segunda-feira, 10 de maio de 2010

Seis de cada dez crianças brasileiras estudam segundo os dogmas do construtivismo, um sistema adotado por países com os piores indicadores de ensino do mundo

Marcelo Bortoloti
Oscar Cabral
Faltam metas
Típica aula construtivista: o aluno dá o ritmo

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da escola

Mais de 60% das escolas públicas e particulares no Brasil se identificam como adeptas do construtivismo. Sendo assim, parece óbvio que seis de cada dez crianças brasileiras estão sendo educadas com base em uma doutrina didática cuja natureza, objetivos e lógica devem ser de amplo conhecimento de diretores, professores e pais. Correto? Errado. Uma pesquisa conduzida pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) desvenda um cenário obscuro. Em plena era da internet, os conceitos do construtivismo parecem ter chegado ao Brasil via as ondas curtas de 49 metros de propagação troposférica, com suas falhas e chiados. Ninguém sabe ao certo como o construtivismo funciona, muito menos saberia listar as razões pelas quais ele foi adotado ou deve ser defendido. Ele é definido erradamente como um "método de ensino". O construtivismo não é um método. É uma teoria sobre o aprendizado infantil posta de pé nos anos 20 do século passado pelo psicólogo suíço Jean Piaget. A teoria do suíço deu credibilidade à concepção segundo a qual a construção do conhecimento pelas crianças é um processo diretamente relacionado à sua experiência no mundo real. Ponto. A aplicação prática feita nas escolas brasileiras tem apenas o mesmo nome da teoria de Piaget. O construtivismo tornou-se uma interpretação livre de um conceito originalmente racional e coerente. Ele adquiriu várias facetas no Brasil. Unifica-as o primado da realidade da criança sobre os conceitos básicos das disciplinas tradicionais. Traduzindo e caricaturando: como não faz frio suficiente na Amazônia para congelar os rios, um aluno daquela região pode jamais aprender os mecanismos físicos que produzem esse estado da água apenas por ele não fazer parte de sua realidade. Isso está mais longe de Piaget do que Madonna da castidade.

A experiência mostra que as interpretações livres do construtivismo podem ser desastrosas – especialmente quando a escola adota suas versões mais radicais. Nelas, as metas de aprendizado são simplesmente abolidas. O doutor em educação João Batista Oliveira explica: "O construtivismo pode se tornar sinônimo de ausência de parâmetros para a educação, deixando o professor sem norte e o aluno à mercê de suas próprias conjecturas". Por preguiça ou desconhecimento, essas abordagens radicais da teoria de Piaget são a negação de tudo o que trouxe a humanidade ao atual estágio de desenvolvimento tecnológico, científico e médico. Sua ampla aceitação no passado teria impedido a maioria das descobertas científicas, como a assepsia, a anestesia, as grandes cirurgias ou o voo do mais pesado que o ar. Sir Isaac Newton (1643-1727), que escreveu as equações das leis naturais, dizia que suas conquistas só haviam sido possíveis porque ele enxergava o mundo "do ombro dos gigantes" que o precederam. O conhecimento que nos trouxe até aqui é cumulativo, meritocrático, metódico, organizado em currículos que fornecem um mapa e um plano de voo para o jovem aprendiz. Jogar a responsabilidade de como aprender sobre os ombros do aprendiz não é estúpido. É cruel.

Em um país como o Brasil, onde as carências educacionais são agudas, em especial a má formação dos professores, a existência de um método rigoroso, de uma liturgia de ensino na sala de aula, é quase obrigatória. A origem latina da palavra professor deveria ser um guia para todo o processo de aprendizado. O professor é alguém que professa, proclama, atesta e transmite o conhecimento adquirido por ele em uma arte ou ciência. Nada mais longe da realidade brasileira, em que menos da metade dos professores é formada nas disciplinas que ensina. À luz das versões tropicais do construtivismo, essa deficiência é até uma vantagem, pois, afinal, cabe aos próprios alunos definir com base em sua realidade o que querem aprender. É claro que um modelo assim já seria difícil funcionar em uma sala de aula ideal, com um mestre iluminado cercado de poucos e brilhantes pupilos. Nas salas de aula da realidade brasileira, é impossível que essa abordagem leniente dê certo. Adverte o doutor em psicologia Fernando Capovilla, da Universidade de São Paulo (USP): "As aulas construtivistas frequentemente caem no vazio e privam o aluno de conteúdos relevantes".

