalismo - o comunismo e o nazismo - e um desafio benigno, o keynesianismo (este postulava apenas maior intervenção estatal, e não a destruição do liberalismo).


Foi o pior dos séculos, pela maré montante de violência: duas guerras mundiais e duas ideologias assassinas - o comunismo e o nazi-fascismo. O primeiro produziu três grandes carniceiros - Lenin, Stalin e Mao Tsé-tung. O segundo, além de ter provocado a II Guerra Mundial, aperfeiçoou duas sinistras tecnologias: a do holocausto e a dos campos de concentração.


Foi também o melhor dos séculos, pela explosão científica e tecnológica, que nos trouxe coisas milagrosas: a descoberta do segredo do átomo, que inviabiliza guerras mundiais e que, quando substituirmos a fissão pela fusão nuclear, será fonte inesgotável de energia; a descoberta do segredo da vida - a dupla hélice do DNA - , que pode levar à clonagem de animais e à reengenharia do corpo humano; a morte da distância e o encurtamento do tempo pela comunicação e pelo comércio via internet; o rompimento da nossa prisão planetária, podendo o homem sonhar com a exploração de planetas; a passagem de nações da pobreza à abastança no espaço de uma só geração, feito inédito na história humana.


Apesar dos solavancos recentes, os leste-asiáticos demonstraram que é possível escapar da pobreza coletiva em uma só geração e que a riqueza não está nos recursos naturais, e sim nos artificiais, isto é, tecnologia e educação.


No Brasil sobram recursos naturais, mas faltam os "recursos artificiais", infectados que somos por dois animais nocivos: os necrófilos e os paranóicos. Os necrófilos são os nacionalistas, tão ciumentos dos cadáveres geológicos no subsolo, como petróleo e minério, que preferem lá deixá-los a vê-los explorados por estrangeiros.


Exemplos de burrice necrofílica foram a campanha do "minério de ferro é nosso", nos anos 20, e a campanha do "petróleo é nosso", nos anos 50. Exemplo de paranóia tecnológica foi a política de informática nos anos 70 e 80, que encareceu computadores e fez abortar, pela reserva de mercado, a fabricação de chips, como se não fôssemos carentes nos três pré-requisitos da revolução informática: massa crítica universitária, maciços investimentos em pesquisa e acesso a mercados externos.


A sociedade do próximo milênio será uma sociedade globalizada e digitalizada. Em vez de lamentações sobre a globalização, dela devemos aproveitar-nos, como parece estar fazendo a China, ao abandonar cacoetes protecionistas para ingressar na OMC. 


Precisamos nos preparar para a quarta onda de crescimento do pós-guerra, que provavelmente advirá na primeira década do milênio, alicerçada em três revoluções tecnológicas: a revolução da internet, que eliminará constrangimentos de tempo e espaço; a revolução da engenharia genética, com a clonagem de animais e a geneterapia; e a revolução da nanotecnologia, que, por meio da miniaturização, substituirá cada vez mais insumos físicos por insumos cognitivos.


O Brasil chega despreparado ao novo milênio por não ter corrigido duas deficiências fundamentais: a carência de poupança interna e o déficit educacional. Este exigirá maciça concentração de recursos na educação primária e secundária.


O déficit de poupança exigirá a correção da despoupança governamental, por uma revolução fiscal que substitua impostos declaratórios sonegáveis por impostos cobráveis eletronicamente na fonte. E a adoção, na Previdência Social, do sistema de capitalização individual, para alavancagem de investimentos.


Roberto Campos é economista e diplomata, foi deputado federal, senador e ministro do Planejamento

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