Um conjunto de pesquisas internacionais chama atenção para o fato de que, em certas disciplinas do ensino básico, o construtivismo pode ser ainda mais danoso – especialmente na fase de alfabetização. Enquanto na pedagogia tradicional (a do bê-á-bá) as crianças são apresentadas às letras do alfabeto e aos seus sons, depois vão formando sílabas até chegar às palavras, os construtivistas suprimem os fonemas e já mostram ao aluno a palavra pronta, sempre associada a uma imagem (veja o quadro). A ideia é que, ao ser exposto repetidamente àquela grafia que se refere a um objeto conhecido, ele acabe por assimilá-la, como que por osmose. De acordo com a mais completa compilação de estudos já feita sobre o tema, consolidada pelo departamento de educação americano, os estudantes submetidos a esse método de alfabetização têm se saído pior do que os que são ensinados pelo sistema tradicional. Foi com base em tal constatação que a Inglaterra, a França e os Estados Unidos abandonaram de vez o construtivismo nessa etapa. O departamento de educação americano também o contraindicou para o ensino da matemática – isso depois de uma sucessão de maus indicadores na sala de aula.

O construtivismo ganhou força na pedagogia durante a década de 70, época em que textos de Piaget e de alguns de seus seguidores, como o psicólogo russo Lev Vygotsky (1896-1934), vários dos quais traduzidos para o inglês, foram descobertos nas universidades americanas. Foi a partir daí que a corrente se disseminou por escolas dos Estados Unidos e da Europa. No Brasil, virou moda. Uma década mais tarde, porém, tal corrente começaria a ser gradativamente abandonada nos países que a adotaram pioneiramente. Os responsáveis pelo sistema educacional daqueles países chegaram a uma mesma conclusão: a de que a adoção de uma filosofia que não se traduzia em um método claro de ensino deixava os professores perdidos, deteriorando o desempenho dos alunos. Hoje, são poucos os países ainda entusiastas do construtivismo. Entre eles estão todos os de pior desempenho nas avaliações internacionais de educação. Com seis de cada dez crianças brasileiras entregues a escolas que se dizem adeptas do construtivismo, é de exigir que diretores, professores, pais e autoridades de educação entendam como se atolaram nesse pântano e tenham um plano de como sair dele.

5 comentários:

  1. Este texto reflete a valorização de um sistema de ensino conteúdista, que priva as pessoas de aprender a pensar e dar significado ao que aprendem. O autor só esqueceu de dizer que o ensino tradicional é o responsável pela formação dos adultos que temos hoje, em grande maioria, semi-analfabetos! O problema não está nas ideias construtivistas, mas nas aplicações deturpadas destas ideias pelos professores mal formados que nosso país possui, que ganham pouco e não são valorizados!
    Fabrício cruz
    Professor

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  2. Fabrício, os adultos de hoje são semi-analfabetos??? Creio que você não é semi-analfabeto!! Então você não estudou na escola tradicional? Será mesmo que o ensino tradicional é responsável pelo semi-analfabetismo? O que você me diz do sucesso das escolas conteúdistas? Não estou defendendo o ensino conteúdista/tradicional e não acho que a reportagem valoriza o ensino conteúdista. O texto é interessante para debatermos a educação. O que colocar no lugar do tradicional/conteúdista? Hoje o que é melhor: um construtivismo deturpado ou um tradicional conteúdista? Que dilema heim??? Você tem razão quando fala da deturpação das idéias do construtivismo e da má formação e desvalorização dos professores. Só esqueceu de falar que essas idéias deturpadas do construtivismo NÃO são somente dos professores. Você não acha que falta mais políticas públicas para uma formação inicial adequada e também para a formação continuada dos professores?

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  3. O texto como dito acima é muito bom para debatermos o assunto construtivismo vs conteudista. E particularmente sou a favor da conteudista. Não creio que os grandes nomes da ciência foram ensinados com métodos construtivistas a parte intelectual deles eram aguçadas pois adquiriram ferramentas para isso e isso é conteúdo.

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  4. O texto é muito bem escrito e nos leva a uma discussão boa, em se tratando de século XX a necessidade é inovar, não devemos ficar igual politica ou se é da esquerda, ou se é da direita.O que interessa é a evolução do aluno então está mais do que na hora de medir "o fubá com a água" como dizia meu falecido pai, para ficar mais claro os dois meios de ensino têm seus méritos e glorias portanto; o que já passou da hora de ser feito e utilizar o que se tem de positivo em um e outro.

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  5. O texto é muito bem escrito e nos leva a uma discussão boa, em se tratando de século XX a necessidade é inovar, não devemos ficar igual politica ou se é da esquerda, ou se é da direita.O que interessa é a evolução do aluno então está mais do que na hora de medir "o fubá com a água" como dizia meu falecido pai, para ficar mais claro os dois meios de ensino têm seus méritos e glorias portanto; o que já passou da hora de ser feito e utilizar o que se tem de positivo em um e outro.

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